NÃO SEI FAZER OUTRA COISA!


Fazer quadrinhos é isso. Pra quem lê é o máximo. Pra quem faz é um misto de diversão e tortura (principalmente se vc tiver a utopia de ganhar grana com isso). Pra piorar temos o Clubinho de Cartunistas, composto por indivíduos falidos que só sabem fazer quadrinhos, ler quadrinhos e falar de quadrinhos. Uma das minhas maiores conquistas nessa área foi nunca ter feito parte dela.

TRANSFORMANDO PESADELOS EM SONHOS

Eu publiquei pela Amazon o eBook do meu livro, Morrendo Oito Horas Por Dia, e isso representa um ponto final de uma história que começou há uns 10 anos atrás.

Eu lembro, como se fosse hoje, do momento em que abri o Word e comecei a exorcizar meus demônios através das palavras. Pura terapia. Literatura crua e impulsiva. Na época, eu era redator publicitário, o cara que cria slogans, jingles e frases bacanas que te fazem querer comprar margarina, sabão em pó e pasta de dente. Eu era bom. Eu sabia fazer meu trabalho. Mas se tem uma coisa que eu sabia ainda mais é que eu odiava fazê-lo. Odiava mais ainda eu mesmo por ter feito aquele maldito telefonema.

Eu tinha 18 anos quando liguei pra agência de propaganda à procura de um estágio. A diretora de criação atendeu e disse que a vaga já havia sido preenchida. Eu, que já era bastante petulante e piadista, lamentei e disse que eles tinham acabado de perder um excelente profissional. Ela riu do lado de lá. Eu ri do lado de cá. Ela gostou de mim, do meu humor e da minha petulância. Fui chamado pra uma entrevista. No dia seguinte, eu estava lá. Batemos um papo. Mostrei meu portfólio com alguns quadrinhos e crônicas. Ela gostou. Gostou de mim, do meu humor e do meu trabalho. Fui contratado. Assim começou o meu inferno particular.

Logo eu descobri que meu lugar não era ali, escrevendo frases bacanas que te fazem querer comprar margarina, sabão em pó e pasta de dente. Logo eu me dei conta de que não devia estar dentro de um aquário de criação, escrevendo frases bacanas para vender margarina, sabão em pó e pasta de dente. Não era essa a vida que eu queria. Eu precisava pular fora daquele maldito. Mas eu precisava do emprego. Precisava de dinheiro e não enxergava outra possibilidade de monetizar as únicas coisas que sei fazer: escrever e desenhar.

Eu nunca tirei férias. Nunca fiquei mais de um ano num mesmo emprego. Isso acontecia porque eu já entrava numa agência contando os dias para pedir demissão. Meu único objetivo era juntar a grana necessária que me permitisse chutar o balde e ficar desempregado por mais um tempo, distante de toda aquela paranoia. O tempo passava. A grana esgotava. Eu precisava voltar a trabalhar. Falava com meus contatos profissionais, que eram todos publicitários, e lá estava eu, mais uma vez, adentrando os portais do inferno. Eu vivia num looping. Um grande e tortuoso espiral de bosta.

Até que, em meados de 2010, enquanto encarava a página em branco do Word, pensando no título perfeito para vender margarina, sabão em pó e pasta de dente, eu comecei a escrever o que viria a se tornar Morrendo Oito Horas Por Dia: Você está no banheiro, parado frente ao espelho. Seu nariz sangra. O sangue escorre pelo seu queixo, seu pescoço e suja a gola da sua camiseta. Você vai trabalhar todos os dias de jeans e camiseta. Muitas pessoas enxergam isso como uma regalia. Quando você começou, também achava o mesmo. Todo emprego, no começo, é interessante. Mas é só questão de tempo, até você olhar ao redor e ver o quanto não quer estar ali. O quanto não quer fazer o que é pago para fazer. É só questão de tempo, até você olhar no espelho e sentir vergonha do seu reflexo. Até então, eu não tinha a menor ideia do que aquilo iria se tornar. Meu único objetivo era usar as palavras pra desabafar, exorcizar meus demônios. Literatura crua e impulsiva.

O tempo passou e muita coisa aconteceu. Encontrei na tatuagem a independência financeira que tanto almejava e deletei meu portfólio prometendo a mim mesmo jamais pisar numa agência de propaganda. Consegui um contrato de distribuição dos meus quadrinhos e não voltei a mexer em uma vírgula sequer daqueles textos escritos de forma crua e impulsiva. Não fazia mais sentido. Eu não era mais publicitário. Porém, anos depois, morando em São Paulo, consumido pelo tédio e mais uma vez buscando uma direção na minha vida, eu abri o Word e revisitei aqueles textos. Notei que dali, talvez, pudesse sair um romance. Mas eu não era mais publicitário. Aquela história também precisava mudar de rumo. Então eu escrevi a segunda metade da narrativa. Escrevi Fim e voltei a encostar o que, enfim, se transfomara no meu primeiro livro.  

