UM MENINO, UM LOBO E UM BANDO DESAJUSTADOS

Menino & Lobo é uma tira em quadrinhos que aborda a relação de um garoto, chamado Apollo, com seu amigo de estimação, um lobo sábio e afetuoso chamado Nestor. A tira tem como premissa a frase “O homem é o lobo do homem”, tornada célebre pelo filósofo Thomas Hobbes.


Apollo é um menino que passa a maior parte do tempo questionando a natureza humana e a forma como nos relacionamos e agimos. As conclusões obtidas são, na maioria das vezes, decepcionantes, fazendo com que ele se envergonhe da sua própria espécie. Se pudesse escolher, Apollo definitivamente não seria um humano. Do lado oposto temos Nestor, um lobo muito bem resolvido em relação à vida e a sua existência. Seus comentários e sua conduta deixam claro que ele se sente superior à raça humana. Ele é a parte racional da relação, sempre tentando agir de forma consciente e menos impulsiva. Outros personagens que compõem o universo da tira são Lucius, um cão alcoólatra e desbocado que não tem medo de dizer o que pensa e Veronika, a pré-adolescente que odeia pessoas, prefere os animais e nutre uma paixão platônica por Lucius.


A ideia inicial da tira veio da minha sobrinha que andou uma época com mania de lobos. Tudo era lobo! O lobo tava embaixo da cama; o lobo tava atrás do sofá; o lobo ia roubar seus brinquedos... Daí, eu comecei a rabiscar um lobo no meu sketchbook. Mas, ao contrário do imaginário popular, minha intenção era criar um lobo amigo. Até que a frase de Thomas Hobbes (o homem é o lobo do homem) me veio à cabeça e senti vontade de trabalhar isso em forma de quadrinhos. Escolhi um menino pra representar a figura humana por acreditar que a infância é a melhor fase da nossa vida. Então, comecei a brincar com o contraste existente entre o comportamento humano e o animal, sempre com o objetivo de mostrar nosso pior lado. O resto veio de maneira espontânea. Lucius, por exemplo, nasceu da necessidade de extravasar todo o sarcasmo e deboche acumulados dentro de mim. Só precisei colocar uma cerveja em suas mãos e ele cumpriu bem o serviço.


Eu tenho um coquetel de influencias que ajudam a compor meu trabalho. Gosto de animações como Beavis and Butt-Head, a Vaca e o Frango, Ren & Stimpy, O Fantástico Mundo de Bobby e Eeck The Cat. Entre meus escritores favoritos estão Hunter S. Thompson, Chuck Palahniuk, David Sedaris e Lourenço Mutarelli. Biografias e documentários também rendem boas histórias. Ironicamente, não costumo ler quadrinhos, mas entre os cartunistas que me influenciaram posso citar Bill Watterson, Berkeley Breathed e Stephan Pastis.


Todo o meu trabalho é baseado no contraste e na quebra de estereótipos. Lucius é sarcástico e alcoólatra, o que o distancia demais da imagem que temos dos cães. Nestor, mesmo sendo um lobo selvagem, é muito racional e emotivo. Apollo, apesar de ser uma criança, utiliza um vocabulário rebuscado pra sua idade, abordando questões que muitos adultos sequer compreendem. Eu acho que a graça tá justamente em você presenciar os personagens agindo de forma inusitada, debatendo assuntos que fazem parte das nossas vidas. E a política é um terreno fértil pra isso. Gosto de assistir meus personagens discutindo questões sociais e políticas que estão ocorrendo diante dos nossos olhos enquanto estamos ocupados demais de cabeça baixa olhando pro celular.


Não tenho restrição nenhuma em relação a temas. Acho que a grande virtude do meu trabalho é poder compartilhar com outras pessoas assuntos que considero relevantes e é justamente isso que procuro fazer. Acho que o humor é a melhor maneira de superarmos ou convivermos com os problemas que nos aflige e, considerando o atual momento político-social que estamos vivendo, cada vez mais eu tenho certeza de que falta humor no mundo. Quer dizer, o humor existe, as pessoas é que precisam aceitá-lo.


Então é isso. Espero que vocês aceitem Menino e Lobo, mas sintam-se à vontade para discordar ou, até mesmo, odiá-los. Afinal, eu reconheço que não é tarefa fácil apreciar esse bando de desajustados.


Para ler as tiras do Menino e Lobo é só clicar aqui.



Felipe Attie

IDIOTAS

Os Idiotas são criaturas que acreditam deter sempre a razão e uma interminável fonte de conhecimento, o que faz com que sejam insuportavelmente arrogantes. Os Idiotas também são criaturas frustradas e, consequentemente, mentirosas. Tais características fazem com que eles estejam sempre contando sobre feitos inacreditáveis que ninguém, além de outro Idiota, é capaz de acreditar.


