HIPOGLICEMIA E PSICOSE NUMA MADRUGADA DE PRIMAVERA

Era madrugada de primavera e eu estava assistindo ao clássico filme Psicose, quando os primeiros sinais da hipoglicemia começaram a bater no meu organismo. Lá fora, o vento e a chuva berravam com o resto do mundo. Dentro do meu quarto, minha namorada dormia esparramada quase me chutando pra fora da cama. Na televisão, Marion Crane tinha acabado de ser liberada pelo patrão após alegar estar sentindo fortes dores de cabeça. Dentro de mim, meu organismo começava implorar por um bocado açúcar. Olhei para as legendas do filme e percebi o quanto estavam distantes e embaralhadas. As letras pareciam dançar pela tela. Forcei a visão em busca de foco, mas de nada adiantou. Foi então que conclui: estou tendo uma crise de hipoglicemia.


Desenvolvi diabetes na adolescência, portanto, anos convivendo com essa doença me forneceram experiência suficiente para lidar com seus sintomas. O problema é que, minha hipocondria aliada ao meu medo de ficar cego ou broxa, faz com que eu tome mais insulina do que o necessário. Como tempo, isso forçou meu organismo a se acostumar com os baixos níveis de açúcar no sangue. Resultado: se uma pessoa normal começa a se sentir mal quando sua glicose cai para 70mg/dl, eu só vou sentir algum mal-estar quando ela já está na casa dos 30mg/dl. Nesse ponto, o risco de entrar em coma por falta de açúcar torna-se parte da sua rotina. Portanto, quando eu falar que estou tendo uma hipoglicemia, pode apostar que é pra valer!


Os calafrios e a sudorese são quase sempre os primeiros sinais da hipoglicemia. Mas eu praticamente já não escuto esses alarmes. Sendo assim, o próximo passo é a aceleração cardíaca. Enquanto Marion Crane estava na beira da estrada sendo interrogada por um policial desconfiado, eu estava deitado na cama sentindo meu coração bater furiosamente contra as paredes da minha caixa torácica. Apesar do desconforto, eu sabia que isso nada mais era do que o meu organismo liberando adrenalina na corrente sanguínea, na tentativa de me manter acordado. Dormir com a glicose baixa só é aconselhável caso você queira embarcar no sono eterno, e definitivamente não era esse o meu objetivo.


Conforme o filme avançava, a veia do meu pescoço parecia que ia explodir a qualquer momento. A essa altura, eu já havia desistido de ler as legendas, confiando toda minha compreensão da história nos meus dois meses de curso de inglês. Foi quando eu notei um pequeno erro de sincronia entre o som e a imagem do filme.


Mas que merda está acontecendo aqui?, pensei. Por que Norman Bates está movendo sua maldita boca feito um velho com Alzheimer? Onde foi parar o som de suas palavras?


Tudo parecia lento, distante, arrastado. Era como se, quando eu olhasse a cena, o som dos diálogos congelassem e as legendas passassem fora de ritmo pela tela. Apontei o controle remoto para a TV e vi meus movimentos em slow motion, com vários outros braços traçando o mesmo movimento em arco que eu havia feito segundos antes. Deitado na cama, eu bati algumas palmas e simulei alguns socos no ar e era como se tudo estivesse com delay. Tudo parecia lento, distante, arrastado. O desespero começou a bater.


Então é isso, o mundo está totalmente ao contrário!, pensei. Será que eu morri? Será que eu morri e fui levado literalmente para o outro lado? Será que a minha vida virou do avesso? Olhei para minha namorada e notei que ela estava dormindo do outro lado da cama. Não do lado que ela costumava dormir todas as noites, mas sim, do lado que eu dormia todas as noites. Tudo estava realmente ao contrário. Norman Bates conversava algo sobre empalhar pássaros, mas eu escutava sua voz saindo da boca de Marion Crane que, nesse momento, mastigava um sanduíche. Tentei me levantar e quase caí. As cortinas do quarto! Isso! Preciso me agarrar às cortinas! Assim, caso eu desmaie, elas virão comigo até o chão. Talvez isso acorde minha namorada a tempo de me socorrer!


