UMA TATUAGEM QUE LEMBRA ILHA GRANDE

É impossível se livrar do passado, principalmente, quando o assunto são relacionamentos. Eles deixam marcas impossíveis de serem apagadas. São como cicatrizes, como tatuagens, daquelas que fazemos na adolescência sem nos darmos conta de que, no futuro, por mais que estejam desbotadas e maltratadas pelo sol, ainda estarão lá para nos lembrar daquela viagem feita à Ilha Grande.


O pior acontece quando os caminhos se cruzam anos após a história ter terminado. Como se esquivar do olhar e, consequentemente, das lembranças que vêm à tona quando encontramos alguém com quem vivemos uma história de amor? Mesmo que viremos o rosto, na tentativa frustrada de passarmos despercebidos pela pessoa, ambos se lembrarão de que, naquela terça-feira, vocês fizeram maratona de série e depois pediram pizza de tomate seco com manjericão; nas quartas, vocês costumavam sentar no bar pra tomar cerveja e depois iam pra casa trepar; na sexta, vocês brigaram; no sábado, dias de faxina, você lavou o banheiro, enquanto ela deu um jeito na sala e fez o almoço… Vocês se lembrarão de tudo que aconteceu (viagens, brigas, sexo, almoço em família, natal, doenças, mais sexo...) e tudo que enfrentaram até o momento em que, como num apagar de luzes, o amor se extinguiu. Em alguns casos, você se questiona como foi capaz de se apaixonar por aquela criatura e como foi idiota por dividir uma pizza com ela. Tudo isso invade sua mente, no instante em que você cruza com a pessoa que já foi alvo dos seus desejos. Então, vocês trocam um olhar tímido e, na melhor das hipóteses, soltam um sorriso contido acompanhado de um “oi” de elevador e seguem rumos distintos. Cada um pra um lado, cientes de que, por mais que queiram, jamais conseguirão apagar a marca, aquela cicatriz deixada pelo relacionamento. Exatamente como aquela tatuagem que te lembra da viagem à Ilha Grande.

 

Felipe Attie


VAGANDO

Entro no trem e não demora até eu ser contagiado pelo sacolejar do vagão se locomovendo sobre os trilhos. São centenas de pessoas perambulando pelas estações: trabalhadores; desempregados; pedintes; vendedores ambulantes; estudantes; mulheres e idosos. A todo instante às portas se abrem dando início a uma competitiva disputa entre quem precisa entrar e quem deseja sair. Os trens são diferentes dos ônibus. Aqui tudo é movido pelo tempo.


Não sei que horas o trem parte de Santa Cruz, estação inicial. Só sei que chega às 8h e 15 min na estação de Realengo, na qual eu entro e de onde ele parte rumo à Central do Brasil, estação terminal. Tenho que chegar ao trabalho às 9h. Desconto, mais ou menos, os 10 minutos que levo para andar até o escritório onde trabalho. Sendo assim, ele tem que chegar à Central exatamente às 8h e 50 min. Acredite, ele chega. A porta se fecha e prende a bolsa de uma mulher que grita como se o maquinista pudesse ouvi-la. Ele não pode. Isso sempre acontece quando alguém demora a passar pela porta. Sempre se esquecem que estão num trem. E aqui, tudo é movido pelo tempo.


Comecei a andar de trem quando comecei a trabalhar. É mais rápido e fácil. Sem trânsito; sem engarrafamentos; sem a hora do rush. Demora até você pegar a malícia dos trens. Ainda não decorei todas as estações. Tudo é costume. Com o tempo você se acostuma com tudo: com os vendedores te empurrando; com as pessoas reclamando da vida, do vizinho, do país; com os fanáticos discutindo futebol e com os outros fanáticos com bíblias querendo salvar vidas; a gente aprende a ler o jornal dos outros só de rabo de olho e até a prestar atenção nas conversas alheias. No trem, a gente aprende um monte de coisas.


Do meu lado direito, tem duas mulheres conversando sobre uma vizinha que está doente. No trem, a gente ouve muito dessas coisas. De vez em quando, aparecem uns doentes pedindo dinheiro para comprar remédio. Às vezes eu dou, às vezes não. Às vezes eles fedem a álcool, às vezes, não. Uma das mulheres está falando que a tal vizinha entrou e saiu do CTI três vezes e ainda resiste consciente. “Graças a Deus”, disse a outra, surpresa. Não sei se ela deveria agradecer. Pelo pouco que ouço da conversa, essa vizinha não vai durar mais uma semana. Está agonizando. Às vezes, é melhor morrer. No trem, todo dia tem alguém assim: moribundo perambulando de maneira deprimente pelos vagões, com cara de zumbi. Mas a gente se acostuma.


