O TANQUE PERNETA

Eu era uma criança perversa. Sempre estimulava a maldade entre meus amigos e executava todas as atitudes reprováveis ao olhar de um adulto. Incentivado por um eficaz espírito de porco, eu era capaz de transformar qualquer ocasião num campo de batalha — desde uma inocente brincadeira de pique-esconde até uma simples festa de aniversário. Quando o assunto era “quem começou a confusão?”, meu nome era o primeiro a ser citado. Eu me divertia semeando a discórdia e o choro dos meus amigos soava como música aos meus ouvidos. Ninguém estava imune à minha maldade. Esses e outros motivos me fizeram viver boa parte da infância acreditando ser a encarnação do anticristo. Uma das lembranças mais fortes que tenho dessa época vem de uma tarde nublada de outono em que eu e meus amigos brincávamos no quintal...


Eu e Pedrinho estávamos nos divertindo com nossas tropas de soldadinhos do Comandos em Ação, enquanto Juninho — meu primo — e Duda corriam feito loucos ao redor dos nossos brinquedos. Pedrinho, que sempre fora cauteloso, pedia para que eles parassem com aquela correria evitando assim, que algum recruta ou sargento recebesse uma pisada mortal. Mas Juninho e Duda ignoraram os alertas de Pedrinho e continuaram correndo ao redor dos brinquedos numa distância de causar calafrios. Até que, para minha felicidade, o pior aconteceu...


Enquanto eu realizava um ataque surpresa à base de Pedrinho, Duda pulou da escada ao nosso lado e acertou, com seu pé sujo de lama, o Tanque Anfíbio que Pedrinho ganhara na véspera e que ainda preservava o cheiro de brinquedo novo recém-tirado da embalagem. Eu tive o privilégio de ver a cena toda acontecer em slow motion diante dos meus olhos. Pedrinho levou as mãos à cabeça em desespero. Os olhos de Duda se esbugalharam de espanto. Juninho, como sempre, preferiu anular sua presença no ambiente quase alcançando a invisibilidade. Um clima tenso dominou o ambiente onde tudo que existia eram quatro amigos se divertindo.


“Moleque! Olha o que você fez?”, berrou Pedrinho parecendo não acreditar no que estava vendo.


Sem perder tempo, eu — o criador da inquisição infantil — apontei para Duda e, sabendo que entre nós ele era quem tinha o menor poder aquisitivo, gritei: “Faz ele comprar outro, Pedro! Faz ele pagar! Faz ele pagar!”


“Eu não tenho dinheiro, Pedro! Eu sou pobre! Por favor, me perdoa!” suplicava Duda.


“Moleque! Olha o que você fez?”, repetia Pedrinho, inconformado.


“Desculpa Pedro! Eu sou pobre! Desculpa!”, repetia Duda, deixando escapar as primeiras lágrimas.


Eu estava tomado por forças demoníacas e tentava de todas as maneiras alimentar o sentimento pesado e cruel que nascia no coração de Pedrinho. “Você pediu pra ele parar de correr, Pedro! Você pediu e ele não obedeceu! Faz ele pagar! Faz ele pagar!”


“Mas eu sou pobre! Eu sou pobre!”


“Além de pobre é um idiota!”


Era prazeroso presenciar o desespero dominar meu amigo. Se a mesma situação tivesse se passado séculos atrás, eu estaria gritando “Fogueira! Fogueira! Fogueira!”.


Mas, para minha decepção, tudo que Pedrinho fez foi informar o caso à sua mãe, que resolveu o problema dizendo meia dúzia de clichês do tipo “perdoar um erro é uma atitude divina” e “uma amizade vale mais que milhares de Tanques Anfíbios”. Tais palavras surtiram efeito até em mim que, ao término do discurso maternal, estava arrependido e envergonhado pelo meu comportamento sádico e impiedoso.


Então eu me desculpei com Duda. Duda me perdoou. Duda se desculpou com Pedrinho. Pedrinho o perdoou. Juninho manteve sua postura insignificante e eu nunca o perdoei por isso. Enfim, tudo foi resolvido, como sempre acontece na infância. Bem, quase tudo. Pois, nas batalhas seguintes, as tropas de Pedrinho sofreram grande desvantagem por possuírem um tanque de guerra perneta.


Felipe Attie