Entre outras peculiaridades dos Idiotas estão a ausência de senso de humor, a total falta de vergonha na cara, a mesquinharia e o machismo. Todo Idiota é machista, não importa seu sexo. Se o Idiota for homem, ele se acha um exemplo de masculinidade a ser seguido. Ele fala alto pra tentar demonstrar autoridade, grita nos churrascos e diz que beber cerveja é coisa de homem e que música clássica é coisa de viado. Se o Idiota for mulher, provavelmente, ela se casará com um Idiota homem e passará o resto da vida concordando com as idiotices do maridão, enquanto coloca o jantar no forno e executa as outras tarefas domésticas que são consideradas coisas de mulher.


Os Idiotas compartilham a opinião de que os idiotas homens vestem azul e mulheres vestem rosa. Meninos e meninas não podem brincar juntos, homem não chora, mulheres não trabalham e não podem transar no primeiro encontro.


Idiotas também costumam acreditar e revisitar teorias absurdas que foram criadas por Idiotas do passado, fazendo com que a chama da idiotice se mantenha viva através dos séculos. A teoria da Terra Plana e o movimento antivacina são alguns exemplos de idiotices antigas bastante atuais.


Infelizmente, ao contrário do mico-leão-dourado e do jacaré-do-papo-amarelo, os Idiotas não estão em extinção. Pelo contrário, a população de Idiotas está em constante crescimento pandêmico, uma vez que eles se reproduzem através do contato social. Isso mesmo, basta que um Idiota te diga “oi” para que você comece a correr grande risco de se infectado. Portanto, tome cuidado! Não adianta lavar as mãos e usar álcool em gel. Para se livrar do vírus da idiotice é preciso ignorar os infectados, fazendo com que mínguem no breu da ignorância e padeçam solitários até a morte. Só assim poderemos construir um mundo sem Idiotas. E não se esqueçam: vacinem seus filhos!

Felipe Attie

QUANDO O BARATO SAI CARO

Foi-se o tempo em que os restaurantes do centro do Rio de Janeiro disputavam clientes pelo paladar. Hoje, após a crise financeira ter se estabelecido entre os cariocas, os empresários do ramo gastronômico decidiram conquistar a clientela pelo preço. O slogan que antes era “Aqui você come mais gostoso!” foi substituído por “Aqui você come mais barato!”, resultando numa queda brusca, não só nos preços, como na qualidade gastronômica. Tive minha própria experiência, quando decidi arriscar minha saúde — já bastante debilitada pelo álcool —, almoçando num desses restaurantes conhecidos pelos seus preços populares.


Logo na entrada, você nota que lá dentro as coisas são realmente populares. Parece que toda a população do Rio de Janeiro está lá, dificultando sua passagem até o balcão dos talheres. Como se isso não fosse o suficiente para roubar seu apetite, outra característica desses estabelecimentos é a capacidade que um alimento tem de se parecer com outro. Tirando o arroz e feijão, nada mais naquele lugar se parece com o que de fato é. No meu prato, por exemplo, tinha arroz, feijão, beterrabas que pareciam jilós, um pouco de batatas que lembravam moela e um pedaço de lasanha que, de acordo com o cardápio, era considerada carne.


O que acontece é que, devido ao baixo valor cobrado pela refeição, cada cliente só tem direito a se servir de um único tipo de carne. E com o intuito de restringir as opções a ponto de compensar o valor cobrado, eles incluem uma variedade de alimentos de custo mais elevado no grupo denominado carne.


“Mas lasanha não é carne!”, reclamei indignado.


“Qual o sabor da sua lasanha, senhor?”, perguntou a servente, olhando-me com indiferença.


“À Bolonhesa”, respondi.


“Então é carne.”


Dei de ombros, aceitando a nova nomenclatura que a lasanha havia acabado de receber, e comecei minha busca por um lugar vazio onde eu pudesse sentar e comer minha refeição. É aí que mora outro problema característico desses estabelecimentos. Na tentativa desesperada de acomodar o maior número possível de clientes, os administradores desses restaurantes têm o péssimo costume de adotar bancadas ao invés das tradicionais mesas. Isso faz você almoçar ao lado de pessoas estranhas que passam o tempo todo observando seu processo alimentar de maneira constrangedora e irritante.


Ao dar a primeira garfada no que pareciam ser batatas, eu fui surpreendido por um sabor adocicado semelhante ao de bananas. Engoli outra garfada e o sabor ser revelou ainda mais misterioso. Comi uma terceira garfada, mastiguei com calma, e cheguei à conclusão de que aquilo definitivamente não era batata.


Perguntei à servente que alimento era aquele em meu prato, mas ela não soube me dizer.


“Você não sabe me dizer o que é isso?”, perguntei surpreso, apontando com o garfo para o meu prato.


“Meu filho, se você que tá comendo não sabe o que é isso, como eu, que tô só olhando, vou saber?”


“Pode provar, se quiser”, disse, oferecendo uma garfada.


