UM GRANDE SACO!

Há tempos que meu testículo esquerdo vinha me incomodando com dores constantes acompanhadas de um leve inchaço. Procurei um urologista que pudesse me salvar, mas o que encontrei foi um sujeito com idade para ser meu irmão caçula que não me passou nem um pingo de confiança se comportando feito um playboy, mais preocupado com seu penteado do que com o meu pau. Decepcionante. Afinal, se vou ao urologista, o mínimo que espero é que ele analise cada centímetro de piroca que a natureza me concedeu. Mas não! Tudo que ele fez foi dar uma rápida olhada na situação entre as minhas pernas e só. Em seguida, batizou meu problema de “orquite” e explicou que isso é apenas uma inflamação que acomete os testículos, causando inchaço, dores e febre.

Como assim, isso é apenas uma inflamação? Não era pra essa merda sequer ter se aproximado do meu pênis! Aceitaria numa boa uma gastrite, uma úlcera, uma pneumonia, até mesmo uma tuberculose. Mas justo as minhas bolas?!

Após eu ter digerido o choque e aceitado a dura realidade, o Dr. Playboy receitou o tratamento: repouso, bolsa de gelo nos colhões, analgésicos e anti-inflamatórios. Quando eu começava a ficar feliz com a possibilidade de passar a semana toda deitado, lendo e navegando pela programação da TV, ele acrescentou: “Nada de álcool, nada de sexo”.

“Nem uma punhetinha?”, perguntei esperançoso.

“Nada de esforço.”

“Mas é semana de Páscoa! Que tal abrir uma exceção para uma tacinha de vinho?”

“Você é cristão?”

“Não, mas se o problema for esse, eu entrego minha vida à Cristo agora mesmo!”

“Repouse, aproveite o momento de preguiça.”

Passei o resto da semana deitado e assistindo documentários sobre a 2º Guerra Mundial. Quanto mais eu pensava nas coisas que eu não podia fazer, mais sentia vontade de fazê-las. “Nada de álcool, nada de sexo! Nada de álcool, nada de sexo!”, era o que eu repetia para mim mesmo feito um mantra. Cheguei ao ponto de tapar os olhos para não ver minha namorada trocando de roupa e tranquei os vidros de perfume no armário da dispensa.

No domingo de Páscoa, levantei cedo, sentei numa cadeira e permaneci em silêncio, olhando para um ponto fixo no jardim.

“Tem alguma coisa errada?”, perguntou minha namorada, estranhando meu comportamento.

“Nada. Estou só pensando na vida”, respondi em tom de descaso.

Mentira. Tudo não passava de um plano.

“Coelhinho da Páscoa, eu quero um ovo esquerdo de presente”, era o que eu pediria para o dentuço distribuidor de chocolates, caso o visse pulando pela casa naquela manhã de domingo.

Felipe Attie