REFLEXÕES DE QUARENTENA

Que dia é hoje? Que horas são? Isso importa? Pelo visto não. Em tempos de quarentena e isolamento social é estranha a sensação que temos de que os dias parecem ser exatamente uns com os outros. Pelo celular acompanho o mundo lá fora. As pessoas que seguem trabalhando. O número de mortos que continua crescendo. O presidente verbalizando asneiras. Um dia após o outro. Tudo igual. Essa rotina absurdamente tediosa me levou a refletir sobre a nossa existência e me peguei pensando na morte. Mergulhado nessa mórbida reflexão não foi difícil enxergar o valor que ela possui.


Já pensou como seria se ninguém morresse? Além da desordem e do caos proveniente da escassez de recursos naturais e espaço físico para atender as necessidades de todos, a nossa vida seria um eterno tédio. Não teríamos com o que nos preocupar, uma vez que não teríamos ameaças nem correríamos riscos. Sem prazo de validade, nossa vida seria uma eterna sucessão de dias vazios delimitados apenas pelo nascer do sol.


Sem a morte, acredito que o mundo não estaria repleto de inovações tecnológicas. Carros, celulares, internet... nada disso faria parte da nossa vida, uma vez que tudo isso foi criado para tornar mais confortável o nosso curto período por aqui. Não duvido que ainda estivéssemos de carroça! Afinal, pra que perder tempo inventando um veículo que nos transporte com rapidez se temos todo o tempo do mundo à nossa disposição? Sem a morte não teríamos pressa.


Ouso dizer que sequer metade das invenções e obras de arte existiria. Afinal, uma das forças motivadoras do artista vem justamente do seu ingênuo desejo de se eternizar através do seu trabalho. Todo artista almeja deixar um legado. Tal ambição seria ofuscada pela vida eterna. Isso pra não mencionar a procrastinação! Imagina poder deixar seus afazeres pra amanhã tendo a certeza de que o amanhã vai existir! Talvez, obras como a Mona Lisa, A Criação de Adão e o Nascimento de Vênus não seriam feitas. Livros como Crime e Castigo ou Ulysses nunca seriam escritos e, consequentemente, artistas como Leonardo da Vinci ou Beethoven não seriam eternizados. Afinal, a arte existe justamente pra nos mostrar que a vida é muito mais do que uma eterna sucessão de dias vazios delimitados apenas pelo nascer do sol.


Mergulhado nessa mórbida reflexão não foi difícil enxergar o valor que a morte possui. Ela é cruel e muitas vezes injusta. Ela causa dor e revolta. Ela é irremediável. Porém, o simples fato de delimitar nossa vida faz com que valorizemos estar vivos.


Felipe Attie