Quando se está com a glicose praticamente zerada, executar qualquer atividade, por mais simples que seja, requer um esforço extraordinário. Até mesmo um simples diálogo torna-se algo complicado. Minha namorada e alguns amigos já me presenciaram protagonizando tais cenas. “Eu acho que as coisas... é... como posso dizer... é... as coisas... daquilo, sabe.... daquilo que estávamos falando... eu acho que...” então chega o momento em que me perguntam se tem algo de errado acontecendo comigo e tudo que eu respondo é “preciso de açúcar.”


Olhei para a televisão e vi dois carros afundarem no que parecia ser um oceano. Espere um instante! Dois carros? De onde saiu essa segunda televisão? E essa mesa? E esse outro controle remoto? Minha visão! Não estou conseguindo manter o foco visual. Parece que estou vesgo. Tudo está duplicado. Franzi a testa numa tentativa fracassada de centralizar as imagens que minha visão embaralhada captava, mas o máximo que consegui foi ver o carro de Marion Crane afundando no meio do lago. Porra! Já mataram essa putinha asquerosa?! Norman Bates é rápido no gatilho! Tenho que tomar cuidado! A qualquer momento esse filhodaputa pode aparecer aqui e fazer de mim a sua próxima vítima.


“Amor, acorde! Preciso de ajuda! O Norman... ele quer me pegar!”, sussurrei, tentando acordar uma das duas namoradas que eu estava vendo. Mas após concluir que nada seria capaz de acordá-la, levantei com cuidado e calcei os chinelos disposto a ir até a cozinha atrás de açúcar. Olhei para meus pés e vi que eles estavam ao contrário. Realmente, o mundo havia virado do avesso. Tentei trocá-los, mas ao perceber o esforço que isso ia exigir, preferi ir descalço até a cozinha.


Nunca foi tão difícil preparar um copo de água com açúcar. Abro a geladeira e pego a garrafa d’água. Vou até o armário em busca de açúcar, mas ele não está lá. Olho para a mesa e lá está ele. Então eu me dou conta de que já havia pegado o açúcar. Parado em frente à mesa, eu seguro a garrafa d’água e encaro o pote de açúcar que parece se multiplicar diante dos meus olhos. Tenho a leve desconfiança de que estou me esquecendo de algo. Então eu me lembro do copo. Minha glicose está baixa! Preciso de um copo. Preciso de açúcar. Preciso de um copo para beber água com açúcar. Onde estão os copos dessa maldita casa? Volto ao armário. Pego um copo. Vou até a geladeira em busca de água. A água não está lá. Porra! Onde está a água nessa maldita casa? Volto à mesa e lá estão a água e o açúcar que parecem se multiplicar diante dos meus olhos. Minhas mãos estão vazias. Cadê o copo? CHEGA! Preciso manter a calma. Preciso de glicose. Respiro fundo. Preciso de açúcar. Preciso de água. Preciso de um copo. Respiro fundo. Vou até o armário e pego um copo. Respiro fundo. Vou até à mesa e derrubo açúcar dentro do copo. Respiro fundo. Abro a garra d’água e derrubo água dentro do copo com açúcar. Respiro fundo. Com o dedo, eu misturo a água com o açúcar o máximo que a minha coordenação motora permite. Derrubo tudo goela abaixo num só gole. Respiro fundo. Aguardo.


Minha visão começa a normalizar. Olho para a garrafa d’água e vejo nitidamente meu foco visual se ajustando à medida que a imagem de uma garrafa d’água se sobrepõe com a da outra garrafa. Duas garrafas d’água viram uma única garrafa d’água e a minha visão volta ao normal. Meus movimentos estão se normalizando. Balanço a garrafa no ar e não vejo nenhum braço além do meu. Meu coração está calmo. Meus batimentos cardíacos estão normais. Consigo raciocinar. Conto de um até dez. De um até vinte. Pronuncio algumas frases sem dificuldade. Volto para o quarto.


