16 BITS

Sou da época dos videogames de 16 Bits. No meu tempo de moleque, os jogos eram, em sua maioria, compostos de um personagem andando na horizontal pulando em plataformas flutuantes e esmagando vilões com pisadas na cabeça. Até tinha uns jogos de tiro aqui, outros de luta ali, uns de corrida lá, mas a maioria era no velho esquema horizontal, batizado de jogos de plataforma. Era bem diferente dos jogos de hoje em dia, que são tão reais que falta pouco para nos ferirmos de verdade enquanto jogamos.


Se me perguntarem quais os nomes completos dos meus avós ou os nomes de todos os meus tios, eu entro num troca-troca sem fim, batizando avó com nome de primo e tio com nome de sogra. Mas sou capaz de numerar em ordem cronológica e sem gaguejar, todos os videogames que tive e seus respectivos jogos.


Tudo começou com o bom e velho Atari, que meu pai comprou quando eu ainda estava rabiscando as paredes do útero da minha mãe. Aprendi rápido que se você pegasse seu joystick e apertasse o botão vermelho ou mexesse naquela manete anatomicamente pornográfica alguma coisa de legal acontecia na tela da TV. Os jogos que me recordo são os clássicos Pacman, Enduro, Pitfall, River Raid e Hallowen — onde você controlava uma garotinha que devia salvar o irmãozinho imbecil que sempre era decapitado pelo vilão. Minha mãe era viciada num joguinho idiota de um esquimó que pulava sobre cubos de gelo que passavam cada vez mais rápido pela tela. Quando ela sentava para jogar aquela merda, sabíamos que não teríamos jantar.


Em seguida veio o Turbo Game. Um dos principais motivos que fez meu pai comprá-lo foi o fato de ele possuir a tecnologia Dual Slot — que aceitava tanto os cartuchos americanos, quanto os japoneses — e vir acompanhado de um único cartucho com 42 jogos. “Nada de comprar jogos pelos próximos anos”, disse ele, ao me entregar o embrulho de presente.


O próximo da lista foi o Master System, que vinha com a famosa pistola Light Phaser e o inovador óculos 3D. A lembrança mais forte que tenho dessa época são as madrugadas que passei jogando Alex Kidd in Miracle World — até hoje, a sua musiquinha vaga pela minha cabeça como um mantra maldito.


Isso tudo aconteceu até os meus 12 anos de idade. Até então, eu era uma criança normal, que preferia se divertir quebrando as janelas dos vizinhos e envenenando seus animais de estimação. Mas essa situação estava prestes a mudar...


***


Quando cheguei da escola naquele dia, tudo que lembro foi de ver meu pai em pé, de frente para TV e com o joystick nas mãos. Meu cérebro automaticamente entrou em pane e não consegui fazer mais nada, além de gritar “é um Mega Drive, porra!”. Isso foi por volta das 18h, o jogo era Street of Rage e quando o relógio marcou 1h da madrugada, eu ainda estava com o uniforme da escola revezando com meu pai o único joystick que veio incluso, seguindo fielmente o esquema cada um joga uma vida.


“Vocês não vão jantar?”, perguntou minha mãe segurando dois pratos de comida já em estado de bolor.


“Sai da frente da TV!” foi só o que conseguimos dizer.


A partir desse dia, a beleza da minha vida foi restringida aos revolucionários gráficos de 16 BITS. Eu passei a funcionar à base de cartucho. Toda data comemorativa significava um jogo a mais à minha coleção. O Sonic entrou para a minha família, com sua imagem já decalcada no tubo de imagem da televisão. As digitais dos meus polegares já haviam desaparecido. Lembro-me de um fim de ano em que implorei para a minha professora, Tia Iná — que mais tarde foi demitida por alcoolismo —, não me deixar de recuperação só para eu ganhar o jogo Sonic The Hedgehog 2, que meu pai me prometera caso eu fosse aprovado sem dificuldades. A essa altura, minha mãe já não sabia o que fazer para me tirar de frente da TV, onde eu já criara raiz.


Meu grupo de amigos foi restringido a quem possuía Mega Drive e meus inimigos eram todos aqueles que jogavam o concorrente Super Nintendo. Sonic VS Mário foi a batalha que marcou minha pré-adolescência, e um usuário Nintendo falar mal da fabricante Sega era pior do que xingar minha mãe. Eu defendia até a morte o veloz ouriço azul, enquanto meus rivais exaltavam um simples bombeiro hidráulico.


