A SOGRA DO DIABO

A lembrança mais antiga que tenho da minha relação com Deus é a de minha mãe me obrigando a ir à igreja todos os domingos de manhã. “Você precisa ir à missa! Precisa se perdoar com Deus!”, dizia ela, como se eu fosse um dos romanos que pregara Jesus na cruz. “Mas o que eu fiz de tão grave? Tenho só 12 anos!”, eu berrava em defesa. “Não adianta, você vai pra Igreja! Você tem que ter bons costumes!”, decretava mamãe, com seu tradicional cigarro filtro amarelo pendurado no canto da boca. Sem escolha, eu pegava minha bíblia e me arrastava até a Igreja, desgraçando minha mãe, Deus e todo o universo celestial por me fazerem perder mais uma bela manhã de domingo. Esse ritual se repetiu religiosamente durante uns dois anos, até eu completar o curso de Primeira Comunhão e jurar pra mim mesmo que jamais voltaria a pisar dentro de uma igreja.


Anos mais tarde, eu comecei a namorar uma garota evangélica de seios fartos e tão logo completamos uma semana de namoro, minha falta de fé se mostrou ser um grande obstáculo no nosso relacionamento. Sua família, composta toda por evangélicos, por incrível que pareça, demonstrava certo apreço por mim. O problema se concentrou todo na minha sogra, uma mulher amarga e religiosamente fanática, que nutria um ciúme doentio pela filha e vivia descarregando suas frustrações — que eram muitas — nas costas do diabo. “A culpa é do inimigo chifrudo!”, dizia ela, sempre que algo em sua vidinha dava errado. “Esse namoro nunca vai dar certo!” sentenciava, referindo-se ao fato de eu não ser evangélico.


Descobri que muito da sua amargura teve origem na perda do marido, vítima de câncer cerebral. Isso fez com que ela depositasse todo seu amor na filha. “Mas eu não tenho porra nenhuma a ver com isso!”, era o que eu repetia a mim mesmo, sempre que ouvia uma voz na minha consciência me pedindo para ser tolerante com aquela praga de mulher. Mas como o meu principal objetivo era ter paz no meu relacionamento, não tardou para que eu me transformasse numa espécie de capataz, calculando cada ação e emoção de maneira a agradar minha sogra.


Comecei a acompanhar minha namorada aos cultos; troquei o jeans rasgado e a camiseta surrada pela calça social e o blusão abotoado até a glote; substitui a leitura visceral de Hunter S. Thompson e Charles Bukowski pelos ensinamentos bíblicos; e passei a responder “tudo na paz do senhor” sempre que alguém me perguntava como estavam indo as coisas. Hoje, parece loucura, mas naquela época, se fosse preciso, eu me candidataria para o posto de Jesus Cristo do século 21 só para àquela mulher me aceitar como genro. Até a questão do sexo após o casamento eu havia resolvido com punhetinhas três vezes por semana — um pecado pequeno, que depois eu acertaria a sós com Deus. Tais mudanças me fizeram viver um curto período de trégua com minha sogra, até que fomos convidados para um retiro religioso organizado pelo seu primo — um sujeito que eu sempre desconfiei ter a sexualidade abalada —, e então tudo voltou a ruir.


“Vai ser glorioso!”, disse Ricardo, com seus trejeitos afeminados. “Com certeza Deus vai ungir o namoro de vocês!”


Olhei desconfiado para minha namorada e tudo que vi foi ela abraçada com minha sogra, ambas com sorriso no rosto esperando pela minha resposta.


“Er... Vamos, sim. Tenho certeza de que será arrebatador!”, concordei. E nesse momento, eu apertei de vez a corda que estava no meu pescoço.


Encontro com Deus era o nome que eles davam à programação que consistia em passar todo um final de semana enfurnado num sítio jejuando e orando.


“Jejuar é a melhor maneira de se aproximar de Deus!”, disse Ricardo, quando o questionei sobre a tortura a que seríamos submetidos.


“Mas eu sou diabético! Tomo insulina! Não posso ficar mais do que três horas sem comer!”, retruquei, lembrando das orientações médicas.


“Acredite, nada de ruim vai acontecer com você enquanto estiver na presença de Deus!”, afirmou ele.


Pra quem não sabe, tomar insulina e jejuar são duas coisas que só combinam com a morte. E eu não faria isso, a não ser que eu quisesse entrar em coma hipoglicêmico em pleno altar e mostrar praquele monte de filhos da puta que a medicina convencional ainda é a maneira mais segura de se manter um diabético vivo.


Passei todo o fim de semana com um único pedaço de pão e uma maçã no estômago, comidos na sexta-feira à noite durante a famosa Ceia com Cristo — momento em que todos nós sentamos em círculos e simulamos a Santa Ceia num panorama mais atual, com refrigerante de uva no lugar do vinho, acompanhado de cachorro quente e frutas. Não tomei insulina e escondi um tablete de chocolate para o caso de emergência. No decorrer dos dias, fomos submetidos a longas maratonas de oração que iam das seis da manhã às dez da noite. Era época de carnaval, e tudo que vagava na minha cabeça era a imagem do meu irmão, meu primo e meus amigos se divertindo na piscina com churrasco, cerveja e mulheres.


No domingo, já de volta à igreja, eu verifiquei minha glicose e, como era de se esperar, estava baixíssima. Eu estava gelado e roxo de fome.