Olho para a TV e vejo que estão retirando o carro de Marion Crane de dentro do lago. Puta merda! Quanto tempo eu demorei na cozinha? Minha namorada me pergunta meio sonolenta o que eu estou fazendo de pé no meio do quarto àquela hora da noite.


“Nada demais. Volte a dormir”, respondo. Deito na cama. Conforme os créditos finais do filme passam pela tela, eles levam consigo toda a minha paranoia promovida pela falta de açúcar. Meus olhos começam a pesar e eu adormeço.


No dia seguinte, eu acordo com minha namorada me perguntando o que aconteceu na cozinha durante a noite. O cenário é devastador. Tem açúcar por toda parte. Tem formigas por toda parte. A garrafa virada forma uma poça de água sobre a mesa. Tem formigas afogadas por toda parte. Então eu me lembro da noite anterior. Lembro-me de Norman Bates. Minha namorada pergunta o que um copo vazio está fazendo dentro da geladeira? Encaro o copo na sua mão. O maldito copo.


“Deixa pra lá. Depois eu arrumo isso”, respondo, dando de ombros.


Volto pra cama. Volto a dormir. De nada adiantaria explicar. Ela nunca entenderia. Ninguém nunca entenderá. Afinal, se tem uma coisa que eu aprendi com essa doença é que algumas coisas só podem ser compreendidas, quando se está com a glicose quase zerada.


Felipe Attie

A SOGRA DO DIABO

A lembrança mais antiga que tenho da minha relação com Deus é a de minha mãe me obrigando a ir à igreja todos os domingos de manhã. “Você precisa ir à missa! Precisa se perdoar com Deus!”, dizia ela, como se eu fosse um dos romanos que pregara Jesus na cruz. “Mas o que eu fiz de tão grave? Tenho só 12 anos!”, eu berrava em defesa. “Não adianta, você vai pra Igreja! Você tem que ter bons costumes!”, decretava mamãe, com seu tradicional cigarro filtro amarelo pendurado no canto da boca. Sem escolha, eu pegava minha bíblia e me arrastava até a Igreja, desgraçando minha mãe, Deus e todo o universo celestial por me fazerem perder mais uma bela manhã de domingo. Esse ritual se repetiu religiosamente durante uns dois anos, até eu completar o curso de Primeira Comunhão e jurar pra mim mesmo que jamais voltaria a pisar dentro de uma igreja.


Anos mais tarde, eu comecei a namorar uma garota evangélica de seios fartos e tão logo completamos uma semana de namoro, minha falta de fé se mostrou ser um grande obstáculo no nosso relacionamento. Sua família, composta toda por evangélicos, por incrível que pareça, demonstrava certo apreço por mim. O problema se concentrou todo na minha sogra, uma mulher amarga e religiosamente fanática, que nutria um ciúme doentio pela filha e vivia descarregando suas frustrações — que eram muitas — nas costas do diabo. “A culpa é do inimigo chifrudo!”, dizia ela, sempre que algo em sua vidinha dava errado. “Esse namoro nunca vai dar certo!” sentenciava, referindo-se ao fato de eu não ser evangélico.


Descobri que muito da sua amargura teve origem na perda do marido, vítima de câncer cerebral. Isso fez com que ela depositasse todo seu amor na filha. “Mas eu não tenho porra nenhuma a ver com isso!”, era o que eu repetia a mim mesmo, sempre que ouvia uma voz na minha consciência me pedindo para ser tolerante com aquela praga de mulher. Mas como o meu principal objetivo era ter paz no meu relacionamento, não tardou para que eu me transformasse numa espécie de capataz, calculando cada ação e emoção de maneira a agradar minha sogra.