Sempre achei interessante, a história de um ouriço azul campeão dos 100 metros rasos, colecionador de esmeraldas, que sai por aí salvando a fauna e a flora de uma ilha flutuante. O mesmo não posso dizer dos dois bombeiros gays, que lutam contra uma tartaruga sadomasoquista na tentativa de salvar uma princesa que tem um caso com um cogumelo falante.


Enfim, os nintendomaníacos que me desculpem, mas é preciso reconhecer que o Super Nintendo sempre esteve às sombras do Mega Drive. Desde os jogos de gráficos opacos e de péssima jogabilidade, até o design do joystick, que entrou para o hall dos piores da história dos games. Afinal, onde já se viu viver num mundo sem diagonal?




Felipe Attie

NHAC!

Toda sala de aula tem um chacota, alguém que existe apenas para servir como alvo de brincadeiras e piadas de mau gosto. Durante o meu 2º grau, Rafael Barra era quem desempenhava com êxito essa amarga função. O sarcasmo e a humilhação faziam parte da sua rotina e nem mesmo os professores pareciam se importar com a sua presença. Quando tirávamos notas baixas ou éramos rejeitados por garotas, pensávamos no Barra e um novo ponto de vista nos mostrava que, apesar de tudo, existiam coisas piores no mundo. Sua simples existência nos transmitia a certeza de que éramos melhores que alguma coisa. Alguma coisa chamada Rafael Barra. Assim, nós vivemos boa parte do 2º grau: felizes por termos entre nós, alguém que tornasse nossa realidade mais fácil e aceitável. Porém, num fatídico dia, essa confortável situação foi abalada por um imprevisto surto de Rafael Barra, resultando em marcas, até hoje, perceptíveis em minha vida.


“Vou te meter a porrada depois da aula”, foi o que Barra me disse, após eu ter feito sua caricatura corpulenta e desengonçada dentro de uma vergonhosa sunga de sumô.


Ao tocarem meus tímpanos, tais palavras trouxeram todo o ódio e rancor acumulados dentro daquela horripilante criatura e eu pude perceber que aquilo não era um blefe. Então naquela drástica manhã de terça-feira nublada, eu me arrependi de não ter dado ouvidos à previsão do tempo e de ter ignorado os pedidos de mamãe me alertando para levar o guarda-chuva. Pelo menos, poderia usá-lo como arma para me defender.


Assim que o professor colocou o segundo pé fora da sala, o monstruoso corpo de Rafael se ergueu a minha frente e partiu em minha direção. A atmosfera não era nada boa pro meu lado e a expressão de espanto estampada na cara dos meus amigos tornava as coisas ainda piores. Enquanto ele se aproximava, eu vi minha vida passar diante dos olhos e, em meio ao clima de tensão, fui capaz de enxergar apenas duas alternativas: (1º) Tentar dialogar e convencê-lo de que não compensaria sujar suas mãos com sangue por uma simples caricatura — caso ele concordasse, eu até lhe venderia a arte por um precinho camarada. (2º) Retroceder milhões de anos evolutivos, entrar no espírito da violência e contribuir com a sua propagação distribuindo alguns inofensivos socos. Escolhi a segunda opção. Pelo menos, eu morreria honrado por ter defendido minha vida com bravura e talvez isso me garantisse um funeral memorável, com bandeira nacional cobrindo o caixão e todas as demais baboseiras.


Ao ver aquele urso se aproximando de mim, deixei o instinto de sobrevivência falar mais alto, entrelacei-o numa chave de braço e apliquei uma série magnífica de socos em sua cabeça. Enquanto golpeava, me vi numa arena romana com meus amigos urrando de excitação diante da cena. Empolgado, fechei os olhos, trinquei os dentes e golpeei, golpeei, golpeei e golpeei até minha mão começar a doer.


