TRANSFORMANDO PESADELOS EM SONHOS

Eu publiquei pela Amazon o eBook do meu livro, Morrendo Oito Horas Por Dia, e isso representa um ponto final de uma história que começou há uns 10 anos atrás.

Eu lembro, como se fosse hoje, do momento em que abri o Word e comecei a exorcizar meus demônios através das palavras. Pura terapia. Literatura crua e impulsiva. Na época, eu era redator publicitário, o cara que cria slogans, jingles e frases bacanas que te fazem querer comprar margarina, sabão em pó e pasta de dente. Eu era bom. Eu sabia fazer meu trabalho. Mas se tem uma coisa que eu sabia ainda mais é que eu odiava fazê-lo. Odiava mais ainda eu mesmo por ter feito aquele maldito telefonema.

Eu tinha 18 anos quando liguei pra agência de propaganda à procura de um estágio. A diretora de criação atendeu e disse que a vaga já havia sido preenchida. Eu, que já era bastante petulante e piadista, lamentei e disse que eles tinham acabado de perder um excelente profissional. Ela riu do lado de lá. Eu ri do lado de cá. Ela gostou de mim, do meu humor e da minha petulância. Fui chamado pra uma entrevista. No dia seguinte, eu estava lá. Batemos um papo. Mostrei meu portfólio com alguns quadrinhos e crônicas. Ela gostou. Gostou de mim, do meu humor e do meu trabalho. Fui contratado. Assim começou o meu inferno particular.

Logo eu descobri que meu lugar não era ali, escrevendo frases bacanas que te fazem querer comprar margarina, sabão em pó e pasta de dente. Logo eu me dei conta de que não devia estar dentro de um aquário de criação, escrevendo frases bacanas para vender margarina, sabão em pó e pasta de dente. Não era essa a vida que eu queria. Eu precisava pular fora daquele maldito. Mas eu precisava do emprego. Precisava de dinheiro e não enxergava outra possibilidade de monetizar as únicas coisas que sei fazer: escrever e desenhar.

Eu nunca tirei férias. Nunca fiquei mais de um ano num mesmo emprego. Isso acontecia porque eu já entrava numa agência contando os dias para pedir demissão. Meu único objetivo era juntar a grana necessária que me permitisse chutar o balde e ficar desempregado por mais um tempo, distante de toda aquela paranoia. O tempo passava. A grana esgotava. Eu precisava voltar a trabalhar. Falava com meus contatos profissionais, que eram todos publicitários, e lá estava eu, mais uma vez, adentrando os portais do inferno. Eu vivia num looping. Um grande e tortuoso espiral de bosta.

Até que, em meados de 2010, enquanto encarava a página em branco do Word, pensando no título perfeito para vender margarina, sabão em pó e pasta de dente, eu comecei a escrever o que viria a se tornar Morrendo Oito Horas Por Dia: Você está no banheiro, parado frente ao espelho. Seu nariz sangra. O sangue escorre pelo seu queixo, seu pescoço e suja a gola da sua camiseta. Você vai trabalhar todos os dias de jeans e camiseta. Muitas pessoas enxergam isso como uma regalia. Quando você começou, também achava o mesmo. Todo emprego, no começo, é interessante. Mas é só questão de tempo, até você olhar ao redor e ver o quanto não quer estar ali. O quanto não quer fazer o que é pago para fazer. É só questão de tempo, até você olhar no espelho e sentir vergonha do seu reflexo. Até então, eu não tinha a menor ideia do que aquilo iria se tornar. Meu único objetivo era usar as palavras pra desabafar, exorcizar meus demônios. Literatura crua e impulsiva.

O tempo passou e muita coisa aconteceu. Encontrei na tatuagem a independência financeira que tanto almejava e deletei meu portfólio prometendo a mim mesmo jamais pisar numa agência de propaganda. Consegui um contrato de distribuição dos meus quadrinhos e não voltei a mexer em uma vírgula sequer daqueles textos escritos de forma crua e impulsiva. Não fazia mais sentido. Eu não era mais publicitário. Porém, anos depois, morando em São Paulo, consumido pelo tédio e mais uma vez buscando uma direção na minha vida, eu abri o Word e revisitei aqueles textos. Notei que dali, talvez, pudesse sair um romance. Mas eu não era mais publicitário. Aquela história também precisava mudar de rumo. Então eu escrevi a segunda metade da narrativa. Escrevi Fim e voltei a encostar o que, enfim, se transfomara no meu primeiro livro.  

Mais um tempo passou e mais um amontoado de coisas aconteceram. Meu filho nasceu. Construí minha família. Amadureci. Surgiu o Coronavirus e eu decidi disponibilizar o PDF do livro para quem quisesse se manter ocupado durante a quarentena. A resposta do público foi tão surpreendente que me encorajou a publicá-lo. Com isso, eu finalmente coloquei um ponto final numa história escrita lá atrás, quando eu era um jovem frustrado e mergulhado num pesadelo. Com isso, eu realizei o sonho de ser um escritor profissional. E aprendi que a vida tem o poder de transformar sonhos em pesadelos.

É isso! O livro tá publicado. Você pode comprá-lo clicando aqui. Espero que se divirta com a leitura, na medida do possível.

 


Felipe Attie