Mais um tempo passou e mais um amontoado de coisas aconteceram. Meu filho nasceu. Construí minha família. Amadureci. Surgiu o Coronavirus e eu decidi disponibilizar o PDF do livro para quem quisesse se manter ocupado durante a quarentena. A resposta do público foi tão surpreendente que me encorajou a publicá-lo. Com isso, eu finalmente coloquei um ponto final numa história escrita lá atrás, quando eu era um jovem frustrado e mergulhado num pesadelo. Com isso, eu realizei o sonho de ser um escritor profissional. E aprendi que a vida tem o poder de transformar sonhos em pesadelos.

É isso! O livro tá publicado. Você pode comprá-lo clicando aqui. Espero que se divirta com a leitura, na medida do possível.

 


Felipe Attie

TENHO QUE DAR UM TEMPO COM AS TATUAGENS

Recentemente passei por uma fase de mudanças que começou com a minha forma de ver a vida e refletiu na minha forma física. Foram 10 kg a menos em míseros 30 dias. Só me dei conta disso, quando estava andando em plena Avenida Paulista tendo que segurar minha mala no colo porque sua alça havia arrebentado e comecei a sentir minha calça escorregando cintura abaixo. Nunca fui gordo, mas também, nunca precisei usar cinto e, naquele momento, eu entendi todas essas pessoas que relatam o quanto seus corpos mudaram após passarem por momentos cruciais em suas vidas. Porém, ao contrario da maioria dessas pessoas, eu estava mais do que satisfeito com a mudança sofrida. Eu devia ter uns 15 anos, a última vez que olhei pra baixo e enxerguei a musculatura do meu abdômen. Sendo assim, decidi aproveitar o embalo e adotar novos hábitos para ornar e acompanhar a mudança.

Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Correr diariamente. Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Beber mais água. Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Maneirar nos carboidratos. Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Entrar na academia. Pegar leve na bebida e fazer uma tattoo nova. De todas as mudanças adotadas, a mais fácil foi referente às tatuagens. Foram 14 em menos de dois meses! Talvez, esse seja o único lado bom de ser tatuador e ter amigos tatuadores. A compulsão foi tamanha, que me tatuar já fazia parte da rotina do estúdio onde eu trabalhava e eu não sentia mais a agulha penetrando minha pele. Porém, a dedicação que eu tive para rabiscar o corpo, me faltou na hora de ir à academia.

Eu não sei o que leva uma pessoa a passar horas levantando ferro, enfurnada dentro de um local repleto de outras pessoas suadas, ouvindo uma música ambiente que faz lembrar loja de departamento (Riachuelo, Renner, C&A...). Se esse é o preço que se paga para ter um corpo perfeito, prefiro ficar com o meu do jeito que tá: danificado por anos de má alimentação e abuso ao álcool. Sou capaz de correr 10 km com o maior prazer, mas a simples caminhada rumo à academia vinha se mostrado uma tortura. E não me refiro à série de exercícios imposta pelo personal, mas sim, aos meus “coleguinhas” de atividade.

“Você é tatuador?”, perguntou um sujeito alto e imensamente forte, vestindo trajes de lycra. Olhar para ele dava a visão perfeita do que aconteceria caso o Hulk pegasse emprestado as roupas que o Axl Rose usava na fase de ouro do GNR.

“Sou”, respondi, já pensando numa maneira de encerrar o assunto.

“Então”, prosseguiu ele, apontando para uma tatuagem ridícula localizada no seu bíceps que mais se parecia com um balão de festa a ponto de estourar. “Fiz essa tatuagem deve ter uns 20 anos e queria saber quanto custa pra consertar.”

Não é a tatuagem que precisa de conserto, pensei. Mas preferi guardar minha opinião, caso contrário, provavelmente eu não estaria aqui escrevendo esse texto. Enfim, após ter lhe dado um orçamento aproximado, ele me encarou por uns instantes, como se estivesse me avaliando, e soltou: “Vamos fazer um rolo! Você me dá uma moral na tattoo e eu te adianto uns suplementos que vão te fazer crescer igual a um monstro!”.

Fiz que não com a cabeça, ao mesmo tempo em que abri um tímido e amistoso sorriso, tentando não parecer rude por rejeitar sua “tentadora” proposta.

“Qualé?! Você vai ver só! Tu vai ficar enorme!”

Mantive meu sorriso e o sinal de negação com ma cabeça, à medida que me afastava do brutamonte.

Diante o fracasso de sua proposta, ele decidiu adotar uma postura inversa, deixando claro que seu objetivo era, simplesmente, não ficar por baixo.