Naquele curto instante, eu não pensava em outra coisa senão no momento em que aquela horrenda criatura tombaria ensanguentada a minha frente, dando-me oportunidade de finalizá-la com um forte chute na nuca. Em seguida, diria à polícia que foi legítima defesa; seria convidado para inúmeras entrevistas nesses programas que mostram relatos de pessoas que sobreviveram a ataques de animais selvagens; escreveria um livro; venderia os direitos para uma produtora hollywoodiana; ficaria rico; compraria uma casa no alto de uma montanha e passaria o resto da vida criando ovelhas.


Faltavam apenas alguns golpes para derrubá-lo e eu apostava friamente nisso, não parando com os ataques sequer para respirar. Quando o caroço roxo na testa do meu adversário indicou que meu objetivo estava próximo de ser alcançado, fui surpreendido por uma forte fisgada na bochecha direita acompanhada de uma agoniante dormência. Soltei o monstrengo sem entender o que havia acontecido e levei as mãos ao rosto. Elas instantaneamente se sujaram de sangue e então eu percebi que Rafael havia me mordido.


Consumido pela ira, eu comecei a lançar carteiras escolares em direção ao meu adversário com a mesma facilidade de quem arremessa ovos na cabeça do amigo aniversariante. Enquanto isso, uma dúzia de garotos tentava evitar que eu matasse Rafael que se encontrava acuado num canto da sala. Tamanho alvoroço despertou a atenção do inspetor que intercedeu e nos levou à diretoria — eu com a mão na bochecha tentando conter o fluxo de sangue que insistia em espirrar e Rafael cambaleando pelos corredores à beira de um colapso nervoso. Partimos rumo ao hospital, onde ganhei um enorme curativo digno de quem acabara de ser atacado por um tigre de bengala, enquanto Barra fora presenteado com uma série de radiografias cranianas.


Após o ocorrido, a diretoria do colégio marcou uma reunião com os nossos responsáveis para tentar resolver o mal-entendido sem que o caso fosse levado ao tribunal. Foi quando tomamos conhecimento de que Rafael, além de possuir graves retardos mentais, vinha sofrendo de profunda depressão resultante não só das nossas piadinhas a seu respeito, mas também, por seu avô tê-lo obrigado a se desfazer dos bichos que criava com tanto afinco — algumas dúzias de patos, cutias e galinhas.


Minha mãe estava pouco se fudendo para aquilo tudo e só falava em processos jurídicos, ameaçando o colégio e o avô de Rafael caso não pagassem as cirurgias plásticas necessárias para consertar o estrago feito em meu rosto. A diretoria procurava desesperadamente uma maneira de contornar a situação sem envolver autoridades judiciais e cogitaram até mesmo expulsar Rafael do colégio. O avô de Rafael, um senhor de idade bem avançada, estava atônito, suava, tremia e fumava um cigarro atrás do outro.


Foi aí que eu surpreendi todos com uma manobra inesperada e decidi fazer um trato com o avô de Rafael. Chamei o velhote num canto e ditei minhas exigências. Ou ele cumpria com o que lhe propus e daríamos o assunto por encerrado ou eu contrataria um bom advogado e faria o cacete da justiça entrar no seu traseiro velho e ressecado. Era pegar ou largar.


Após me ouvir falar, o avô de Rafael ergueu com dificuldade seus frágeis bracinhos maltratados pela artrose e me deu um afetuoso abraço, carente de força, mas com forte cheiro de nicotina. Em seguida, com lágrimas nos olhos, disse que pessoas iguais a mim são como pedras preciosas nesse mundo de hoje — nenhuma mulher me dedicou palavras tão belas. Ele acendeu outro cigarro — pelas minhas contas, o sétimo em menos de quinze minutos — e me garantiu que cumpriria sua parte no combinado. O caso foi encerrado e entrou para a história do colégio. Virei lenda!


Volta e meia, sempre que o assunto vem à tona, minha mãe me pergunta o que eu combinei com o avô de Rafael. Eu sempre mudo de assunto fingindo não dar importância ou ter me esquecido do ocorrido. Mentira! Eu jamais poderia esquecer. Afinal, sempre que a lâmina de barbear abre um corte sobre a cicatriz deixada por aquela atitude canibalesca, eu me lembro do horripilante rosto de Rafael Barra e ouço o “nhac!” de sua mordida se propagando no pé do meu ouvido.