Do meu lado esquerdo tem um senhor segurando uma bolsa cheia de coisas dentro. Parece que ele saiu de casa para nunca mais voltar. “Para onde será que ele está indo?” Eu me faço essa pergunta várias vezes durante a viagem. Olho fixamente para um dos personagens do mesmo vagão que estou e tento adivinhar onde aquela pessoa pretende chegar. Às vezes acerto; na maioria, não.


Na minha frente está um sujeito vestindo um terno elegante. Volta e meia entra um assim dentro do vagão. Eles olham continuamente para o relógio como se estivessem constantemente atrasados. Coitados, até hoje não aprenderam a viajar de trem. Vivem perdendo a hora. Ele está lendo jornal. Mais um leitor desses jornais práticos, rápidos, de informações vazias e de tamanho tão curto quanto seu preço. De onde eu estou, só está dando para ler a primeira página. A foto de uma menina linda, com um sorriso encantador, vítima de anorexia. É engraçado como as pessoas se preocupam tanto com o corpo, a ponto de ficarem loucas. No trem, estão todos sempre tão apressados, recém-acordados, compromissados, que não têm tempo sequer para tomar um café da manhã. São anoréxicos devido ao cotidiano agitado. Loucos pelo excesso de trabalho. Também existem pessoas bonitas e bem arrumadas andando pelas estações. Se você tiver sorte, talvez, uma pegue o mesmo trem que você, entre no mesmo vagão que o seu, e até sente do seu lado. Mas aí seria sorte demais.


Estação Deodoro. Aqui é onde o tumulto atinge seu ápice. A confusão é tamanha que, se você não se cuidar, pode acabar fora do vagão. As pessoas se movem, se empurram e se apertam. Dá impressão que vai sair suco, de tanta gente espremida. Alguém descuidado, ou empurrado, pisa no pé de uma criança que começa a chorar. A mãe tenta inutilmente encontrar o imprudente no meio de tantas faces. É uma busca em vão. Ela olha fixamente para um vendedor. Os vendedores sempre levam a culpa. Só são bem-vindos quando estão vendendo algo que alguém precisa. Não deve ser difícil encontrar clientes. Eles vendem de tudo. Esse, por exemplo, está com um monte de tralhas que vão desde pilhas a escovas de dente. Acho incrível a habilidade que eles têm de andar tranqüilamente pelos vagões, carregando toneladas de mercadorias sem perder o equilíbrio. Seus frágeis corpos desafiam a lei da gravidade.


O tempo passa e deixa para trás as estações Magalhães Bastos; Vila Militar; Deodoro; Marechal... Engenho de Dentro; Mangueira; Maracanã... O trem esvazia. As mulheres continuam conversando. Mas o senhor da bolsa cheia não está mais do meu lado. Desapareceu como num truque de mágica. O homem de terno já não lê mais seu jornal. Está sentando, de óculos escuros e dormindo. Agora que o silêncio se estabeleceu novamente no vagão, dá para ouvir os evangélicos gritando e pedindo bênçãos ao Senhor. “Alguém quer entregar sua vida a Deus?”, grita o homem. Acho que ninguém se prontificou. Nunca vi ninguém se converter em vagão de trem.


Uma das mulheres diz que seu sobrinho sairá da prisão em dois dias. Dentro do trem os assuntos mudam com a mesma velocidade que vemos o cenário lá fora passar pela janela e ficar para trás. Observo o trânsito nas ruas e me sinto poderoso sabendo que estou viajando numa velocidade bem superior a dos automóveis. O conforto pode não ser o mesmo. Mas o importante é que vou chegar antes. No caminho de volta essa sensação parece aumentar. Quando penso que em breve estarei em casa, no conforto do meu lar, antes de todos eles, agradeço por ter entrado no vagão.


Enfim, Central do Brasil, estação terminal. Daqui a diante, cada um seguirá seu próprio caminho; seu próprio rumo. Rumo este, que não será compartilhado com os demais tripulantes do vagão. Uns irão para o trabalho; outros tentarão encontrar trabalho; uns irão à escola; outros pedirão esmola... E eu me pergunto: “Será que a tal vizinha vai melhorar? Alguém entregou sua vida a Deus? O homem de terno conseguirá chegar a tempo? O que aconteceu com o senhor da bolsa?” Destinos distintos de pessoas desconhecidas que se cruzaram num simples vagão de trem. A vida é assim mesmo, ainda mais quando se anda de trem. A gente vai mantendo um contato diário com pessoas que não sabemos o nome. Ouvimos conversas; lemos jornais; somos empurrados; lutamos por um assento... Tudo isso para podermos cumprir com nossos compromissos e continuarmos na luta diária. Afinal, no dia seguinte, estaremos todos juntos novamente. Juntos, dentro de um vagão de trem. Mas a gente se acostuma.



