MAL SILENCIOSO

As pessoas acham que o racismo se resume ao fato de odiar pretos. Estão erradas. Ele é muito maior que isso. O racismo é todo um sistema político-social existente há séculos e feito para favorecer pessoas brancas em detrimento de pessoas não brancas. Isso acontece independente de você gostar ou não de pretos. O racismo é uma doença traiçoeira que chega de mansinho sem ninguém perceber. Ele tá inserido em diversas camadas da sociedade. Ele tá presente na música que você escuta, na roupa que você veste, nos filmes que você assiste. Ele tá presente em você. Mas você não enxerga.

 

Sim, o racismo também pode ser caracterizado como ódio aos pretos. Mas isso é apenas a sua manifestação mais rasa e fácil de ser combatida. Tanto que o código penal criminaliza o preconceito racial de forma inafiançável. Porém, isso tá longe de exterminar o mal. Afinal, não existem leis contra a ausência de privilégios, contra a dificuldade de oportunidades, contra a ignorância ou a apatia. E essas são apenas algumas das manifestações do racismo presentes na nossa vida de forma um pouco mais sutil. Após séculos de existência, o racismo aprendeu a se camuflar e faz uso disso para se infiltrar em diversas áreas da nossa vida de forma que não notemos. Portanto, acredite, ele vai atingir você independente de gostar ou não de pretos.

 

Certa vez, o comediante Chris Rock disse em um show que ele é o único preto no condomínio de luxo onde mora. Pra conseguir comprar sua casa de valor exorbitante, ele precisou ser um dos maiores comediantes pretos da atualidade com uma vasta carreira de filmes e programas de televisão, sendo chamado até mesmo para apresentar o Oscar. Enquanto o seu vizinho, usando suas próprias palavras, “é a porra de um dentista branquelo”. Agora me diga quantos dentistas pretos você conhece? E quantos são milionários? Entende o que estou falando? Se Chris Rock fosse dentista, ele teria que ter inventado os dentes pra comprar sua casa. Vivemos em um mundo onde o caminho percorrido por um preto rumo à vitória é sempre mais sinuoso do que o traçado por um branco. Em consequência, o esforço empregado por um branco é sempre infinitamente menor para que o mesmo resultado seja alcançado.

 

Você já deve ter ouvido falar de Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Ambos foram guitarristas canhotos, integrantes do seleto grupo de astros do rock. Por que estou citando eles? Simples. O preto Jimi Hendrix precisou revolucionar a forma como se toca uma guitarra para ter seu nome cravado na história mundial do rock. Até hoje, ele é considerado por muitos o maior guitarrista que já existiu. Em contrapartida, o branquelo e loiro dos olhos azuis, Kurt Cobain só precisou gritar e quebrar umas guitarras no começo da década de 90 pra alcançar o mesmo feito. Ele não era genial com a guitarra, não era genial com a voz, mas era dotado de uma estética física que serviu perfeitamente para estampar manchetes de jornais e capas de revistas, transformando-o no rosto de uma geração. Não tenho dúvidas de que, se os papéis fossem invertidos, Hendrix estaria destinado a tocar em vagões de metrô a espera de moedas caindo em seu chapéu. O esforço empregado por um branco é sempre infinitamente menor para que, no fim, a mesma glória seja alcançada.

 

Por que você acha que a maioria esmagadora dos ídolos da cultura pop são brancos? Não é por acaso. É por racismo. E contra esse racismo silencioso não existem leis. Embora seja verdade o fato de que ninguém nasce racista, todos nós nascemos em um mundo racista. Séculos após séculos, ele permanece ativo como um sistema poderoso que contamina a todos. Cabe a nós tomar consciência e batalhar diariamente contra todas essas armadilhas socioculturais que são acionadas rotineiramente para que a história deixe de se repetir.

 


Felipe Attie