“Quero não. Obrigada”, respondeu ela, fazendo uma careta de nojo que revelou muita coisa sobre aquele lugar.


“Isso é banana caramelada”, falou uma mulher que estava limpando o chão ao nosso lado. Ela era baixinha e segurava uma vassoura enrolada em um pedaço de pano mais sujo que o chão que ela esfregava insistentemente.


Banana caramelada?! Tem certeza?”


“Tenho. Fui eu que fiz.”


Você que fez?”


“Foi. Por quê? Não gostou?”, perguntou ela, mergulhando o pano encardido num balde com desinfetante.


“Eu achei que você fosse faxineira.”


“Sou também. Mas aqui, a gente faz de tudo”, respondeu ela, pegando o balde e o esfregão. “Agora deixa eu ir, que vem a pior parte!”, resmungou, antes de partir rumo ao banheiro masculino.


Como um diabético responsável que tento ser, fui até o gerente, expliquei o mal entendido e pedi para me fornecer outro prato.


“Poxa! Vamos perder uma carne!”, lamentou o gerente, apontando para a minha lasanha.


Fiz que sim com a cabeça, ainda confuso com a nova nomenclatura da lasanha.


Ele partiu com o meu prato rumo à cozinha e eu voltei ao início da fila para montar minha nova refeição, dessa vez, sem as bananas carameladas.


Enquanto eu decidia entre aipins que pareciam inhames ou couves-flores semelhantes a brócolis, um funcionário abriu espaço no balcão e colou à disposição uma nova travessa de lasanhas. Ao olhar para a tal travessa, me surpreendi ao ver o meu pedaço lá, quietinho, acuado entre os outros. Como tenho tanta certeza? Simples. Era o único pedaço de lasanha que tinha marcas em forma de coração feitas pelo garfo — desde pequeno tenho o hábito de brincar com a comida. Na mesma hora, eu pensei em denunciar o estabelecimento e armar um escândalo típico de quando estou alcoolizado, mas me dei conta de que seria uma situação um tanto ridícula, gritar para todo o restaurante que aquela lasanha com um coração desenhado era minha. Sendo assim, preferi entrar numa nova disputa por espaço, engolir aquilo que habitava meu prato e sumir daquele lugar o mais rápido possível.


Passei dias pensando no ocorrido e quanto mais eu pensava, mais eu me assustava com a possibilidade de já ter comido algo rejeitado por alguém. Então eu concluí que era uma preocupação desnecessária. Afinal, se você está disposto a entrar num restaurante como aquele, deve ter em mente que a única coisa que importa é o preço cobrado pela refeição.


Felipe Attie 

HIPOTRIP

A viagem de um jornalista diabético rumo ao buraco negro da hipoglicemia.


A diabetes é uma doença crônica que atinge cerca de 380 milhões de pessoas em todo o planeta e, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), esse número tende a aumentar. A OMS calcula que, em 2030, a diabetes será a sétima principal causa de morte. O Brasil é o quarto país com mais diabéticos no mundo, com cerca de 13 milhões de portadores. Eu sou um deles.

Desenvolvi diabetes na adolescência. Anos convivendo com essa doença me forneceram vasta experiência para lidar com os seus transtornos, principalmente referentes a hipoglicemia. Meu medo de ficar perneta, cego ou brocha que, segundo a medicina, são problemas decorrentes de quem mantém a taxa de glicemia elevada, faz com que eu tome mais insulina do que o necessário. Sim, eu aplico mais insulina do que o aconselhado pela minha receita médica. Isso condicionou meu organismo a funcionar com níveis cada vez mais baixos de glicose e o risco de entrar em coma por falta de açúcar tornou-se parte da minha rotina.

Foi então que decidi escrever um relato sobre uma crise de hipoglicemia, que costumo chamar de Hipotrip. Vou descrever cada sensação sentida, enquanto minha glicose despenca rumo à morte. Perguntei a um especialista o que ele acha sobre essa empreitada e sua resposta foi: “Isso é loucura! Uma atitude irresponsável e muito perigosa. A hipoglicemia oferece um risco muito maior ao paciente, pois, ao contrário da hiperglicemia, os baixos níveis de açúcar podem levar ao óbito imediatamente”, disse um endocrinologista que preferiu não ter sua identidade revelada. “Se você morrer, eu não quero meu nome vinculado a isso”, alertou. Portanto, caro leitor, deu pra notar que a coisa é séria. Jamais tente isso em casa. Agora, mãos à obra que a viagem é louca. Ah! Em relação ao nosso médico, vamos chamá-lo de doutor Ricardo.

 

19h22

Glicose: 148 mg/dl

Minha glicose está um pouco alterada. “A taxa de glicose não pode ser maior do que 99mg/dl para pessoas não diabéticas e 110 mg/dl para diabéticos”, explica Ricardo. Aplico 6 unidades de insulina de ação rápida e aguardo a Hipotrip começar. Ricardo diz que “os calafrios e a sudorese, quase sempre, são os primeiros sinais da hipoglicemia, mas isso pode variar de acordo com o organismo da pessoa”.

