O COLECIONADOR DE MALES

Desde criança, eu tenho o hábito de inspecionar compulsivamente o meu corpo, centímetro por centímetro, à procura de algo que possa estar errado. Cada pinta encontrada, por exemplo, aumenta drasticamente as chances de câncer de pele — o que sempre foi um grande problema, considerando o fato de eu ser coberto por sardas. Certa vez, encontrei minúsculas saliências no dorso das minhas mãos e me aterrorizei com a ideia de elas se multiplicarem de maneira a tapar meus poros, impossibilitando-me de transpirar e, por fim, matando-me por retenção de líquidos. Mais tarde, descobri que isso é dermatologicamente chamado de verrugas planas, algo inofensivo e facilmente tratável. Outro exemplo da minha loucura veio acompanhado de contínuas dores de cabeça que me convenceram de que um tumor tomara conta do meu cérebro. Só voltei a dormir tranquilo quando descobri que tais dores atendem pelo nome de sinusite.


Após descobrir ser portador de diabetes minha neurose aumentou assustadoramente e hoje, qualquer problema de saúde que me acomete me faz temer ter um dedo amputado. Perco noites de sono preocupado com a minha saúde, pesquisando na internet soluções de males que sequer possuo na esperança de encontrar curas que não preciso.


“Mas você só está gripado!”, afirma minha mãe, impaciente.


“Mas mãe, e se o médico estiver errado?! Esqueceu que sou diabético?”, questiono, na tentativa de justificar minha neurose.


Louco! É isso que você é! Louco!”


Assim que entrei para o time dos Diets & Lights me tornei PhD em endocrinologia e sou capaz de identificar um diabético pelo olhar. A cada consulta de rotina, eu mergulho em um universo paralelo habitado por hipoglicemias, hiperglicemias, convulsões, tipos de insulina e aspartame. Minha médica já se prepara psicologicamente para me atender desenhando uma caveira em sua agenda nos dias referentes às minhas consultas.


***


“Perfeito! Não tem nada de errado com você!”, decretou a doutora sorridente, após ver meus exames.


“Como assim?! Impossível!”, perguntei incrédulo.


“Isso mesmo”, afirmou. “Sua saúde está perfeita!”


“Mas, doutora, e esse mal-estar que venho sentindo?”


“Isso é cansaço!”, sentenciou ela. “Já disse que você precisa dormir!”


Cansaço?


“Exatamente. Can-sa-ço! Falta de sono... horários desregulados. Tente descansar.”


“Sendo assim, será que a senhora poderia me receitar uns sedativos?”


“Não, eu não posso.”


“Não pode?! Eu achei que você fosse médica!”


E mais uma vez, ela perdeu boa parte do dia recapitulando todo o conteúdo aprendido na faculdade na ingênua tentativa de frear minha obsessão. Esforço em vão. A situação só foi amenizada, após ela me receitar um chá de camomila e me encaminhar uma bateria de exames neurológicos que devem me manter distraído até eu ser contagiado por mais um vírus que nunca existiu.


Felipe Attie