Felipe Attie

BOA SORTE, GAROTO!

Sempre fui da opinião de que a maior virtude humana é reconhecer suas fraquezas e limitações. Aprendi isso na prática, quando acreditei que levava jeito pra carreira musical. Não me pergunte o que me levou a acreditar ser capaz de levar a vida tocando canções mundo a fora. Meus ouvidos mal diferenciam graves de agudos e se me perguntarem a diferença entre as notas e eu sou capaz de responder “as letras l e f”.


A louca ideia começou numa conversa entre eu, meu primo e um amigo a respeito de montarmos uma banda de rock. Meu primo foi designado o guitarrista; meu amigo, Luizinho, assumiu o microfone — não pelo talento, mas sim pelo simples fato de a ideia da banda ter sido sua —; seu irmão, Samuel, assumiu a bateria; enquanto eu me encarreguei do baixo — também não pelo talento, mas por ser o único instrumento que carecia de músico.


Como já era de se esperar, o meu desempenho como baixista despertava comentários do tipo “você precisa se dedicar muito mais”. Samuel, notavelmente era o mais competente entre nós, demonstrando uma invejável habilidade com as baquetas. Meu primo, que sempre soube tocar violão, não teve dificuldades com a guitarra. Quanto a Luizinho, logo no primeiro ensaio ele nos deu uma prévia do grande problema que teríamos pela frente.


Ninguém convencia Luizinho de que até uma calopsita engasgada cantava melhor do que ele. Eram necessárias apenas duas estrofes de cantoria para facilmente notarmos o cruel destino que nos aguardava. Sempre que iniciávamos os ensaios, as janelas da vizinhança se fechavam em sinal de protesto e os moradores elevavam o som de seus rádios ao máximo numa tentativa desesperada de abafar a voz esganiçada do nosso vocalista. Era horrível presenciar a total falta de coordenação que acometia as cordas vocais de Luizinho, incapacitando-o de cantar qualquer melodia por mais simples que fosse. Nem um tradicional “parabéns pra você” escapava do seu desafinado canto.


Eu sempre acreditei nas habilidades que um ser humano com força de vontade é capaz de possuir. Mas crer no potencial de Luizinho era tarefa impossível até para os mais otimistas e derrubava por terra todo o conceito de fé. Jesus não teve dificuldades em fazer cego enxergar ou multiplicar pães e peixes, mas com certeza cortaria um dobrado caso tentasse fazer Luizinho cantar.


Não bastando a sua incompetência como vocalista, nós éramos forçados a conviver com a sua índole autoritária que insistia na ideia de que ele deveria ser o líder, cantor e único compositor da banda. Só ele podia escrever as canções, que sempre eram carregadas de poemas obscuros e depressivos. Termos como “fundo do poço”, “fé em vão” e “vida vazia” eram acompanhados das palavras “escuridão”, “tristeza” e “ódio”, formando estrofes sombrias não recomendadas para pessoas depressivas ou com tendências suicidas. Se algum dia nós conseguíssemos lançar um álbum, com certeza ele seria proibido pela Igreja. Um dos refrões que Luizinho considerava sua obra-prima dizia: “Estou no fundo do poço sem motivos pra viver. E o inimigo está ao meu lado querendo me enlouquecer!”, com a palavra enlouquecer sendo repetida exaustivamente até que um de nós realmente enlouquecesse e tentasse cortar os pulsos.


Para acabar de vez com qualquer possibilidade de sucesso, ao transpirar, Luizinho exalava um fedor tão intenso que tornava impossível a permanência de qualquer ser vivo dentro de um raio de pelo menos 20 metros ao seu redor. Logo, nos mantermos trancados dentro de um estúdio com a sua presença se mostrou um castigo tão árduo quanto escutá-lo cantar.


“Pra mim, chega! Desisto! É impossível respirar aqui dentro!”, disse meu primo ao sair do estúdio com sua guitarra embaixo do braço, numa cena que se tornaria comum naquela banda. O próximo foi Samuel, que abandonou as baquetas provando que, ao contrário do que muitos pensam, o amor fraterno nem sempre supera todas as dificuldades.


A partir de então a rotatividade de integrantes foi enorme. Eram necessários no máximo três ensaios para que guitarristas e bateristas saíssem da nossa banda como foragidos de um campo de concentração nazista. Não importava o quanto entusiasmado estivessem, uma hora ou outra, todos acabavam pulando fora daquele barco que estava destinado ao naufrágio. Todos menos eu, que acabei me tornando imune aos grunhidos e resmungos que Luizinho insistia em chamar de canto.