 

21h35

Glicose: 56 mg/dl

Enquanto finalizo algumas ilustrações que estão pendentes, começo a sentir um leve mal-estar. Uma sensação de fraqueza que me deixa indisposto para continuar desenhando. Meus lábios tremem como se minha boca quisesse dizer alguma coisa por conta própria (talvez, me xingar por estar submetendo meu corpo a algo tão estúpido). Em seguida, meu corpo começa a coçar. É como se meus músculos estivessem formigando. Um comichão perturbador que brota por debaixo da pele. Por mais que eu esfregue, nada põe fim a essa incomoda sensação. Não tenho escolha, senão, deixar o papel e caneta de lado e abortar o desenho.

Minha namorada liga e diz que está vindo pra minha casa. Acho uma boa ideia. Pelo menos terei alguém pra encontrar meu corpo, caso o pior aconteça.

 

22h10

Glicose: 42 mg/dl

As “formigas” que caminhavam dentro de mim desapareceram. Meus pés e mãos estão gelados. Minha respiração está densa. Preciso puxar mais ar do que o necessário para respirar. Coloco o filme Gata Velha Ainda Mia (com Regina Duarte e Bárbara Paz) para me distrair. Recebo uma mensagem da minha namorada dizendo que vai se atrasar. Espero que ela chegue a tempo de me levar ao hospital.

 

23h

Glicose: 39 mg/dl

Quase uma hora se passou e minha glicose, apesar de baixa, se mantém estável. De acordo com Ricardo “quando o organismo está sofrendo uma crise severa de hipoglicemia, uma quantidade reserva de glicose é liberada como medida de emergência”. Sendo assim, aplico mais duas unidades de insulina de ação rápida (o que, nas atuais circunstâncias, pode ser considerado suicídio). O filme continua mas, mesmo com Bárbara Paz mostrando a bunda e os seios nada é capaz de prender minha atenção. Sinto dificuldade para respirar. Meus olhos pesam... não consigo me concentrar... estou me sentindo sonolento... fraco...

 

23h45

Aceleração cardíaca. Abro os olhos e estou deitado na cama. Meu coração bate furiosamente contra as paredes da minha caixa torácica. Apesar do desconforto, eu sei que isso nada mais é do que meu organismo liberando adrenalina para me manter acordado. Ouço um barulho vindo da cozinha. Alguém acendeu o fogão. Saio do quarto e me deparo com minha namorada fumando um cigarro.

“Você chegou tem muito tempo?”

“Tá maluco? Eu falei com você. Mas você tava vendo filme e eu vim aqui fora fumar.”

“Não vi.”

“Como assim?! Você guardou minha bolsa no armário!”

“Eu? Sua bolsa? Não lembro.”

Então eu percebo que estive fora do ar por alguns instantes. Essa é uma das características da Hipotrip. Enquanto minha namorada prossegue com a conversa, meu organismo começa a implorar por um bocado açúcar. “Durante uma crise de hipoglicemia, na tentativa de se manter vivo, o organismo prioriza as funções mais vitais, como a respiração, por exemplo. Com isso, um simples diálogo torna-se algo complicado de ser realizado”, explica Ricardo.

“O filme é legal?”

“Que filme?”

“O filme que você tava vendo!”

Para formular uma simples resposta, eu preciso me concentrar, respirar fundo e ordenar as palavras mentalmente antes de pronunciá-las.

“É legal! A gata mia!”

“Que gata mia?”

Permaneço calado, torcendo para que minha namorada entenda o que estou tentando dizer e poupe-me da árdua tarefa de ter que repetir.

“Você tá bem?”

“OK”, repondo. Em seguida, abano as mãos para dissipar a fumaça exalada pelo seu cigarro. Uma atitude compreensível, se não fosse pelo fato de ela não estar mais fumando.

“O que você está fazendo?”

Percebo minha gafe e tento consertar as coisas dizendo “O seu negócio aí no cabelo... No seu cabelo... Ele tá vindo pra cá.”

“Que negócio? Você tá com a glicose baixa?!”, ela pergunta, já conhecendo meu histórico hipoglicêmico.

Minhas mãos começam a tremer. Os espasmos rapidamente se espalham pelo meu corpo, dificultando ainda mais minha respiração. Percebo que a qualquer momento eu vou apagar. Não tenho escolha, a não ser pronunciar a palavra que serve como sinal de alerta para todos que me conhecem: “açúcar”.

Toda Hipotrip tem um ápice. É quando seu corpo, após ter consumido toda sua reserva de glicose, chega ao esgotamento extremo. A partir daí, você para de raciocinar e começa a perder os sentidos. Nesse ponto, se não tiver alguém para te ajudar, você certamente morrerá”, esclarece o doutor.

