UMA TATUAGEM QUE LEMBRA ILHA GRANDE

É impossível se livrar do passado, principalmente, quando o assunto são relacionamentos. Eles deixam marcas impossíveis de serem apagadas. São como cicatrizes, como tatuagens, daquelas que fazemos na adolescência sem nos darmos conta de que, no futuro, por mais que estejam desbotadas e maltratadas pelo sol, ainda estarão lá para nos lembrar daquela viagem feita à Ilha Grande.


O pior acontece quando os caminhos se cruzam anos após a história ter terminado. Como se esquivar do olhar e, consequentemente, das lembranças que vêm à tona quando encontramos alguém com quem vivemos uma história de amor? Mesmo que viremos o rosto, na tentativa frustrada de passarmos despercebidos pela pessoa, ambos se lembrarão de que, naquela terça-feira, vocês fizeram maratona de série e depois pediram pizza de tomate seco com manjericão; nas quartas, vocês costumavam sentar no bar pra tomar cerveja e depois iam pra casa trepar; na sexta, vocês brigaram; no sábado, dias de faxina, você lavou o banheiro, enquanto ela deu um jeito na sala e fez o almoço… Vocês se lembrarão de tudo que aconteceu (viagens, brigas, sexo, almoço em família, natal, doenças, mais sexo...) e tudo que enfrentaram até o momento em que, como num apagar de luzes, o amor se extinguiu. Em alguns casos, você se questiona como foi capaz de se apaixonar por aquela criatura e como foi idiota por dividir uma pizza com ela. Tudo isso invade sua mente, no instante em que você cruza com a pessoa que já foi alvo dos seus desejos. Então, vocês trocam um olhar tímido e, na melhor das hipóteses, soltam um sorriso contido acompanhado de um “oi” de elevador e seguem rumos distintos. Cada um pra um lado, cientes de que, por mais que queiram, jamais conseguirão apagar a marca, aquela cicatriz deixada pelo relacionamento. Exatamente como aquela tatuagem que te lembra da viagem à Ilha Grande.

 

Felipe Attie