Durante um bom tempo, eu fui para Luizinho o que Sancho Pança foi para Dom Quixote e fazer parte daquela loucura tornou-se uma questão de solidariedade. Mas, mesmo eu não me importando com todo aquele caos em que estava metido, era cada vez mais difícil enxergar uma luz no fim do túnel. Até que minha imunidade se esgotou e eu não tive escolha senão largar meu amigo com seu amontoado de composições sombrias e ritmos desengonçados, prometendo para mim mesmo que, a partir de então, minha única relação com a música seria mantida por meio de sites ilegais de download.


Anos mais tarde, eu encontrei Luizinho na fila do banco com uma aparência saudável, bem diferente do semblante de zumbi que sempre estampava sua face. Em meio à conversa, ele disse que estava dando aulas de radiologia numa faculdade e que ficara noivo. Fiquei feliz com a notícia. Mas antes que eu pudesse sorrir de satisfação, meus ouvidos foram informados pela sua desafinada voz, que ele havia comprado uma guitarra e estava com uns caras fazendo um som. Tratei de me despedir às pressas, em busca de um local distante o suficiente de um convite para integrar sua nova banda.


Ele deve ter me achado louco quando eu lhe disse “Boa sorte, garoto!” e em seguida saí correndo, dizendo que havia esquecido a luz da cozinha acesa. Pouco me importa. Tudo que eu quero é me manter longe desse tipo de pessoa, que parece jamais desistir dos seus sonhos.


Felipe Attie

CADÊ VOCÊ, TIA INÊS?

Toda vez que ouço Rock n' Roll, assisto a filmes hollywoodianos ou tenho minha ignorância despida por algum termo em inglês, eu sou assombrado pela lembrança de Tia Inês.


Tia Inês foi minha professora de inglês durante grande parte da minha vida escolar. Suas aulas eram ministradas sempre às sete horas da manhã, quando eu ainda estava tirando os restos de remela ressecada dos olhos, o que não favorecia em nada a minha concentração — que, diga-se de passagem, nunca foi digna de aplausos. Durante suas aulas, enquanto a turma se deliciava, traduzindo músicas e balbuciando palavras e gírias da terra do Tio Sam, eu me divertia lendo as tirinhas que já vinham traduzidas e impressas no jornal que eu roubava do meu tio. “Inglês pra quê?”, era a pergunta que, como uma Fênix, renascia em minha mente todas as manhãs de terça-feira.


Nunca tive saco pra aprender essa língua que todos dizem ser fácil, prática e funcional. Na minha opinião, o inglês tem sua suposta praticidade dificultada pela pronúncia. Não consigo me entrosar com todos os “ús” com sons de “ás”, “phs” com sons de “efes”, e assim por diante. Outra barreira que surge na minha compreensão são os verbos, todos atemporais, variando de acordo com o sentido e intenção do emissor. Pra falar inglês é preciso pensar em inglês, daí vem minha dificuldade. É por essas e outras que eu voltei meus esforços para a Língua Portuguesa. Assim, eu me divertia pra valer lendo os quadrinhos e, de quebra, conquistava boas notas em redação o que, mais tarde, me ajudou a conquistar meu primeiro emprego no competitivo mercado de trabalho. Mas nem tudo foram flores...


Anos depois de Tia Inês sumir da minha vida, eu comecei a trabalhar como redator numa agência de propaganda, onde tive meus ouvidos bombardeados por termos estrangeiros cruciais para a sobrevivência nesse meio profissional. “Nosso deadline está estourado!”; “vamos focar no briefing”; “temos que investir no nosso target” e “o mercado teve um up!” foram algumas das sentenças que me fizeram lembrar de Tia Inês que, com o tempo, passou a assombrar minha vida.


Acredite, eu sempre vejo o espectro de Tia Inês parado em frente a um curso de idiomas. Quando assisto filmes, por exemplo, e as legendas passam rápido de maneira que não consigo acompanhar — o que acontece com frequência —, instantaneamente a face da Tia Inês assume o rosto do personagem e debocha da minha cara de babaca. É assustador! No filme Poltergeist, lá estava Tia Inês gritando “Come to light, Carol Anne!”; em O Retorno de Jedi, Tia Inês disse “Luke, I am your father”; em O Sexto Sentido, eu vi Tia Inês revelar “I see dead people”. Minha única solução foi evitar ir ao cinema e só assistir desenhos dublados.


Como se não bastasse, ainda sou obrigado a lidar com o maldito pesadelo que perturba meu sono rotineiramente, onde eu estou num sombrio labirinto, aparentemente sem fim, pedindo informações a sujeitos encapuzados que me respondem em inglês alguma coisa parecida com “The exit is that way”. Então eu começo a chorar de desespero e a berrar em vão: “Cadê você, Tia Inês? Tia Inês, me ajude! O que eles estão falando? Tia Inês! Socorro! Cadê você, Tia Inês?”.


 

Felipe Attie