NÃO VEJO A HORA DE ERRARMOS JUNTOS

Filho, eu lembro nitidamente do momento exato em que olhei para aquela tira de plástico molhada com a urina da sua mãe e descobri a sua existência. Jamais vou me esquecer. Nem se quisesse, eu seria capaz. Afinal, ainda sou assombrado pela gargalhada nervosa que sua mãe soltou no instante em que soube que estava grávida de você. Pra ser sincero, eu custei a acreditar. Só me convenci mesmo, quando me peguei admirando uma mancha do tamanho de um gergelim pulsando de forma ritmada no monitor do aparelho de ultrassonografia. Era o seu coração.

 

Você nasceu e já se passou praticamente um ano. Foi rápido, mas não tão difícil como dizem. No começo, tudo pode ser resumido a trocar fraldas sujas e não deixar você cair. Com o tempo, o grau de dificuldade aumenta em alguns pontos e diminui em outros. Em alguns momentos é um pouco assustador. Quando penso que serei responsável por ensinar e aconselhar você sobre a vida, tudo fica bastante assustador. Mas o medo não vai me paralisar. Isso nunca aconteceu e não será agora que acontecerá. Esse pode ser o meu primeiro conselho a você, filho: não tenha medo de errar.

 

Espero que você cometa erros. Porque cometer erros significa que você tá fazendo coisas que nunca fez antes, está se esforçando para mudar a si mesmo e alterar o mundo ao seu redor. Significa que você está aprendendo e, mais importante, sinal de que está fazendo algo. Está vivendo. Cometa erros, filho. Porém, não os repita. Não seja idiota. Cometa novos erros a cada dia. Cometa erros gloriosos que ninguém jamais teve a coragem ou a ousadia de cometer. Mas não permita que os erros o congelem. Não desista! Seja o que for que você estiver com medo de fazer, faça. Pouco importa se não vai ficar bom o suficiente. Perfeição é coisa de gente chata. As pessoas mais interessantes dessa vida são cheias de manias, complexos e defeitos. Portanto, não importa se não tá perfeito, apenas faça. Caso saia errado, eu estarei aqui pra te ajudar a se recuperar e prepará-lo pra errar de novo. Pois, se tem uma coisa que seu pai é bom em fazer, é cometer erros. Não vejo a hora de errarmos juntos, filho.

 

Felipe Atttie

REFLEXÕES DE QUARENTENA

Que dia é hoje? Que horas são? Isso importa? Pelo visto não. Em tempos de quarentena e isolamento social é estranha a sensação que temos de que os dias parecem ser exatamente uns com os outros. Pelo celular acompanho o mundo lá fora. As pessoas que seguem trabalhando. O número de mortos que continua crescendo. O presidente verbalizando asneiras. Um dia após o outro. Tudo igual. Essa rotina absurdamente tediosa me levou a refletir sobre a nossa existência e me peguei pensando na morte. Mergulhado nessa mórbida reflexão não foi difícil enxergar o valor que ela possui.


Já pensou como seria se ninguém morresse? Além da desordem e do caos proveniente da escassez de recursos naturais e espaço físico para atender as necessidades de todos, a nossa vida seria um eterno tédio. Não teríamos com o que nos preocupar, uma vez que não teríamos ameaças nem correríamos riscos. Sem prazo de validade, nossa vida seria uma eterna sucessão de dias vazios delimitados apenas pelo nascer do sol.


Sem a morte, acredito que o mundo não estaria repleto de inovações tecnológicas. Carros, celulares, internet... nada disso faria parte da nossa vida, uma vez que tudo isso foi criado para tornar mais confortável o nosso curto período por aqui. Não duvido que ainda estivéssemos de carroça! Afinal, pra que perder tempo inventando um veículo que nos transporte com rapidez se temos todo o tempo do mundo à nossa disposição? Sem a morte não teríamos pressa.


Ouso dizer que sequer metade das invenções e obras de arte existiria. Afinal, uma das forças motivadoras do artista vem justamente do seu ingênuo desejo de se eternizar através do seu trabalho. Todo artista almeja deixar um legado. Tal ambição seria ofuscada pela vida eterna. Isso pra não mencionar a procrastinação! Imagina poder deixar seus afazeres pra amanhã tendo a certeza de que o amanhã vai existir! Talvez, obras como a Mona Lisa, A Criação de Adão e o Nascimento de Vênus não seriam feitas. Livros como Crime e Castigo ou Ulysses nunca seriam escritos e, consequentemente, artistas como Leonardo da Vinci ou Beethoven não seriam eternizados. Afinal, a arte existe justamente pra nos mostrar que a vida é muito mais do que uma eterna sucessão de dias vazios delimitados apenas pelo nascer do sol.


Mergulhado nessa mórbida reflexão não foi difícil enxergar o valor que a morte possui. Ela é cruel e muitas vezes injusta. Ela causa dor e revolta. Ela é irremediável. Porém, o simples fato de delimitar nossa vida faz com que valorizemos estar vivos.


Felipe Attie

GRANDES CONQUISTAS!



