SUCO DE PEDRA

Sempre achei que a maior virtude que um ser humano pode possuir é o que costumo chamar de “saber fazer suco de pedra”. Isso significa aceitar e superar os momentos de dificuldades sempre tentando ser alguém melhor. O famoso “aprender com os erros”. É clichê, porém, é verdade (os clichês têm sua parcela de razão e é isso que os torna clichês). Não é simples. Afinal, erros são mais assustadores que monstros. Confrontá-los nunca é tarefa fácil. Mas é sempre necessário.


Não importa o quão talentoso você é. Não importa o quão charmoso e simpático você é. Não importa quanto dinheiro você tem. Não importa sequer se você tem saúde. A vida é maior do que você e, uma hora ou outra, ela vai te derrubar. Seja numa demissão, na morte de um amigo, numa doença ou na perda de um amor. Acredite, ela vai derrubar você. Quando isso acontecer, abra uma cerveja, acenda um cigarro, dê uma trepada... faça o que tiver que ser feito para exorcizar seus demônios, mas siga em frente. Não dá pra ficar parado. É preciso agir. Decisões são muito importantes e só percebemos isso, após escolhermos as erradas. Só percebemos que não fizemos tudo que podíamos ter feito, quando não podemos fazer mais nada. Então, não corra esse risco. Faça. Só assim, você estará cada vez mais preparado para os tombos da vida. E acredite, ela vai sempre tentar derrubar você. Esse é o jogo. Assim é a vida. Aceite as regras e faça o melhor que puder. Faça suco de pedra.

 

Felipe Attie


A VIDA É MAIOR

Completei 36 anos de vida. Quase quatro décadas de existência. É um número significante, principalmente considerando o tanto que fiz durante esse tempo. Eu ainda me lembro das noites em que estava deitado na cama imaginando como seria o meu futuro. Confesso que, na minha cabeça, as coisas seriam bem diferentes. Eu era jovem, cheio de energia, me sentia cheio de razão e acreditava que as coisas aconteceriam exatamente como eu havia planejado. Eu era ingênuo. Eu era tolo. Então eu cresci e a vida me mostrou que, por mais que tenhamos planejamento, no fim das contas é ela quem manda. É ela quem dita as regras, cabendo a nós obedecer e fazer o melhor que podemos dentro do que nos é permitido.

 

Quando eu tinha 14 anos, tudo o que eu mais queria era me tornar um cartunista distribuído internacionalmente. Quando eu tinha 14 anos, eu quase nunca me imaginava com 36. O tempo passou, a vida ditou suas regras e, nos últimos seis anos, aconteceu uma série de coisas que não estavam na minha imaginação de 14 anos. Eu me formei na faculdade. Abandonei minha profissão de redator publicitário. Fiz pós-graduação. Fui professor. Virei tatuador. Terminei um relacionamento de mais de sete anos. Comecei um relacionamento com uma ex-garota de programa. Terminei meu relacionamento com a ex-garota de programa. Morei um tempo em São Paulo em busca de novos ares. Voltei pro Rio e conheci a mulher que, nesse exato momento, está dormindo abraçada com o nosso filho que acabou de completar um ano de vida. Ah! Eu consegui o tão sonhado contrato de distribuição internacional que traduz meus quadrinhos para idiomas que jamais falei e os publica em países que jamais pisei.

 

Pois é, eu realizei aquele sonho adolescente. Mas a vida me mostrou que realizar sonhos não tem a ver com ser feliz. A vida me ensinou que a felicidade está presente em todos os momentos que se passam enquanto você busca aquilo que acredita ser o que te fará feliz. Hoje eu sei que, lá atrás, quando eu era apenas um moleque de 14 anos sonhando com coisas que pareciam impossíveis, eu já era feliz. A vida me mostra isso em forma de saudade. Pois agora, esses momentos existem apenas na memória e muitas das pessoas que estiveram presentes nele transformaram-se em lembranças. Hoje, na minha casa, sentado no meu estúdio, enquanto escrevo essas palavras e minha esposa e filho dormem no quarto ao lado, eu consigo enxergar beleza nos simples momentos. Reconheço que, no fim das contas, a vida é maior que nós. Isso já é um bom aprendizado e eu agradeço muito por isso.