Felipe Attie


UM GAROTO EXEMPLAR

Essa história aconteceu há bastante tempo, numa época onde a luta contra o patriarcado ainda não estava na moda e a palavra “machismo” não era repetida compulsivamente. Ele era apenas um garoto que passava os dias trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas. “Um garoto estranho” era o que diziam.


Era sábado e fazia sol. Ele e seus amigos estavam reunidos na garagem de casa, bebendo cerveja e ouvindo música. Um bando de adolescentes, bebendo cerveja e conversando sobre coisas aleatórias.


“Vocês viram o clipe novo do Pearl Jam?”


“Não gosto deles. Prefiro Nirvana!”


“Nirvana acabou! Kurt já era!”


“Mesmo com uma bala calibre 12 na cabeça, ele consegue ser melhor do que esses caras!”


Um bando de adolescentes, bebendo cerveja e conversando sobre coisas aleatórias. Mas todo grupo de amigos tem um babaca que gosta de contar vantagem. Ali, naquela garagem, as coisas não eram diferentes. Rafael era o nome dele. Sempre que ele abria a boca, você tinha a certeza de que seus ouvidos seriam contemplados com alguma história extraordinária que se equilibrava de forma suspeita na linha tênue que divide a verdade da mentira. Por maior que fosse nosso esforço, na maioria das vezes, era difícil acreditar em Rafael.


“Ontem foi incrível!” começou ele, enquanto abria uma nova cerveja. “Eu e Ísis transamos a noite toda!”


Os olhares do resto do grupo se cruzavam num misto de deboche e desconfiança. “Lá vem Rafael outra vez...” é o que diziam em pensamento.


“Ela é muito safada, cara! Gostosa e safada! Até o cu ela me deu!”


“Sério?!” perguntou incrédulo um dos ouvintes.


“Fiz de tudo! Buceta, bunda, até na boca eu gozei!”


“Ela bebeu?” perguntou outro.


“Tudo! Ainda pediu mais! Muito puta, cara!”


Sentado na cadeira, diante de seu público juvenil, Rafael mais uma vez desfrutava da glória construída através de narrativas exageradas, esbravejadas entre goles de cerveja. Mas daquela vez seria diferente. Era preciso dar um basta nisso.


Essa história aconteceu há bastante tempo, numa época onde a luta contra o patriarcado ainda não estava na moda. Hoje é comum ouvirmos por aí, as pessoas falando que não devemos rir de piadas machistas, nem participar de rodinha de amigos difamando mulheres. Mas, naquela época, esses comportamentos não eram marginalizados e isso fazia com que ele se sentisse mais deslocado ainda. Ele não concordava com aquilo. Ele não queria perpetuar aquilo. Ele precisava dar um basta naquilo. Ele era apenas um garoto que passava os dias trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas.


A leitura ensinou muita coisa pra ele. Foi através da leitura que ele aprendeu que o hidróxido de sódio, também conhecido como soda cáustica, é uma das substâncias mais corrosivas que existem e que deve ser manipulada com cuidado, devido a sua capacidade de destruir os tecidos vivos e causar queimaduras graves.


“Preferi comer o cu. A buceta dela é muito larga. Arrombada!”


“Buceta de puta é assim mesmo!”


Foi através da leitura que ele aprendeu que, para dissolver a soda cáustica em água, o procedimento correto é adicionar a soda à água e nunca o contrário. Os gases que o produto libera durante a reação com a água não devem ser inalados, porque causam danos às mucosas bucais e nasais e principalmente aos alvéolos pulmonares.


“Eu quase gozei só de ver ela de quatro, com o rabo empinado, pedindo pra eu meter com força!”


“Me passa o contato dela. Deixa eu comer ela também!”


Foi trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas, que ele aprendeu que, para fazer a diluição, é necessário utilizar utensílios de plástico resistentes ao aquecimento. Por que, em contato com a água, a soda cáustica libera energia em forma de calor aquecendo a solução e elevando sua temperatura a cem graus Celsius.


“Vou passar contato nenhum! Deixa eu fuder ela mais um pouco, depois eu passo.”


“Ihhhhh! O cara ficou gamado!”


“Gamado porra nenhuma! Mas só vou deixar vocês comerem quando ela tiver toda estragada! Hahahahaha!”


