AS HISTÓRIAS DE MAMÃE ME DÃO RINITE

Minha mãe é daquelas pessoas que sempre que vão contar uma história, acrescentam uma carga dramática tão intensa à narrativa, que faz com que sua veracidade se perca em meio a todos os trejeitos e adjetivos exagerados. Para ter uma ideia, sempre que o assunto é filhos pequenos, bebês ou algo do tipo, ela conta que me esqueceu dentro de um supermercado quando eu tinha apenas dois meses de vida. De acordo com a sua história, minha foto só não foi parar atrás de uma caixa de leite, porque um funcionário correu comigo no colo por dois quarteirões, passando esbaforido por entre os carros, pulou algo parecido com uma cerca elétrica e me devolveu a salvo para ela. Ouvindo minha mãe contar é impossível não questionar se o cara realmente existiu e correu isso tudo, ou se ela não estava logo ali ao lado, na sessão dos tomates, quando se deu conta de que havia se esquecido de alguma coisa.


Outra história contada com emoções à flor da pele se passa no período em que meus pais eram noivos. Tudo aconteceu quando ela pegou a bicicleta do meu pai para ir à feira e foi rendida por um bandido que a mandou descer da bicicleta. Minha mãe, tentando bancar a justiceira, disse ao marginal que ele não iria levar “porra de bicicleta nenhuma”. O cara, nervoso como todo assaltante, disse que era melhor ela não dificultar as coisas e passar a “merda da bicicleta” o quanto antes. Minha mãe, pirracenta como uma mula, segurou firme no guidão e afirmou que ninguém roubaria a “bosta da bicicleta” do seu amado noivo. Ele sacou a arma. Ela disse “você vai ter que me matar!”. Ele, acuado pela atitude corajosa de mamãe, foi incapaz de apertar o gatilho. Ela tentou desarmá-lo e acabou levando uma coronhada. Ele montou na bicicleta e desapareceu estrada afora.


Apesar de eu sempre me perguntar se o assaltante realmente estava armado ou se essa bicicleta não era um cacho de bananas sendo disputado com algum freguês, essa é a história de mamãe que eu mais gosto de ouvir. Cada momento narrado por ela carrega um clima de tensão de fazer roer unhas. E eu acho que é justamente esse o seu objetivo. Para ela, as coisas se tornam mais interessantes quando maximizadas. O que é verdade, mas se usado com moderação. Caso contrário, corre-se o risco da sua história parecer tão verídica quanto às fábulas de coelhos e ovelhas falantes. Mas minha mãe parece desconhecer as leis do bom senso e sente-se ofendida se você insinuar não acreditar em uma de suas histórias. Já sabendo disso, sempre que sou seu ouvinte, eu me preparo para o momento em que tenho que virar a cara discretamente e abafar a risada com o dorso da mão. Em seguida, eu disfarço, finjo coçar o nariz e ponho a culpa na rinite.

Felipe Attie 

A VIDA É REPLETA DE POSSIBILIDADES

Eu nunca gostei de estudar. Sempre fui um aluno preguiçoso de postura irresponsável e notas medíocres. A vida acadêmica nunca fez o meu tipo e eu nunca tive problemas em assumir isso. Mas frequentemente, quando a minha situação financeira aperta e sou forçado a catar moedas para comprar cerveja, eu me pergunto se as coisas estariam melhores para o meu lado se eu tivesse levado os estudos mais a sério. Então eu reflito sobre o período que passei dentro da faculdade e, automaticamente, me lembro dela: Camila Verdana, a professora que me ensinou o significado da palavra paixão.


Conheci a professora Camila no terceiro período da faculdade de jornalismo e logo que a vi entrar na sala de aula, eu soube que iria casar com ela. Lógico que eu estava errado. Mas vontade não me faltou. Ela era tão... tão... tão... “Esquisita!”, disse uma amiga, certa vez, enquanto conversávamos a respeito. “Como pode, alguém sentir atração por Camila Verdana?” Pois é, eu sentia. E minha amiga não era a única que parecia não entender minha paixão. Eu mesmo nunca entendi.