“Viu só? Isso é a unção de Deus agindo na sua vida!”, disse o pastor sorridente ao ser informado da minha hipoglicemia.


O culto começou e eu fui chamado ao altar para dar meu testemunho a respeito do suposto milagre que havia se operado em mim. Então eu pude ver de perto como funciona todo o inescrupuloso esquema de alienação sagrada que os líderes religiosos submetem seus ignorantes fiéis.


“Esse jovem, aqui presente, foi curado da diabetes durante o nosso Encontro com Deus!”, gritou o Pastor, apontando para mim.


“Glória Deus! Aleluia!”, berravam os fiéis em resposta.


“De hoje em diante, ele não precisará mais dos seus remédios para viver! Deus lhe proveu a cura, livrando-o das garras do demônio!”


“Aleluia, Senhor! Salve! Salve!”


Enquanto isso, eu me culpava e me xingava mentalmente, por reconhecer que todo aquele pesadelo teve origem no meu esforço desesperado de ser aceito pela minha sogra. A sogra do Diabo, conclui, abrindo a barra de chocolate que eu havia guardado no bolso para o caso de uma emergência.


“Olha mãe, ele tá até comendo chocolate!”, disse uma mulher apontando para mim, enquanto cutucava uma velha pelancuda. “Eu falo pra senhora entregar sua saúde nas mãos de Deus e abandonar aquele monte de remédios!”


De volta para casa, enquanto eu e minha namorada estávamos desfazendo as malas, minha sogra apareceu na porta do quarto dizendo que eu deveria agradecer pela benção e que deveríamos começar a frequentar a igreja de seu primo, o lugar onde o milagre foi operado. Na verdade, eu sabia que aquilo não passava de mais um truque sujo para me distanciar de sua amada filhinha. Uma vez que, na igreja de Ricardo, todos os jovens namorados eram obrigados a manter um tipo de relação que eles chamavam de Namoro em Corte, onde nenhum contato físico era permitido até o dia do casamento. Isso mesmo, nenhum!


“Querem saber de uma coisa...”, comecei. “A verdade é que não aconteceu porra de milagre nenhum!”


Minha sogra e minha namorada olharam assustadas para mim. “Seu ingrato!”, esbravejou minha sogra. “Deus vai te castigar!”


“Isso mesmo! Tudo não passou da criação daquele pastor maluco!”


“Tá vendo só, minha filha? Ele não te merece! Esse garoto é um mundano!”


“Qualquer diabético que tomar insulina e jejuar vai conseguir um milagre desses! Vai conseguir morrer, também!” esbravejei, enfiando dois bombons na boca!


“O que você tá fazendo, seu maluco?”, perguntou minha namorada apreensiva.


Maúco?! Ôçê ai ver o Maúco!”, disse, deixando pingar um filete de baba achocolatada no carpete.


“Minha filha, ele tá desafiando Deus?!”


Engoli aquele amontoado de chocolate e aguardei alguns minutos. Foram momentos de tensão. Era óbvio que, caso elas estivessem certas, o privilegiado seria eu. Afinal, quem quer passar o resto da vida sendo picado por agulhas de insulina? Mas, naquele momento, meu ódio era tanto, que eu torci para que meu pâncreas preguiçoso continuasse cochilando e me permitisse desmascarar toda aquela farsa.


Verifiquei minha glicemia e lá estava o valor 325mg/dl estampado no visor do aparelho — muito acima da média estipulada pela medicina. “Acreditam em mim, agora?”, perguntei, abrindo um lindo sorriso sujo de chocolate.


Isso é castigo!”, berrou minha sogra. “Deus te castigou por desafiá-lo!


Enfiei o aparelho na mochila convicto de que nada me faria pôr os pés naquela igreja novamente.


Dois meses depois, eu estava vestindo um roupão de cetim dourado em plena praça pública numa cerimônia de batismo nas águas. “Sim, eu aceito Jesus como meu único salvador”, foi o que falei ao pastor, antes de ele me afogar na piscina armada no gramado e depositei naquele mergulho todas as esperanças de, um dia, desfrutar de um relacionamento normal ao lado da minha namorada.


Após quase três anos, eu já havia usado todos os recursos disponíveis para cessar a guerra entre eu e minha sogra e tinha minha consciência limpa de que, se aquele romance não fosse pra frente, não seria por minha culpa. Mas eu estava enganado...


Era numa tarde nublada, quando fui surpreendido pela minha namorada alegando não estar mais apaixonada por mim — entendo, é difícil manter a chama do amor acesa quando mal se pode dar um abraço apertado.


“Você é muito perfeitinho! Cansei! Onde está aquele garoto louco por quem me apaixonei?”, sussurrou ela, olhando-me como se não me conhecesse.


Ela estava certa. Eu mesmo não me reconhecia mais. Cheguei à conclusão de que eu havia vivido os últimos três anos, esforçando-me para ser o homem perfeito, não para a minha namorada, mas sim, para a minha sogra. Só me restou dar as costas e caminhar de volta pra casa, com uma parte de mim arrasada por ter sido rejeitado e a outra, feliz por estar livre.


Então eu aprendi que não adianta você percorrer uma longa distância para ir ao encontro de alguém, se o caminho te afasta de si mesmo. Confesso que sofri um bocado. Mas não tardou para que eu começasse a agradecer por todo aquele pesadelo ter chegado ao fim. Amém!

 


Felipe Attie