Comecei a acompanhar minha namorada aos cultos; troquei o jeans rasgado e a camiseta surrada pela calça social e o blusão abotoado até a glote; substitui a leitura visceral de Hunter S. Thompson e Charles Bukowski pelos ensinamentos bíblicos; e passei a responder “tudo na paz do senhor” sempre que alguém me perguntava como estavam indo as coisas. Hoje, parece loucura, mas naquela época, se fosse preciso, eu me candidataria para o posto de Jesus Cristo do século 21 só para àquela mulher me aceitar como genro. Até a questão do sexo após o casamento eu havia resolvido com punhetinhas três vezes por semana — um pecado pequeno, que depois eu acertaria a sós com Deus. Tais mudanças me fizeram viver um curto período de trégua com minha sogra, até que fomos convidados para um retiro religioso organizado pelo seu primo — um sujeito que eu sempre desconfiei ter a sexualidade abalada —, e então tudo voltou a ruir.


“Vai ser glorioso!”, disse Ricardo, com seus trejeitos afeminados. “Com certeza Deus vai ungir o namoro de vocês!”


Olhei desconfiado para minha namorada e tudo que vi foi ela abraçada com minha sogra, ambas com sorriso no rosto esperando pela minha resposta.


“Er... Vamos, sim. Tenho certeza de que será arrebatador!”, concordei. E nesse momento, eu apertei de vez a corda que estava no meu pescoço.


Encontro com Deus era o nome que eles davam à programação que consistia em passar todo um final de semana enfurnado num sítio jejuando e orando.


“Jejuar é a melhor maneira de se aproximar de Deus!”, disse Ricardo, quando o questionei sobre a tortura a que seríamos submetidos.


“Mas eu sou diabético! Tomo insulina! Não posso ficar mais do que três horas sem comer!”, retruquei, lembrando das orientações médicas.


“Acredite, nada de ruim vai acontecer com você enquanto estiver na presença de Deus!”, afirmou ele.


Pra quem não sabe, tomar insulina e jejuar são duas coisas que só combinam com a morte. E eu não faria isso, a não ser que eu quisesse entrar em coma hipoglicêmico em pleno altar e mostrar praquele monte de filhos da puta que a medicina convencional ainda é a maneira mais segura de se manter um diabético vivo.


Passei todo o fim de semana com um único pedaço de pão e uma maçã no estômago, comidos na sexta-feira à noite durante a famosa Ceia com Cristo — momento em que todos nós sentamos em círculos e simulamos a Santa Ceia num panorama mais atual, com refrigerante de uva no lugar do vinho, acompanhado de cachorro quente e frutas. Não tomei insulina e escondi um tablete de chocolate para o caso de emergência. No decorrer dos dias, fomos submetidos a longas maratonas de oração que iam das seis da manhã às dez da noite. Era época de carnaval, e tudo que vagava na minha cabeça era a imagem do meu irmão, meu primo e meus amigos se divertindo na piscina com churrasco, cerveja e mulheres.


No domingo, já de volta à igreja, eu verifiquei minha glicose e, como era de se esperar, estava baixíssima. Eu estava gelado e roxo de fome.


“Viu só? Isso é a unção de Deus agindo na sua vida!”, disse o pastor sorridente ao ser informado da minha hipoglicemia.


O culto começou e eu fui chamado ao altar para dar meu testemunho a respeito do suposto milagre que havia se operado em mim. Então eu pude ver de perto como funciona todo o inescrupuloso esquema de alienação sagrada que os líderes religiosos submetem seus ignorantes fiéis.


“Esse jovem, aqui presente, foi curado da diabetes durante o nosso Encontro com Deus!”, gritou o Pastor, apontando para mim.


“Glória Deus! Aleluia!”, berravam os fiéis em resposta.


“De hoje em diante, ele não precisará mais dos seus remédios para viver! Deus lhe proveu a cura, livrando-o das garras do demônio!”


“Aleluia, Senhor! Salve! Salve!”


Enquanto isso, eu me culpava e me xingava mentalmente, por reconhecer que todo aquele pesadelo teve origem no meu esforço desesperado de ser aceito pela minha sogra. A sogra do Diabo, conclui, abrindo a barra de chocolate que eu havia guardado no bolso para o caso de uma emergência.


“Olha mãe, ele tá até comendo chocolate!”, disse uma mulher apontando para mim, enquanto cutucava uma velha pelancuda. “Eu falo pra senhora entregar sua saúde nas mãos de Deus e abandonar aquele monte de remédios!”