Procuro minha namorada mas não encontro. Ela desapareceu! Preciso de açúcar. Sinto algo me puxar pelos ombros e me arrastar para o quarto.

“Fica aqui!”, minha namorada ordena, colocando-me sentado na cama. Em seguida, ela pega meu aparelho de glicose e pergunta: “Como liga essa merda?!”

“Tava... eu... desenhando... açúcar...”

“Anda, me diz! Como liga essa coisa?!”

De acordo com minha namorada, nesse instante, eu pego o controle remoto da televisão e aperto contra o meu dedo. Estou incapaz de diferenciar o coletor de sangue usado para verificar a glicose do controle remoto de televisão. Preciso urgentemente de açúcar.

“Existem duas maneiras de tratar a hipoglicemia. Se o paciente estiver inconsciente é necessário aplicar injeções de glucagon ou glicose intravenosa. Caso contrário, a ingestão de açúcar e sucos de fruta soluciona o problema”, explica Ricardo. E foi exatamente o que minha namorada fez, ao aparecer na minha frente segurando um copo de água com açúcar e uma lata de leite condensado.

Eu bebo. Conforme o açúcar entra no meu corpo, meu organismo se recompõe. Meu coração desacelera, a respiração tranquiliza, os tremores cessam e minha visão volta ao normal. Olho para minha namorada e seu semblante não é nada bom. Ela está com a cara amarrada e o dedo lambuzado de leite condensado apontado para mim.

“Que merda foi essa que aconteceu?”, pergunta ela, num misto de preocupação e revolta.

Penso em explicar os loucos e doentios momentos que ela acabou de presenciar, mas desisto. De nada adiantaria explicar. Ela nunca entenderia. Ninguém nunca entenderá. Afinal, se tem uma coisa que eu aprendi com essa doença é que algumas coisas só podem ser compreendidas, quando se está com a glicose quase zerada.






Felipe Attie

VELHO DEMAIS PARA GANHAR PRESENTES

Eu sempre gostei do Natal. Talvez, seja pelo espírito infantil que ainda vive dentro de mim, ou pelo saudosismo que me faz olhar para trás e concluir como foi boa a minha infância.  Não sei ao certo o que me faz gostar tanto dessa época do ano, só sei que ela me enche de felicidade mesmo com todas as suas tradições idiotas. A minha família, por exemplo, sempre teve o costume de se reunir nas noites de Natal. Quando eu digo família, eu não estou me referindo apenas a pai, mãe, tios e avós. Mas sim, a todas as pessoas que fazem parte da mesma árvore genealógica, não importando o quão distante do tronco fica o galho de onde elas vêm. Por isso, a lembrança que tenho do Natal é a da casa cheia de pessoas que eu mal sabia que eram meus parentes.


“Você que é o filho do Pedrinho?”, perguntava um sujeito careca que eu nunca tinha visto antes.


“É ele sim!”, afirmava uma velha pelancuda. “Olha como ele cresceu!”


“É a cara do pai!”, completava o sujeito.


“Peguei você no colo!”, exclamava a velha, apertando as minhas bochechas com as mãos sujas de rabanada.


“Felipe, vem cá!”, gritava meu pai do outro lado do quintal.


Eu olhava e lá estava ele, acompanhado de uma mulher que eu nunca tinha visto nem em fotos de família.


“Que foi, pai?”


“Essa aqui é Helena”, dizia ele, apontando para a mulher. “Ela é prima de segundo grau do tio Chico, primo do papai.”


Então eu permanecia calado, tentando entender a origem genética de Helena, minha mais nova tia.


Todo ano era a mesma coisa. A cada Natal, eu conhecia, pelo menos, um casal de tios novos. Às vezes, eles vinham com um primo de brinde.


“Você é o Felipe?”


“Sou.”


“Legal! Eu sou o Pablo, seu primo.”


Cenas como essas eram comuns nas festas de fim de ano da minha família. Quando os estranhos não vinham até a gente, meus pais nos forçavam a ir até eles, colocando em prática a tradição de dedicar o mês de dezembro para visitar os parentes distantes. Apesar de eu e meu irmão não acharmos nem um pouco divertido participar dessa burocracia familiar, nós tínhamos a esperança de ganhar algum presente pelo caminho. Afinal, todos sabem que o público alvo das festas natalinas são as crianças. Mas sempre acabávamos frustrados.


“Nossa! Como vocês estão bonitos!”, dizia uma tia que tínhamos acabado de conhecer.


Eu e meu irmão nos entreolhávamos, respirávamos fundo e nos preparávamos para o interrogatório.


“Vocês estão estudando?”


Fazíamos que sim com a cabeça.


“Passaram de ano?”


Fazíamos que sim com a cabeça.