Ele sabia que a ingestão de soda cáustica pode levar a óbito. Mas também sabia que, se diluída num copo de cerveja, por exemplo, numa proporção menor que 2,5%, pode causar apenas queimaduras superficiais nas mucosas da boca e do esôfago.


“Cara, ela chupa muito gostoso! Papo sério. Ela engoliu meu pau todo!”


“Mas isso é fácil, com essa merreca que você carrega entre as pernas!”


“Minha cerveja acabou! Pega outra lá.”


Daquela vez seria diferente. Era preciso dar um basta. Rafael precisava de uma lição. Tem gente que só aprende na dor.


Foi trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas, que ele aprendeu que, quando a soda cáustica é ingerida, os efeitos são instantâneos. Na hora, o indivíduo sente uma ardência, uma sensação de perfuração e dificuldade para engolir. Como a substância tem sabor ácido, o indivíduo é levado a cuspir automaticamente. Mas era tarde demais. O estrago já havia sido feito.


Enquanto presenciava Rafael se contorcer de dor, ele repassou na cabeça todas as vezes em que o presenciara difamando mulheres em troca de risadas e atenção. Ele se lembrou da Carol Ruela Frouxa, de Renata Galopada Feroz, de Janaína Boquinha Mágica e de Ingrid Tetinhas De Funil. Ele se lembrou de Valeska Putinha de Ouro e de todas as demais mulheres que protagonizaram suas histórias.


Enquanto presenciava Rafael tentando vomitar, ele lembrou que, em caso de ingestão, a pessoa não deve provocar vômitos para evitar que a substância passe mais uma vez pela mucosa e cause mais lesões.


Quando um dos garotos que estavam reunidos naquela garagem, bebendo cerveja e conversando sobre coisas aleatórias, entregou um copo d’água para Rafael, ele lembrou que, em caso de ingestão, a pessoa não deve beber água, pois isso aumenta a superfície de contato da soda cáustica com os tecidos. Ele sabia disso porque passava os dias trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas. “Um garoto estranho” era o que diziam.


Mas essa história aconteceu há bastante tempo, numa época onde a luta contra o patriarcado ainda não estava na moda e a palavra “machismo” não era repetida compulsivamente. Se tivesse acontecido hoje em dia, se tivesse parado na internet, as coisas seriam diferentes. “Um garoto exemplar” era o que diriam a seu respeito.


Felipe Attie

EU QUERIA SER O BATMAN

Nos tempos de colégio, sempre que a professora de ciências abarrotava a lousa com fórmulas incompreensíveis, ao invés de me concentrar no conteúdo que estava sendo ensinado, eu mergulhava na seguinte questão: “se eu pudesse ser um super-herói, qual escolheria?”. Eu passava a aula toda avaliando os prós e contras da enorme lista de poderes à minha disposição, tendo como parâmetro os personagens dos quadrinhos, as leis da física e as fórmulas químicas ensinadas durante a aula.


Imaginava-me num desses restaurantes self service, onde o cardápio constava de pílulas mágicas, velocidade supersônica, invisibilidade, força extrema e tantas outras habilidades. Se eu voasse, economizaria uma boa grana em passagens de avião. Por outro lado, com velocidade supersônica, eu faria história no atletismo e também economizaria no ônibus e metrô. Também conseguiria um bom dinheiro sendo invisível e encantando o mundo com meu misterioso truque de mágica batizado de teletransporte. E assim, eu passava horas em busca de habilidades que pudessem ser capitalizadas e gozadas a meu bel-prazer.


Nunca fui adepto da ideia de usar um collant ridículo, vestir a sunga por cima das calças e combater o crime. Sempre achei isso ridículo. Durante meus lapsos imaginários, no auge da minha ganância pré-adolescente, eu só queria saber de uma coisa: ficar rico! Não me preocupava com o aumento do índice de violência, desde que minha conta bancária aumentasse proporcionalmente. Meu interesse era totalmente financeiro. Sendo assim, após inúmeras aulas desperdiçadas com reflexões e notas baixas, conclui que não só corria o risco de ser reprovado como também, de que eu gostaria de ser o Batman, o playboy mais temido do planeta!