Nada era capaz de frear minha admiração por Camila, nem o seu corpo magro e encurvado, nem seus cabelos alisados e ressecados, tão pouco sua voz levemente abalada pela rouquidão. De alguma maneira inexplicavelmente bizarra, ela fazia eu me sentir como um garotinho dos tempos de escola, nutrindo aquela utópica paixão pela professorinha tradicionalmente chamada de Tia. Lógico que, quando se está na faculdade, as chances de você ouvir alguém chamando a professora de Tia são tão remotas quanto às de você fumar um baseado com ela. Mas a vida tem o talento nato de nos surpreender...


Foi num dia após a aula, enquanto conversávamos sobre Hunter S. Thompson e sua obra embriagada de álcool e drogas, que ela me perguntou se eu fumava. Esse é o tipo de pergunta que não se espera ouvir de uma professora. Afinal, eu sabia muito bem sobre qual fumo ela estava se referindo. Minha resposta foi um tímido sim com a cabeça. Então como num passe de mágica, ela meteu a mão na bolsa e puxou um cigarro de maconha do tamanho de uma caneta.


“Tá afim?”, perguntou sorrindo.


Eu só posso estar sonhando, foi o que pensei, ao me ver dentro do carro da Tia Camila, fumando um caprichado cigarrinho do capeta ao seu lado.


O papo havia começado com alguma coisa relacionada a Jornalismo Literário — disciplina que ela lecionava — e, aos poucos, foi tomando outro rumo, indo parar num terreno um pouco mais delicado...


“Tudo pode acontecer”, ela me disse, soltando fumaça. “A vida é repleta de possibilidades. E é isso que a torna maravilhosa, não é mesmo?”


“Verdade”, concordei, suspirando. Ela é linda, era só o que eu pensava, enquanto olhava para seu rosto.


“Você acha que eu nunca notei?”, ela me perguntou, olhando fixamente nos olhos.


“Notou o quê?”


“O jeito como você me olha durante as aulas?”


“Como?”


“Isso mesmo que você ouviu. Achou que eu não fosse perceber?”


“Como assim? Do que você tá falando?”


“Do jeito que você me olha. Exatamente como está me olhando agora.”


Er... Ok! Essa é uma boa maneira de fazer um aluno confessar algo: drogando-o. Mas, o que viria a seguir? Será que existe alguma punição para alunos que são apaixonados por suas professoras?


“Acho que um pedido de desculpa não se encaixa nessa situação”, resmunguei envergonhado e puxei o máximo de fumaça possível, forçando um desmaio que me livrasse daquela condição.


“Eu gosto.”


“COF! COF! URGH! COF! ROOUF! COF! COF! COF! Como?”


“Isso mesmo. Eu gosto. Toda mulher gosta de se sentir desejada.” E nesse instante, ela se aproximou de mim afagando meus cabelos ensebados e me beijou.


Foi fácil, pensei. Muito fácil. Tal facilidade me fez questionar se, durante todo o semestre, eu havia tido aula com uma ninfomaníaca, maconheira, viciada em traçar alunos babacas como eu — o que, durante curtos instantes, quebrou parte do encanto que eu nutria por ela, uma vez que sou o tipo de pessoa que valoriza mais a batalha do que a conquista. Mas, OK, OK... Eu estava dentro de um carrão, fumando um ótimo baseado e beijando a minha professorinha... Que direito eu tinha de reclamar, não é mesmo? Não transamos. Mas pelo seu beijo, eu pude ter uma leve noção de como deveria ser seu boquete.


Na semana seguinte, ela foi morar na Inglaterra com o noivo. Nunca mais nos falamos. Tentei me corresponder via e-mail, mas não tive retorno — não deve ser legal manter contato com um passado errôneo, uma vez que se está em outro país, vivendo outra vida.