Felipe Attie

UMA FASE BÔNUS CHAMADA INFÂNCIA

O Sonic simboliza uma época maravilhosa da minha vida. Uma época mágica chamada infância. Época onde eu acreditava ser capaz de tudo e que, "quando eu crescesse", poderia ser e fazer o que quisesse. Então eu cresci e vi que a vida não é tão simples e sutil quanto um sonho de criança. Ela é complicada e, muitas das vezes, até um pouco cruel. Ela tem suas regras e não podemos mudá-las. Faz parte do jogo. O jogo da vida. Um jogo bem diferente de Sonic, onde não existem macetes nem truques pra trapacear ou pular de fases. Porém, se tem uma coisa que prometi a mim mesmo, foi de nunca me esquecer da infância. Pode não parecer, mas flertar com a magia infantil ajuda bastante a suavizar os baques da vida. É uma espécie de fase bônus, onde você pega uns continues que te ajudam a seguir em frente.

 

Meu filho já vai fazer um ano. Desde que ele nasceu, eu venho me cobrando todos os dias para ser o pai que ele merece ter. Espero ser capaz de proporcionar a ele uma infância tão mágica e maravilhosa quanto a que eu tive jogando Sonic. Para que, no futuro, ele também tenha uma fase bônus para recordar, sorrir e seguir em frente.

 


Felipe Attie

MAL SILENCIOSO

As pessoas acham que o racismo se resume ao fato de odiar pretos. Estão erradas. Ele é muito maior que isso. O racismo é todo um sistema político-social existente há séculos e feito para favorecer pessoas brancas em detrimento de pessoas não brancas. Isso acontece independente de você gostar ou não de pretos. O racismo é uma doença traiçoeira que chega de mansinho sem ninguém perceber. Ele tá inserido em diversas camadas da sociedade. Ele tá presente na música que você escuta, na roupa que você veste, nos filmes que você assiste. Ele tá presente em você. Mas você não enxerga.

 

Sim, o racismo também pode ser caracterizado como ódio aos pretos. Mas isso é apenas a sua manifestação mais rasa e fácil de ser combatida. Tanto que o código penal criminaliza o preconceito racial de forma inafiançável. Porém, isso tá longe de exterminar o mal. Afinal, não existem leis contra a ausência de privilégios, contra a dificuldade de oportunidades, contra a ignorância ou a apatia. E essas são apenas algumas das manifestações do racismo presentes na nossa vida de forma um pouco mais sutil. Após séculos de existência, o racismo aprendeu a se camuflar e faz uso disso para se infiltrar em diversas áreas da nossa vida de forma que não notemos. Portanto, acredite, ele vai atingir você independente de gostar ou não de pretos.

 

Certa vez, o comediante Chris Rock disse em um show que ele é o único preto no condomínio de luxo onde mora. Pra conseguir comprar sua casa de valor exorbitante, ele precisou ser um dos maiores comediantes pretos da atualidade com uma vasta carreira de filmes e programas de televisão, sendo chamado até mesmo para apresentar o Oscar. Enquanto o seu vizinho, usando suas próprias palavras, “é a porra de um dentista branquelo”. Agora me diga quantos dentistas pretos você conhece? E quantos são milionários? Entende o que estou falando? Se Chris Rock fosse dentista, ele teria que ter inventado os dentes pra comprar sua casa. Vivemos em um mundo onde o caminho percorrido por um preto rumo à vitória é sempre mais sinuoso do que o traçado por um branco. Em consequência, o esforço empregado por um branco é sempre infinitamente menor para que o mesmo resultado seja alcançado.

