O TIO DA GALERA

Perdi meu tio, vítima do Coronavírus. Um cara que nunca perdia uma oportunidade de fazer rir. Uma pessoa maravilhosa que me viu crescer e, considerando que era meu vizinho, posso dizer que, literalmente, esteve ao meu lado em diversas situações. Principalmente nos últimos anos, com a vida fazendo o favor de estreitar ainda mais nossos laços. Essa mesma vida que agora o levou. Tão irônico quanto injusto.


A realidade se transforma de forma tão rápida que fica difícil de ser assimilada. Difícil de ser compreendida. Tudo acontece rápido como um espirro. Num momento a pessoa está em casa; um espirro depois, ela tá no hospital; mais um espirro e acabou. Aquela pessoa, que esteve presente em diversos momentos da sua vida, deixa de ser pessoa e se transforma em lembrança. É triste, doloroso e irremediável. É a vida na sua forma genuína: bela e cruel.

 

Meu tio merecia viver mais. Não falo isso movido pela dor da perda. Estou sendo o mais racional possível. Meu tio, pai de dois filhos, avô de dois netos, que venceu o câncer duas vezes, que adorava cerveja, churrasco e piadas, merecia viver mais. Reconhecer isso e ser obrigado a aceitar o curso da vida é doloroso e irremediável.

 

Enquanto bebo uma cerveja, debruçado na janela e olhando pra mata que se estende pelos fundos da minha casa, eu me lembro dos churrascos de fim de semana regados de sanduíche de pão de alho (uma de suas várias preciosidades culinárias), das conversas que rasgavam a madrugada e todas as vezes que me senti forcado a rir de uma de suas piadas sem graça, da mesma forma que um pai elogia o desenho malfeito do filho que tanto ama.

 

Enquanto bebo uma cerveja, eu me lembro das vezes em que ele me chamara pra provar algum salgado que acabara de sair do forno, fazendo questão de explicar como foi feito e os ingredientes utilizados. Tais informações sempre eram ofuscadas pelo sabor do momento, mas eu ouvia da mesma forma que se escuta um amigo narrar um sonho que, no fundo, só é interessante pra ele mesmo.

 

Enquanto bebo uma cerveja, vou ainda mais fundo na memória e me lembro das vezes em que ele levava a garotada da rua pra pular carnaval na praça e de quando ele se aventurava a jogar futebol com a molecada. Eu me lembro do Natal em que ele se fantasiou de Papai Noel. Atitudes como essas fizeram com que ele deixasse de ser apenas o meu tio e o promoveram a "tio da galera". Hoje, enquanto bebo uma cerveja e me afogo num mar de boas lembranças, chego à conclusão de que eu tive muita sorte de ter sido sobrinho do tio da galera. 

 

Você vai fazer falta, cara! Espero que eu tenha conseguido te fazer sentir o quanto era querido por mim. Vai na paz que eu vou ficar por aqui, lembrando das conversas, dos churrascos e das suas piadas, muitas vezes, sem graça rs. Valeu, tio!

 

Felipe Attie