Agora, ela deve estar casada e não gosto de ter esses pensamentos. Pois eles sempre vêm acompanhados da imagem dela descabelada, apoiada no fogão, com significantes quilos a mais e gritando com duas crianças irritantes que não param de correr pela casa. Enquanto isso, eu continuo com a minha vida. Fui demitido de mais um emprego. Comecei a escrever um livro. Talvez, ela se torne uma das minhas personagens. Talvez, eu publique. Talvez, ela leia. Ou talvez, nada disso aconteça e eu continue aqui, catando moedas para comprar cerveja. Quem pode garantir? Afinal, a vida é repleta de possibilidades. E é isso que a torna maravilhosa, não é mesmo?


Felipe Attie

UM CÃO, UMA FOLHA, UM VENTO

O dia amanhecera exatamente como eu gostava, exatamente como uma manhã de outono. Dentro de casa, a única coisa que eu ouvia era o barulho da brisa que passava ao meu lado, deixando claro que eu era o único acordado. É um bom momento para escrever, pensei, lembrando-me de que era isso que fiquei de fazer, quando ouvi a voz rouca e desleixada do meu chefe dizendo “não precisamos mais de você”. Pelo menos eu teria tempo para me concentrar na escrita e me redescobrir. Naquele momento, a única certeza que eu tinha era a de que, dali em diante, eu não queria fazer nada parecido com o que eu tinha feito até ali.


Lutei contra a preguiça promovida pelo frio, me levantei da cama embrulhado no edredom e andei até minha mesa de trabalho. Minha luminária, presente de um ex-amor, minha caneca, presente de mamãe e meu laptop, fruto de alguns meses de trabalho bastardo. É bom olhar ao redor e ver que está tudo em ordem.


Fui até a cozinha. Voltei com a caneca cheia de café. Liguei o computador. Começou a cair uma chuva fina. Maravilhoso, pensei. Tempos chuvosos sempre me inspiraram. Encarei por alguns instantes a tela vazia do computador. Nada de ideias. Em outros tempos, eu teria pegado um copo e virado goela abaixo. Encher a cara sempre me inspirou. Mas não era um bom momento para pôr tudo a perder. Eu estava indo bem com todo aquele papo de reabilitação e blá blá blá...


Tentei recordar de coisas que haviam acontecido comigo nos últimos tempos. Momentos encantadores, pessoas interessantes, lugares fotográficos, imagens, cenas marcantes de um filme que vivi e que mereceria ser registrado. NADA! Nada parecia ser motivo de palavras. NADA!


Levantei da cadeira e subi no telhado, exatamente como eu costumava fazer quando a professora me obrigava a escrever uma redação para a próxima aula. Tudo que eu vi foi um mundo preguiçoso resumido na rua onde eu morava, na rua onde cresci. Um cão latia para uma folha seca que dançava junto ao vento. São os únicos acordados, pensei. O único sinal de vida: um cão, uma folha e o vento. O vento soprou, fazendo a folha se juntar a todas as demais. O cão continuou a latir, na esperança de reencontrá-la, de fazê-la voltar a dançar, na esperança de resgatar tudo o que ele tinha naquele momento. Latiu em vão. Ele a perdeu. A chuva apertou. O cão parou de latir e olhou em minha direção. O único sinal de vida, ele deve ter pensado. O vento frio, umedecido pela chuva, começou a invadir as frestas do edredom causando desconforto. Olhei a cena uma última vez, antes de me despedir e descer do telhado.


Mais café. Sentei frente ao computador e escrevi. Escrevi sobre coisas desconexas de narrativa lenta e arrastada. Coisas pequenas de importância limitada, mas que, naquele momento, representavam tudo o que eu tinha. Terminei. Levantei. Voltei pra cama. Voltei para o meu mundo. Votei pra preguiça.


Felipe Attie