De volta para casa, enquanto eu e minha namorada estávamos desfazendo as malas, minha sogra apareceu na porta do quarto dizendo que eu deveria agradecer pela benção e que deveríamos começar a frequentar a igreja de seu primo, o lugar onde o milagre foi operado. Na verdade, eu sabia que aquilo não passava de mais um truque sujo para me distanciar de sua amada filhinha. Uma vez que, na igreja de Ricardo, todos os jovens namorados eram obrigados a manter um tipo de relação que eles chamavam de Namoro em Corte, onde nenhum contato físico era permitido até o dia do casamento. Isso mesmo, nenhum!


“Querem saber de uma coisa...”, comecei. “A verdade é que não aconteceu porra de milagre nenhum!”


Minha sogra e minha namorada olharam assustadas para mim. “Seu ingrato!”, esbravejou minha sogra. “Deus vai te castigar!”


“Isso mesmo! Tudo não passou da criação daquele pastor maluco!”


“Tá vendo só, minha filha? Ele não te merece! Esse garoto é um mundano!”


“Qualquer diabético que tomar insulina e jejuar vai conseguir um milagre desses! Vai conseguir morrer, também!” esbravejei, enfiando dois bombons na boca!


“O que você tá fazendo, seu maluco?”, perguntou minha namorada apreensiva.


Maúco?! Ôçê ai ver o Maúco!”, disse, deixando pingar um filete de baba achocolatada no carpete.


“Minha filha, ele tá desafiando Deus?!”


Engoli aquele amontoado de chocolate e aguardei alguns minutos. Foram momentos de tensão. Era óbvio que, caso elas estivessem certas, o privilegiado seria eu. Afinal, quem quer passar o resto da vida sendo picado por agulhas de insulina? Mas, naquele momento, meu ódio era tanto, que eu torci para que meu pâncreas preguiçoso continuasse cochilando e me permitisse desmascarar toda aquela farsa.


Verifiquei minha glicemia e lá estava o valor 325mg/dl estampado no visor do aparelho — muito acima da média estipulada pela medicina. “Acreditam em mim, agora?”, perguntei, abrindo um lindo sorriso sujo de chocolate.


Isso é castigo!”, berrou minha sogra. “Deus te castigou por desafiá-lo!


Enfiei o aparelho na mochila convicto de que nada me faria pôr os pés naquela igreja novamente.


Dois meses depois, eu estava vestindo um roupão de cetim dourado em plena praça pública numa cerimônia de batismo nas águas. “Sim, eu aceito Jesus como meu único salvador”, foi o que falei ao pastor, antes de ele me afogar na piscina armada no gramado e depositei naquele mergulho todas as esperanças de, um dia, desfrutar de um relacionamento normal ao lado da minha namorada.


Após quase três anos, eu já havia usado todos os recursos disponíveis para cessar a guerra entre eu e minha sogra e tinha minha consciência limpa de que, se aquele romance não fosse pra frente, não seria por minha culpa. Mas eu estava enganado...


Era numa tarde nublada, quando fui surpreendido pela minha namorada alegando não estar mais apaixonada por mim — entendo, é difícil manter a chama do amor acesa quando mal se pode dar um abraço apertado.


“Você é muito perfeitinho! Cansei! Onde está aquele garoto louco por quem me apaixonei?”, sussurrou ela, olhando-me como se não me conhecesse.


Ela estava certa. Eu mesmo não me reconhecia mais. Cheguei à conclusão de que eu havia vivido os últimos três anos, esforçando-me para ser o homem perfeito, não para a minha namorada, mas sim, para a minha sogra. Só me restou dar as costas e caminhar de volta pra casa, com uma parte de mim arrasada por ter sido rejeitado e a outra, feliz por estar livre.


Então eu aprendi que não adianta você percorrer uma longa distância para ir ao encontro de alguém, se o caminho te afasta de si mesmo. Confesso que sofri um bocado. Mas não tardou para que eu começasse a agradecer por todo aquele pesadelo ter chegado ao fim. Amém!

 


Felipe Attie