“Muito bem! Só vão ganhar presente se forem bem nos estudos!”, dizia ela, abrindo uma gaveta, de onde tirava dois embrulhos pequenos e malfeitos.


Eu e meu irmão nos olhávamos, já prevendo o cruel destino que nos aguardava.


“Esse é para você e esse é para você”, dizia ela, entregando um pacote para mim e outro para o meu irmão.


Então nós abríamos e víamos que se tratava de duas canetas iguais, diferenciadas, no máximo, pela cor.


“Vocês gostaram?”, perguntava ela, sorridente.


Nossa resposta era um “sim” tão falso quanto o nome Montblanc decalcado na caneta que havíamos acabado de receber.


Se cada tio e tia que conhecêssemos durante o Natal nos presenteassem com algo digno de ser chamado de presente, eu e meu irmão poderíamos abrir uma revendedora de brinquedos. Mas, para o nosso azar, tudo que ganhávamos eram canetas. De modo que, quando completei 12 anos, eu já tinha uma gaveta cheia de Montblancs falsificadas — a última que eu me lembro, foi usada durante a faculdade.


Mas, no quesito presentes, ninguém conseguia competir com tia Fátima, minha madrinha. Sempre vinham dela os presentes mais esquisitos. Todo Natal, o mesmo ritual se repetia: tia Fátima aparecia sorridente e saltitante, segurando um saco maior que o do Papai Noel, reunia todos os sobrinhos na sala e, em meio a um clima de tensão e expectativa que ela mesma fazia questão de criar, chamava um por um para receber seu presente.


“Esse aqui é do... é do... é do... Felipe!”, gritava tia Fátima, segurando um embrulho igual a todos os outros que estavam dentro do saco.


Eu me levantava, pegava meu presente e, antes de abri-lo, era interrompido por algum comentário seu — ela sempre fazia comentários que pudessem valorizar seus presentes.


“Essa é uma pedra ametista, representante do signo de gêmeos, o seu signo. Ela tá energizada para te trazer bons fluídos!”, comentou ela certa vez.


“Mas tia, eu sou de câncer!”


“Não senhor! Você é gêmeos, igual ao seu primo Bruno!”


“Não, Fátima, o Felipe é câncer!”, interrompeu minha mãe.


“Nada disso, ele é gêmeos!”


“O que eu faço com isso, tia?”, perguntei, com a pedra apoiada na palma da mão.


“Ele é do dia 21 de Junho, Fátima! É o primeiro dia de câncer!”


“Eu quero minha pedra! Eu quero a minha pedra!”, berrou meu irmão, sentindo-se injustiçado por não ter ganhado sua pedra energizada.


“O que eu faço com isso tia?”


“Guarda com você pra te trazer sorte!”


Lembro-me de ter colocado a pedra no bolso e nunca mais a vi. Com certeza, ela deve ter caído pelo quintal durante a noite, enquanto eu brincava empolgado com os presentes de verdade que eu havia ganhado naquele Natal.


Certo ano, após ter realizado seu tradicional ritual de entrega de presentes, tia Fátima me chamou secretamente num canto da casa. “Esse é especialmente para você, meu afilhado lindo da dindinha!”, disse ela, entregando-me um embrulho.


Abri o pacote e me deparei com um anel.


“É de ouro branco!”, disse ela, entusiasmada.


Olhei para o anel, olhei para ela, olhei para o anel, olhei para ela, tentando entender o que leva alguém a dar um anel como presente de Natal para uma criança.


“Não vai usar?”


Tentei colocar o anel no dedo indicador, conforme ela havia dito, mas ele ficava largo até no meu polegar.


“O que tem de errado com o seu dedo?”


“Com o meu dedo nada, tia. O anel que é grande.”


“É grande coisa nenhuma! Você que tá magrinho demais!”


O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando ela me deu um cordão de prata que vinha até o meu umbigo mesmo dando duas voltas no meu pescoço.


Ao contrário de mim, meu irmão sempre teve sorte com os seus padrinhos. Tio Tonico e Tia Laiza acertavam em cheio no que dar de presente de Natal. O momento em que eles entregavam os embrulhos para serem abertos era um dos mais aguardados da noite e até eu desfrutava dessa glória. Afinal, eles também me presenteavam com coisas magníficas, talvez, por sentirem pena da minha coleção de canetas e pedras energizadas.


Apesar da situação financeira lá de casa ser um pouco apertada, eu e meu irmão nunca deixamos de ganhar bons presentes de Natal. Todo ano, o mesmo protocolo se repetia: em novembro, eu e meu irmão já tínhamos escolhido o que queríamos ganhar e, logo assim que falávamos com nosso pai, começava a contagem regressiva para o Natal. Nossa única preocupação era controlar a ansiedade e, lógico, passar de ano na escola. Foi assim, até os primeiros fios de barba nascerem no nosso rosto. Então, ele olhou pra gente e disse “vocês estão velhos demais para ganhar brinquedos e eu mais velho ainda pra ficar perambulando atrás de presentes”. Meteu a mão no bolso, puxou duas notas de cem e entregou uma pra mim e outra pro meu irmão, iniciando assim, um novo ritual natalino.