 

Você já deve ter ouvido falar de Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Ambos foram guitarristas canhotos, integrantes do seleto grupo de astros do rock. Por que estou citando eles? Simples. O preto Jimi Hendrix precisou revolucionar a forma como se toca uma guitarra para ter seu nome cravado na história mundial do rock. Até hoje, ele é considerado por muitos o maior guitarrista que já existiu. Em contrapartida, o branquelo e loiro dos olhos azuis, Kurt Cobain só precisou gritar e quebrar umas guitarras no começo da década de 90 pra alcançar o mesmo feito. Ele não era genial com a guitarra, não era genial com a voz, mas era dotado de uma estética física que serviu perfeitamente para estampar manchetes de jornais e capas de revistas, transformando-o no rosto de uma geração. Não tenho dúvidas de que, se os papéis fossem invertidos, Hendrix estaria destinado a tocar em vagões de metrô a espera de moedas caindo em seu chapéu. O esforço empregado por um branco é sempre infinitamente menor para que, no fim, a mesma glória seja alcançada.

 

Por que você acha que a maioria esmagadora dos ídolos da cultura pop são brancos? Não é por acaso. É por racismo. E contra esse racismo silencioso não existem leis. Embora seja verdade o fato de que ninguém nasce racista, todos nós nascemos em um mundo racista. Séculos após séculos, ele permanece ativo como um sistema poderoso que contamina a todos. Cabe a nós tomar consciência e batalhar diariamente contra todas essas armadilhas socioculturais que são acionadas rotineiramente para que a história deixe de se repetir.

 


Felipe Attie


CARTA À ALANIS

Querida Alanis, hoje eu sonhei com você. Sim, você estava se apresentando no quintal da minha casa. Era um show pequeno, até porque, no meu quintal não cabe muita coisa além da minha moto, uma bicicleta sem rodas e a máquina de lavar. Não sei dizer se o show estava bom. Mas sei, com toda certeza, que você estava linda, ostentando esse rostinho de cavalo que tanto me encanta. Eu gosto de pessoas estranhas e reconhecê-la como uma delas é o mesmo que assumir que você me causa boas ereções.

 

Como eu disse, você estava linda. Linda demais. Eu gostava da maneira como você me olhava. A cada música, você lançava um olhar equino em minha direção. Eu gostava. Apesar de ser comprometido, eu gostava pra valer. Num dado momento, você chegou a fazer uma pequena declaração ao microfone e todas as seis ou sete pessoas que lotavam meu quintal olharam para mim com cara de “isso que ela disse foi pra você?”. Mas eu não me lembro do que você disse, assim como não me lembro de quase nenhuma de suas músicas. Pra ser sincero, eu nem gosto delas. E então, o pior aconteceu...

 

O palco desabou. Da cozinha, onde eu estava pegando cerveja, só escutei o barulho. Fui ver o que havia acontecido e encontrei você caída. Todas as seis ou sete pessoas que lotavam meu quintal estavam ao redor vendo seu corpo levemente ferido. Na verdade, era apenas um ralado no joelho e outro no cotovelo. Eu te peguei no colo, você olhou para mim e abriu um lindo sorriso com sua boquinha de cavalo. Eu me derreti! Levei você até meu quarto e cuidei dos seus ferimentos com um remédio que estava posicionado em cima da minha cama, como se esperasse pelo seu tombo. Você perguntou se ia arder e eu disse que não. Mas ardeu. Você pediu para eu assoprar e eu assoprei. Você soltou outro risinho de cavalo e permanecemos um bom tempo nos olhando, encantados um com o outro. Você estava linda.

 

Eu peguei minha gaita e toquei a única música sua que conheço, mas que também não sei o nome. Você gostou e perguntou se eu poderia acompanhá-la na sua próxima turnê. Disse que eu seria um bom músico de apoio. Eu recusei. Afinal, eu sou comprometido e sabia muito bem quais eram suas intenções com esse convite (danadinha!). Você pareceu triste, mas entendeu. Enfim, nós saímos do quarto e todas as seis ou sete pessoas que lotavam meu quintal aguardavam ansiosas o seu retorno.

 

Mas você teve que partir. Perguntei se voltaríamos a nos ver e você respondeu que sim. Em breve, você voltaria ao meu quintal para me visitar. Mas dessa vez não faria show. Após o incidente, você decidira não se apresentar mais em lugares sem infraestrutura adequada. Eu compreendi. Trocamos mais alguns olhares e nos beijamos. Você estava linda.

 

Então você se foi e eu continuei no meu quintal, acompanhado das outras seis ou sete pessoas e sem saber uma única música sua.



 Felipe Attie