A gente tem que reconhecer que o cara é um filho da puta sortudo. Ok, ele perdeu os pais quando criança... Rolaram uns traumas e tal... Mas isso é algo que, cedo ou tarde, vai acontecer com todos nós. Você querendo ou não, seus pais vão morrer! A única diferença é que, se você tiver sorte, eles vão te deixar uma fortuna de herança junto a todo um complexo empresarial bastante influente na sua cidade natal — que por sinal tem um nome bem mais legal do que Rio de Janeiro ou Nova Iorque. Daí, você pega todos esses privilégios e regalias e faz o quê? Vira o Batman!


“Quer saber, eu vou torrar uns trocados, comprar uns equipamentos bacanas e combater o crime. Chega dessa vidinha de orgias e viagens ao redor do mundo! Alfred, eu quero um carro assim!”, diria, apontando para um desenho feito na época do colégio. Como uniforme, optaria pelo pretinho básico, acompanhado de um elegante cinto de utilidades com celular, iPad, GPS, wi-fi, mp3 e tudo mais que pudesse garantir minha diversão durante as noites de insônia.


Se eu fosse o Batman, eu teria tanto dinheiro, mas tanto dinheiro, que eu contrataria o Hulk pra ser meu guarda-costas e compraria o jornal Planeta Diário só para manipular os fatos a meu favor. Eu poderia ser patrão do famoso homem de aço! Imagine a cena: segunda-feira, o Super-Homem entra na minha sala dizendo, “desculpe o atraso, Senhor. Eu tive uma noite péssima. Enfim, é o Lex Luthor. O cara tá terrível. Prometo que não acontecerá de novo, Senhor”. Eu — ou seja, o Batman! —, com minha voz máscula de homem-morcego, diria “é bom mesmo que isso não se repita. Mais um atraso desse e você tá na rua!”. Talvez, eu comprasse também o Clarim Diário, só para ter o prazer de olhar as fotos tiradas pelo Peter Parker e gritar “Lixo, lixo, e lixo! Além do mais, Peter, eu sei muito bem quem é o Homem-Aranha, espertinho. Comigo, esse truque não cola. A partir de hoje, quero fotos da Mulher-Maravilha nua em seu avião invisível!”. E assim, eu levaria uma vida divertida e poderosa, visando meus interesses, satisfazendo minhas vontades e prendendo uns bandidinhos de vez em quando só pra manter a pose de herói.


O Batman, com certeza é o melhor entre todos os heróis. Pra que correr na velocidade da luz, se eu posso pegar meu jatinho particular e ir para onde quiser, desfrutando de mulheres e drinques à bordo? Pra que ter força extraordinária, se eu posso contratar centenas de capangas para dar fim em qualquer engraçadinho que se meta à besta comigo? Pra que ser invisível, se o meu dinheiro me põe em todos os lugares? Pra que ser imortal, se esse mundo vai acabar uma hora ou outra? Enfim, se eu fosse o Batman, poderia ter o que quisesse sacando o meu batcartão de créditos aceito em todos os lugares.


Felipe Attie

TUDO QUE CABE NO BOLSO NÃO TEM PREÇO

Era um dia como outro qualquer, quando entrei na livraria para matar o tempo e me deparei com o livro $29,99, do escritor Frederic Beigbeder.  Era o único exemplar à venda e, apesar de estar empoeirado e levemente danificado, eu me apaixonei pela sua capa (foda-se! Quem disse que não se julga um livro, também, pela capa?). Tomei um susto ao olhar o preço etiquetado, eu não tinha dinheiro para pagar sequer pela capa de que tanto havia gostado. Então não tive escolha, senão colocar em prática um dos lemas que criei para facilitar minha existência nesse mundo economicamente injusto: tudo que cabe no bolso não tem preço.


Óbvio que o livro não cabia no meu bolso, mas eu costumo adaptar meus lemas às condições do momento. Sendo assim, o próximo passo foi executar minha tática de furto que consiste basicamente em manter uma atitude espontânea. Eu sei, você deve estar se perguntando como é que alguém consegue roubar um livro de uma livraria de renome internacional sem ser notado. Mas acredite, a coisa é mais simples do que parece. Aqui vão algumas dicas:


1º Não procure pelas câmeras de segurança. Caso seja pego, você não terá como argumentar contra o vídeo que foi gravado de você olhando de maneira suspeita para as lentes das câmeras. Sendo assim, ignore-as.


