16 BITS

Sou da época dos videogames de 16 Bits. No meu tempo de moleque, os jogos eram, em sua maioria, compostos de um personagem andando na horizontal pulando em plataformas flutuantes e esmagando vilões com pisadas na cabeça. Até tinha uns jogos de tiro aqui, outros de luta ali, uns de corrida lá, mas a maioria era no velho esquema horizontal, batizado de jogos de plataforma. Era bem diferente dos jogos de hoje em dia, que são tão reais que falta pouco para nos ferirmos de verdade enquanto jogamos.


Se me perguntarem quais os nomes completos dos meus avós ou os nomes de todos os meus tios, eu entro num troca-troca sem fim, batizando avó com nome de primo e tio com nome de sogra. Mas sou capaz de numerar em ordem cronológica e sem gaguejar, todos os videogames que tive e seus respectivos jogos.


Tudo começou com o bom e velho Atari, que meu pai comprou quando eu ainda estava rabiscando as paredes do útero da minha mãe. Aprendi rápido que se você pegasse seu joystick e apertasse o botão vermelho ou mexesse naquela manete anatomicamente pornográfica alguma coisa de legal acontecia na tela da TV. Os jogos que me recordo são os clássicos Pacman, Enduro, Pitfall, River Raid e Hallowen — onde você controlava uma garotinha que devia salvar o irmãozinho imbecil que sempre era decapitado pelo vilão. Minha mãe era viciada num joguinho idiota de um esquimó que pulava sobre cubos de gelo que passavam cada vez mais rápido pela tela. Quando ela sentava para jogar aquela merda, sabíamos que não teríamos jantar.


Em seguida veio o Turbo Game. Um dos principais motivos que fez meu pai comprá-lo foi o fato de ele possuir a tecnologia Dual Slot — que aceitava tanto os cartuchos americanos, quanto os japoneses — e vir acompanhado de um único cartucho com 42 jogos. “Nada de comprar jogos pelos próximos anos”, disse ele, ao me entregar o embrulho de presente.


O próximo da lista foi o Master System, que vinha com a famosa pistola Light Phaser e o inovador óculos 3D. A lembrança mais forte que tenho dessa época são as madrugadas que passei jogando Alex Kidd in Miracle World — até hoje, a sua musiquinha vaga pela minha cabeça como um mantra maldito.


Isso tudo aconteceu até os meus 12 anos de idade. Até então, eu era uma criança normal, que preferia se divertir quebrando as janelas dos vizinhos e envenenando seus animais de estimação. Mas essa situação estava prestes a mudar...


***


Quando cheguei da escola naquele dia, tudo que lembro foi de ver meu pai em pé, de frente para TV e com o joystick nas mãos. Meu cérebro automaticamente entrou em pane e não consegui fazer mais nada, além de gritar “é um Mega Drive, porra!”. Isso foi por volta das 18h, o jogo era Street of Rage e quando o relógio marcou 1h da madrugada, eu ainda estava com o uniforme da escola revezando com meu pai o único joystick que veio incluso, seguindo fielmente o esquema cada um joga uma vida.


“Vocês não vão jantar?”, perguntou minha mãe segurando dois pratos de comida já em estado de bolor.


“Sai da frente da TV!” foi só o que conseguimos dizer.


A partir desse dia, a beleza da minha vida foi restringida aos revolucionários gráficos de 16 BITS. Eu passei a funcionar à base de cartucho. Toda data comemorativa significava um jogo a mais à minha coleção. O Sonic entrou para a minha família, com sua imagem já decalcada no tubo de imagem da televisão. As digitais dos meus polegares já haviam desaparecido. Lembro-me de um fim de ano em que implorei para a minha professora, Tia Iná — que mais tarde foi demitida por alcoolismo —, não me deixar de recuperação só para eu ganhar o jogo Sonic The Hedgehog 2, que meu pai me prometera caso eu fosse aprovado sem dificuldades. A essa altura, minha mãe já não sabia o que fazer para me tirar de frente da TV, onde eu já criara raiz.


Meu grupo de amigos foi restringido a quem possuía Mega Drive e meus inimigos eram todos aqueles que jogavam o concorrente Super Nintendo. Sonic VS Mário foi a batalha que marcou minha pré-adolescência, e um usuário Nintendo falar mal da fabricante Sega era pior do que xingar minha mãe. Eu defendia até a morte o veloz ouriço azul, enquanto meus rivais exaltavam um simples bombeiro hidráulico.


Sempre achei interessante, a história de um ouriço azul campeão dos 100 metros rasos, colecionador de esmeraldas, que sai por aí salvando a fauna e a flora de uma ilha flutuante. O mesmo não posso dizer dos dois bombeiros gays, que lutam contra uma tartaruga sadomasoquista na tentativa de salvar uma princesa que tem um caso com um cogumelo falante.


Enfim, os nintendomaníacos que me desculpem, mas é preciso reconhecer que o Super Nintendo sempre esteve às sombras do Mega Drive. Desde os jogos de gráficos opacos e de péssima jogabilidade, até o design do joystick, que entrou para o hall dos piores da história dos games. Afinal, onde já se viu viver num mundo sem diagonal?




Felipe Attie