Felipe Attie 

SEMPRE VAI TER ALGUÉM ADMIRANDO O SEU GRAMADO

“O que é a tatuagem pra você?”, perguntou a gerente de um dos estúdios de tatuagem por onde passei, assim que pisei em São Paulo.


“Como assim?”, questionei. Sou daqueles que, diante um questionamento óbvio, sempre pensa que a pergunta é mais profunda do que parece.

 

“Quero saber o lugar que a tatuagem ocupa na sua vida. Qual a sua visão sobre o trabalho que faz”, explicou ela.

 

Sabia que a pergunta era mais profunda do que parecia ser. Refleti sobre a incrível oportunidade que meu trabalho me proporciona, de poder marcar a pele e a vida das pessoas, mas preferi responder que a tatuagem é basicamente o meu ganha pão.

 

“Você é do Rio?”

 

“Sou.”

 

“Por que decidiu vir pra São Paulo?”

 

“Porque to de saco cheio do Rio. To querendo respirar novos ares.”

 

“Mas por que São Paulo? O Rio é tão diferente daqui. Tão verde! Tão maravilhoso! Tão alto-astral! São Paulo é só poluição e caos!”

 

“Eu gosto de poluição e caos.”

 

Ela soltou uma gargalhada e disse que eu pareço ser uma pessoa bem tranquila.

 

“Assim como o Rio parece ser uma cidade maravilhosa e não é.”

 

“Veio sozinho?”

 

Fiz que sim com a cabeça.

 

“Não conhece ninguém aqui?”

 

“To conhecendo.”

 

“E o que te faz pensar que você vai conseguir se adaptar?”

 

“Não tenho nada a perder.”

 

“Faz sentido.”

 

Continuamos conversando sobre família, vida, trabalho, de forma que eu me senti num consultório de análise. Olhei para os pôsteres e a decoração do lugar para me convencer de que, de fato, havia entrado em um estúdio de tatuagem. No fim, ela pegou meu cartão, alegando me procurar para participar de um evento de tattoo que tava pra acontecer, me deu um abraço apertado e soltou: “Não deixa essa cidade contaminar você”.

 

“Contaminar?”

 

“É. Contaminar. Essa prisão de concreto enlouquece qualquer um!”

 

“Entendi”, respondi, sorrindo. “Acho difícil alguma coisa ser capaz de me contaminar!”

 

“Você que pensa”, sentenciou ela. “Cuidado!”

 

Suas palavras ecoaram na minha cabeça por um bom tempo, despertando em mim a velha máxima: a grama do vizinho é sempre mais verde.

 

Minha estadia em São Paulo provou que, de fato, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Eu achava que fosse o único amargurado com seu lugar de origem, mas não. Quanto mais conheço gente, mais vejo que isso é um mal que assola quase todos. Sempre que me escutavam dizer que fui pra São Paulo pra tirar férias do Rio, a reação era unanime: “Cê tá louco de sair do Rio, meu! Cê tá louco!”; “Sampa não tem nada! Só trabalho e os rolê são tudo caro!”; “As praias do Rio são lindas, mano! O que cê veio fazer aqui?”; “Sampa só é bom pra trabalhar. De resto, é maior embaçado!”. Então, eu soltava: “Você fala isso, porque não mora lá”. Em resposta, escutava: “E você não mora aqui”. Então, eu me calava e consentia.

 

Realmente, nunca estamos satisfeitos. Não estamos satisfeitos com nosso trabalho, nosso salário, nosso relacionamento, nosso carro, nosso celular... Nunca estamos satisfeitos com a vida que temos. Eu sempre achei que a insatisfação fosse o primeiro passo pra mudança e que a mudança fosse o único caminho que nos levasse ao crescimento. Tenho mudado minha visão em relação a isso.

 

Até que ponto devemos dar ouvidos as aflições que nos perturbam? Será que tudo que nos incomoda precisa ser mudado ou exterminado da nossa vida? Talvez não. Talvez, aprender a conviver com determinadas inquietações seja uma boa forma de amadurecer e se manter preparado para as amarguras da vida. Como diria o pai do Calvin, da tirinha Calvin and Hobbes, “fortalece o caráter”. Afinal, assim é a vida: mesmo você achando a grama do vizinho um pouco mais verde, sempre vai ter alguém admirando o seu gramado.

 

Felipe Attie

16 BITS

Sou da época dos videogames de 16 Bits. No meu tempo de moleque, os jogos eram, em sua maioria, compostos de um personagem andando na horizontal pulando em plataformas flutuantes e esmagando vilões com pisadas na cabeça. Até tinha uns jogos de tiro aqui, outros de luta ali, uns de corrida lá, mas a maioria era no velho esquema horizontal, batizado de jogos de plataforma. Era bem diferente dos jogos de hoje em dia, que são tão reais que falta pouco para nos ferirmos de verdade enquanto jogamos.