Se tem uma coisa que a paternidade me mostrou é que existe beleza em pequenos detalhes e grandes conquistas em pequenos gestos. Pra sentir isso, a gente só precisa se entregar a novas experiências e permitir que nossa atenção seja roubada. Ter um filho é a forma mais gostosa e divertida de alcançar isso.

O TIO DA GALERA

Perdi meu tio, vítima do Coronavírus. Um cara que nunca perdia uma oportunidade de fazer rir. Uma pessoa maravilhosa que me viu crescer e, considerando que era meu vizinho, posso dizer que, literalmente, esteve ao meu lado em diversas situações. Principalmente nos últimos anos, com a vida fazendo o favor de estreitar ainda mais nossos laços. Essa mesma vida que agora o levou. Tão irônico quanto injusto.


A realidade se transforma de forma tão rápida que fica difícil de ser assimilada. Difícil de ser compreendida. Tudo acontece rápido como um espirro. Num momento a pessoa está em casa; um espirro depois, ela tá no hospital; mais um espirro e acabou. Aquela pessoa, que esteve presente em diversos momentos da sua vida, deixa de ser pessoa e se transforma em lembrança. É triste, doloroso e irremediável. É a vida na sua forma genuína: bela e cruel.

 

Meu tio merecia viver mais. Não falo isso movido pela dor da perda. Estou sendo o mais racional possível. Meu tio, pai de dois filhos, avô de dois netos, que venceu o câncer duas vezes, que adorava cerveja, churrasco e piadas, merecia viver mais. Reconhecer isso e ser obrigado a aceitar o curso da vida é doloroso e irremediável.

 

Enquanto bebo uma cerveja, debruçado na janela e olhando pra mata que se estende pelos fundos da minha casa, eu me lembro dos churrascos de fim de semana regados de sanduíche de pão de alho (uma de suas várias preciosidades culinárias), das conversas que rasgavam a madrugada e todas as vezes que me senti forcado a rir de uma de suas piadas sem graça, da mesma forma que um pai elogia o desenho malfeito do filho que tanto ama.

 

Enquanto bebo uma cerveja, eu me lembro das vezes em que ele me chamara pra provar algum salgado que acabara de sair do forno, fazendo questão de explicar como foi feito e os ingredientes utilizados. Tais informações sempre eram ofuscadas pelo sabor do momento, mas eu ouvia da mesma forma que se escuta um amigo narrar um sonho que, no fundo, só é interessante pra ele mesmo.

 

Enquanto bebo uma cerveja, vou ainda mais fundo na memória e me lembro das vezes em que ele levava a garotada da rua pra pular carnaval na praça e de quando ele se aventurava a jogar futebol com a molecada. Eu me lembro do Natal em que ele se fantasiou de Papai Noel. Atitudes como essas fizeram com que ele deixasse de ser apenas o meu tio e o promoveram a "tio da galera". Hoje, enquanto bebo uma cerveja e me afogo num mar de boas lembranças, chego à conclusão de que eu tive muita sorte de ter sido sobrinho do tio da galera. 

 

Você vai fazer falta, cara! Espero que eu tenha conseguido te fazer sentir o quanto era querido por mim. Vai na paz que eu vou ficar por aqui, lembrando das conversas, dos churrascos e das suas piadas, muitas vezes, sem graça rs. Valeu, tio!

 

Felipe Attie


ALGUMAS COISAS PERMANECEM COMO ANTES

Hoje é a primeira vez que venho ao mercado depois que essa merda toda começou. As ruas não estão vazias como deveriam, mas estão mais vazias do que imaginei que estariam. As pessoas estão acuadas, parecem assustadas. De máscaras, elas se comunicam pelo olhar. Não é nada agradável o que os olhos dizem: “Estamos acuados. Estamos assustados”.

Fila para entrar. Uma mulher segurando um frasco de spray borrifa álcool nas mãos e braços de cada cliente. Gotículas se chocam contra meu rosto. Meus olhos ardem. Não sou o único. A mulher ao meu lado reclama. Seus olhos também queimam em contato com o álcool. Não é nada agradável o que os olhos dizem: “Estamos acuados. Estamos assustados. Estamos ardendo”.

Outra fila. Uma mulher segurando um termômetro infravermelho verifica a temperatura dos clientes. Ela aponta o aparelho para a minha testa. Alguns instantes se passam e uma luz verde acende. Ela verifica o visor e fala “Tudo certo! Boas compras!”. Enquanto parto em direção à seção dos legumes, ouço um apito. Olho para trás e uma senhora com idade para ser minha vó é arrastada para fora do mercado. O termômetro infravermelho na mão da mulher emite uma luz vermelha.

Enquanto percorro os corredores do mercado, eu me deparo com pequenos detalhes que me lembram de um passado remoto: o alho continua caro, os carrinhos continuam com as rodas emperradas e mais da metade dos caixas permanecem vazios. Detalhes que me lembram de uma época onde não precisávamos de máscaras. Uma época onde se comunicar através do olhar era satisfatório, não obrigatório. Abro um sorriso. Percebo que, apesar de todo o terror instaurado, algumas coisas permanecem como antes.

Felipe Attie