A VIDA É MAIOR

Completei 36 anos de vida. Quase quatro décadas de existência. É um número significante, principalmente considerando o tanto que fiz durante esse tempo. Eu ainda me lembro das noites em que estava deitado na cama imaginando como seria o meu futuro. Confesso que, na minha cabeça, as coisas seriam bem diferentes. Eu era jovem, cheio de energia, me sentia cheio de razão e acreditava que as coisas aconteceriam exatamente como eu havia planejado. Eu era ingênuo. Eu era tolo. Então eu cresci e a vida me mostrou que, por mais que tenhamos planejamento, no fim das contas é ela quem manda. É ela quem dita as regras, cabendo a nós obedecer e fazer o melhor que podemos dentro do que nos é permitido.

 

Quando eu tinha 14 anos, tudo o que eu mais queria era me tornar um cartunista distribuído internacionalmente. Quando eu tinha 14 anos, eu quase nunca me imaginava com 36. O tempo passou, a vida ditou suas regras e, nos últimos seis anos, aconteceu uma série de coisas que não estavam na minha imaginação de 14 anos. Eu me formei na faculdade. Abandonei minha profissão de redator publicitário. Fiz pós-graduação. Fui professor. Virei tatuador. Terminei um relacionamento de mais de sete anos. Comecei um relacionamento com uma ex-garota de programa. Terminei meu relacionamento com a ex-garota de programa. Morei um tempo em São Paulo em busca de novos ares. Voltei pro Rio e conheci a mulher que, nesse exato momento, está dormindo abraçada com o nosso filho que acabou de completar um ano de vida. Ah! Eu consegui o tão sonhado contrato de distribuição internacional que traduz meus quadrinhos para idiomas que jamais falei e os publica em países que jamais pisei.

 

Pois é, eu realizei aquele sonho adolescente. Mas a vida me mostrou que realizar sonhos não tem a ver com ser feliz. A vida me ensinou que a felicidade está presente em todos os momentos que se passam enquanto você busca aquilo que acredita ser o que te fará feliz. Hoje eu sei que, lá atrás, quando eu era apenas um moleque de 14 anos sonhando com coisas que pareciam impossíveis, eu já era feliz. A vida me mostra isso em forma de saudade. Pois agora, esses momentos existem apenas na memória e muitas das pessoas que estiveram presentes nele transformaram-se em lembranças. Hoje, na minha casa, sentado no meu estúdio, enquanto escrevo essas palavras e minha esposa e filho dormem no quarto ao lado, eu consigo enxergar beleza nos simples momentos. Reconheço que, no fim das contas, a vida é maior que nós. Isso já é um bom aprendizado e eu agradeço muito por isso.


Felipe Attie