“To de sacanagem! Quero saber de tatuagem coisa nenhuma! Depois que entrei pra igreja, minha religião não permite. Vou deixar essa merda assim mesmo! Agora, só quero saber de...” e listou uma série de anabolizantes que meu intelecto foi incapaz de memorizar.

Mantive o sorriso tímido e me afastei, caminhando em direção à esteira. Enquanto corria feito um hamster, pensei no que leva alguém a oferecer anabolizantes para mim. Se ele dependesse disso para viver, com certeza estaria passando fome. Pois, a mesma facilidade que tem pra levantar peso, lhe falta para escolher um público-alvo. Questionei se sua transformação física também fora reflexo de alguma mudança em sua vida ou se ele é apenas um desses sujeitos que gostam de se parecer com os super-heróis dos quadrinhos. E, que tipo de igreja é essa que não permite tatuagens, mas aceita que seus seguidores se entupam de drogas com o objetivo de deformar seus corpos? Em meio ao meu emaranhado reflexivo fui novamente surpreendido pelo sujeito que se aproximou e sussurrou no meu ouvido: “Eu já fui gordo”.

Sua confissão carregava certo tom de desabafo, como se ele sentisse a necessidade de justificar os motivos que o levaram a desfigurar o próprio corpo. Isso me fez concluir que, na vida, nenhuma mudança é gratuita. Tudo necessita de um motivo. No caso dele, foi a insatisfação gerada pelo sobrepeso. Às vezes, a mudança é positiva, às vezes não. Às vezes nossa reação é exagerada, às vezes não. No caso dele, o exagero é notável. Então, eu me olhei no espelho e conclui: tenho que dar um tempo com as tatuagens.

Felipe Attie

UM GRANDE SACO!

Há tempos que meu testículo esquerdo vinha me incomodando com dores constantes acompanhadas de um leve inchaço. Procurei um urologista que pudesse me salvar, mas o que encontrei foi um sujeito com idade para ser meu irmão caçula que não me passou nem um pingo de confiança se comportando feito um playboy, mais preocupado com seu penteado do que com o meu pau. Decepcionante. Afinal, se vou ao urologista, o mínimo que espero é que ele analise cada centímetro de piroca que a natureza me concedeu. Mas não! Tudo que ele fez foi dar uma rápida olhada na situação entre as minhas pernas e só. Em seguida, batizou meu problema de “orquite” e explicou que isso é apenas uma inflamação que acomete os testículos, causando inchaço, dores e febre.

Como assim, isso é apenas uma inflamação? Não era pra essa merda sequer ter se aproximado do meu pênis! Aceitaria numa boa uma gastrite, uma úlcera, uma pneumonia, até mesmo uma tuberculose. Mas justo as minhas bolas?!

Após eu ter digerido o choque e aceitado a dura realidade, o Dr. Playboy receitou o tratamento: repouso, bolsa de gelo nos colhões, analgésicos e anti-inflamatórios. Quando eu começava a ficar feliz com a possibilidade de passar a semana toda deitado, lendo e navegando pela programação da TV, ele acrescentou: “Nada de álcool, nada de sexo”.

“Nem uma punhetinha?”, perguntei esperançoso.

“Nada de esforço.”

“Mas é semana de Páscoa! Que tal abrir uma exceção para uma tacinha de vinho?”

“Você é cristão?”

“Não, mas se o problema for esse, eu entrego minha vida à Cristo agora mesmo!”

“Repouse, aproveite o momento de preguiça.”

Passei o resto da semana deitado e assistindo documentários sobre a 2º Guerra Mundial. Quanto mais eu pensava nas coisas que eu não podia fazer, mais sentia vontade de fazê-las. “Nada de álcool, nada de sexo! Nada de álcool, nada de sexo!”, era o que eu repetia para mim mesmo feito um mantra. Cheguei ao ponto de tapar os olhos para não ver minha namorada trocando de roupa e tranquei os vidros de perfume no armário da dispensa.

No domingo de Páscoa, levantei cedo, sentei numa cadeira e permaneci em silêncio, olhando para um ponto fixo no jardim.

“Tem alguma coisa errada?”, perguntou minha namorada, estranhando meu comportamento.

“Nada. Estou só pensando na vida”, respondi em tom de descaso.

Mentira. Tudo não passava de um plano.

“Coelhinho da Páscoa, eu quero um ovo esquerdo de presente”, era o que eu pediria para o dentuço distribuidor de chocolates, caso o visse pulando pela casa naquela manhã de domingo.

Felipe Attie

MEU GATO JESUS!


É isso, meu gato decidiu flertar com o perigo e saltou do terceiro andar. A cena aconteceu diante dos meus olhos e tô até agora sem entender. Mas ele sobreviveu e passa bem. O maior prejudicado nessa história toda foi o meu bolso. Pelos meus cálculos, ele ainda tem cinco vidas e eu não tenho dinheiro algum.