2º Saiba qual livro irá roubar. Sempre é bom sair de casa com o livro em mente. Ladrão indeciso é ladrão algemado. Portanto, pegue o desejado e caia fora.


3º Não fuja dos seguranças. Não existe comportamento mais suspeito do que esse. Então, se possível, vá até um deles e pergunte algo, puxe assunto, isso é primordial na construção de uma postura espontânea. Lembre-se: quem não deve, não teme.


4º Tenha sempre um celular em mãos. Enquanto estiver saindo da livraria, finja que está atendendo a uma ligação importante e faça caras e bocas de preocupação. Assim, caso seu plano fracasse, você poderá argumentar em sua defesa o que as câmeras de segurança registraram: uma ligação importante roubou sua atenção fazendo-o, por distração, levar o livro sem pagar. Nada que um pedido de desculpas não resolva.


Essas são algumas regrinhas que aprendi sozinho, após tanto furtar livrarias e lojas de conveniência. Seguindo esse passo a passo, dificilmente você será capturado. Comporte-se como se o livro já fosse seu, como se você estivesse entrado com ele na livraria. Acredite nisso que dará certo. Sempre funciona!


Lembro que, durante minha infração, meu único obstáculo foi desviar a atenção de um desses leitores malditos que gostam de ficar sentados no chão das livrarias como se estivessem na sala de casa. Era um sujeito estranho, vestindo uma blusa estranha de listras tão finas que dava vertigem olhá-lo por mais de cinco segundos. Seu olhar não parava de me seguir e, com certeza, não seria uma boa ideia sair da livraria naquele momento. A maneira como ele me olhava era desconfortante. Franzi a testa forçando uma atitude arrogante que o levasse pra bem longe, mas não tive sucesso. A situação piorou quando ele se aproximou puxando conversa. Então eu não tive escolha senão simular um comportamento psicótico cheio de tremedeiras e tiques nervosos. Olhei para ele com os dentes trincados e um filete de saliva espumante escorrendo pelo canto da boca, assustando-o o suficiente para fazê-lo desistir de suas intenções. Enfim, saí da livraria com o livro embaixo do braço, fingindo falar ao celular.


Cheguei em casa e me deliciei com o bom texto de Frederic Beigbeder. Li o livro numa única noite, sem intervalo. Após terminá-lo, no momento em que fui guardá-lo na estante, olhei para o exemplar e sentenciei: eu sou um ladrão. Em meio ao emaranhado reflexivo que tal afirmação me lançou, fui tomado por um raro peso na consciência que me fez concluir que o correto a ser feito seria devolver o livro. Estou longe de ser um exemplar descente da raça humana, mas às vezes, eu sofro lapsos repentinos de honestidade que me fazem andar na linha. Como se não bastasse, o bom senso foi ainda mais fundo e me mostrou que eu não deveria simplesmente devolver o livro, mas sim, pagar por ele. Afinal, eu já tinha lido. Caso contrário, seria como devolver um chiclete mastigado.


No dia seguinte, voltei à livraria, fui até o caixa e paguei pelo livro que me foi devolvido junto a uma nota fiscal em uma sacola plástica com a logomarca da loja estampada. Encarei a notinha por alguns instantes, orgulhoso da minha atitude, e olhei sorridente para a funcionária do caixa que permaneceu sem entender nada me observando por cima dos seus grossos óculos aro de tartaruga. Em seguida, decidi dar uma volta pela livraria, só pra passar tempo e desfrutar um pouco mais do meu momento de glória. Enquanto desfilava por entre as prateleiras, eu olhava para as pessoas ao meu redor como se dissesse “Eu paguei por esse livro! Paguei! Ele é meu!”, um sentimento quase que inédito para mim.


Durante a minha volta olímpica, me deparei com um livro grosso, cuja capa trazia uma ilustração de um super-herói socando Hitler. Li seu título: As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay. Interessante, pensei. Encarei mais uma vez a sua linda capa, ilustrada no estilo da era de ouro dos quadrinhos. Olhei ao redor. Olhei para o livro. Olhei ao redor. Olhei para o livro. Tudo que cabe no bolso não tem preço... Então meu celular tocou e era uma ligação muito importante de alguém que nunca existiu.

 



Felipe Attie