Se me perguntarem quais os nomes completos dos meus avós ou os nomes de todos os meus tios, eu entro num troca-troca sem fim, batizando avó com nome de primo e tio com nome de sogra. Mas sou capaz de numerar em ordem cronológica e sem gaguejar, todos os videogames que tive e seus respectivos jogos.


Tudo começou com o bom e velho Atari, que meu pai comprou quando eu ainda estava rabiscando as paredes do útero da minha mãe. Aprendi rápido que se você pegasse seu joystick e apertasse o botão vermelho ou mexesse naquela manete anatomicamente pornográfica alguma coisa de legal acontecia na tela da TV. Os jogos que me recordo são os clássicos Pacman, Enduro, Pitfall, River Raid e Hallowen — onde você controlava uma garotinha que devia salvar o irmãozinho imbecil que sempre era decapitado pelo vilão. Minha mãe era viciada num joguinho idiota de um esquimó que pulava sobre cubos de gelo que passavam cada vez mais rápido pela tela. Quando ela sentava para jogar aquela merda, sabíamos que não teríamos jantar.


Em seguida veio o Turbo Game. Um dos principais motivos que fez meu pai comprá-lo foi o fato de ele possuir a tecnologia Dual Slot — que aceitava tanto os cartuchos americanos, quanto os japoneses — e vir acompanhado de um único cartucho com 42 jogos. “Nada de comprar jogos pelos próximos anos”, disse ele, ao me entregar o embrulho de presente.


O próximo da lista foi o Master System, que vinha com a famosa pistola Light Phaser e o inovador óculos 3D. A lembrança mais forte que tenho dessa época são as madrugadas que passei jogando Alex Kidd in Miracle World — até hoje, a sua musiquinha vaga pela minha cabeça como um mantra maldito.


Isso tudo aconteceu até os meus 12 anos de idade. Até então, eu era uma criança normal, que preferia se divertir quebrando as janelas dos vizinhos e envenenando seus animais de estimação. Mas essa situação estava prestes a mudar...


***


Quando cheguei da escola naquele dia, tudo que lembro foi de ver meu pai em pé, de frente para TV e com o joystick nas mãos. Meu cérebro automaticamente entrou em pane e não consegui fazer mais nada, além de gritar “é um Mega Drive, porra!”. Isso foi por volta das 18h, o jogo era Street of Rage e quando o relógio marcou 1h da madrugada, eu ainda estava com o uniforme da escola revezando com meu pai o único joystick que veio incluso, seguindo fielmente o esquema cada um joga uma vida.


“Vocês não vão jantar?”, perguntou minha mãe segurando dois pratos de comida já em estado de bolor.


“Sai da frente da TV!” foi só o que conseguimos dizer.


A partir desse dia, a beleza da minha vida foi restringida aos revolucionários gráficos de 16 BITS. Eu passei a funcionar à base de cartucho. Toda data comemorativa significava um jogo a mais à minha coleção. O Sonic entrou para a minha família, com sua imagem já decalcada no tubo de imagem da televisão. As digitais dos meus polegares já haviam desaparecido. Lembro-me de um fim de ano em que implorei para a minha professora, Tia Iná — que mais tarde foi demitida por alcoolismo —, não me deixar de recuperação só para eu ganhar o jogo Sonic The Hedgehog 2, que meu pai me prometera caso eu fosse aprovado sem dificuldades. A essa altura, minha mãe já não sabia o que fazer para me tirar de frente da TV, onde eu já criara raiz.


Meu grupo de amigos foi restringido a quem possuía Mega Drive e meus inimigos eram todos aqueles que jogavam o concorrente Super Nintendo. Sonic VS Mário foi a batalha que marcou minha pré-adolescência, e um usuário Nintendo falar mal da fabricante Sega era pior do que xingar minha mãe. Eu defendia até a morte o veloz ouriço azul, enquanto meus rivais exaltavam um simples bombeiro hidráulico.


Sempre achei interessante, a história de um ouriço azul campeão dos 100 metros rasos, colecionador de esmeraldas, que sai por aí salvando a fauna e a flora de uma ilha flutuante. O mesmo não posso dizer dos dois bombeiros gays, que lutam contra uma tartaruga sadomasoquista na tentativa de salvar uma princesa que tem um caso com um cogumelo falante.


Enfim, os nintendomaníacos que me desculpem, mas é preciso reconhecer que o Super Nintendo sempre esteve às sombras do Mega Drive. Desde os jogos de gráficos opacos e de péssima jogabilidade, até o design do joystick, que entrou para o hall dos piores da história dos games. Afinal, onde já se viu viver num mundo sem diagonal?




Felipe Attie