NHAC!

Toda sala de aula tem um chacota, alguém que existe apenas para servir como alvo de brincadeiras e piadas de mau gosto. Durante o meu 2º grau, Rafael Barra era quem desempenhava com êxito essa amarga função. O sarcasmo e a humilhação faziam parte da sua rotina e nem mesmo os professores pareciam se importar com a sua presença. Quando tirávamos notas baixas ou éramos rejeitados por garotas, pensávamos no Barra e um novo ponto de vista nos mostrava que, apesar de tudo, existiam coisas piores no mundo. Sua simples existência nos transmitia a certeza de que éramos melhores que alguma coisa. Alguma coisa chamada Rafael Barra. Assim, nós vivemos boa parte do 2º grau: felizes por termos entre nós, alguém que tornasse nossa realidade mais fácil e aceitável. Porém, num fatídico dia, essa confortável situação foi abalada por um imprevisto surto de Rafael Barra, resultando em marcas, até hoje, perceptíveis em minha vida.


“Vou te meter a porrada depois da aula”, foi o que Barra me disse, após eu ter feito sua caricatura corpulenta e desengonçada dentro de uma vergonhosa sunga de sumô.


Ao tocarem meus tímpanos, tais palavras trouxeram todo o ódio e rancor acumulados dentro daquela horripilante criatura e eu pude perceber que aquilo não era um blefe. Então naquela drástica manhã de terça-feira nublada, eu me arrependi de não ter dado ouvidos à previsão do tempo e de ter ignorado os pedidos de mamãe me alertando para levar o guarda-chuva. Pelo menos, poderia usá-lo como arma para me defender.


Assim que o professor colocou o segundo pé fora da sala, o monstruoso corpo de Rafael se ergueu a minha frente e partiu em minha direção. A atmosfera não era nada boa pro meu lado e a expressão de espanto estampada na cara dos meus amigos tornava as coisas ainda piores. Enquanto ele se aproximava, eu vi minha vida passar diante dos olhos e, em meio ao clima de tensão, fui capaz de enxergar apenas duas alternativas: (1º) Tentar dialogar e convencê-lo de que não compensaria sujar suas mãos com sangue por uma simples caricatura — caso ele concordasse, eu até lhe venderia a arte por um precinho camarada. (2º) Retroceder milhões de anos evolutivos, entrar no espírito da violência e contribuir com a sua propagação distribuindo alguns inofensivos socos. Escolhi a segunda opção. Pelo menos, eu morreria honrado por ter defendido minha vida com bravura e talvez isso me garantisse um funeral memorável, com bandeira nacional cobrindo o caixão e todas as demais baboseiras.


Ao ver aquele urso se aproximando de mim, deixei o instinto de sobrevivência falar mais alto, entrelacei-o numa chave de braço e apliquei uma série magnífica de socos em sua cabeça. Enquanto golpeava, me vi numa arena romana com meus amigos urrando de excitação diante da cena. Empolgado, fechei os olhos, trinquei os dentes e golpeei, golpeei, golpeei e golpeei até minha mão começar a doer.


Naquele curto instante, eu não pensava em outra coisa senão no momento em que aquela horrenda criatura tombaria ensanguentada a minha frente, dando-me oportunidade de finalizá-la com um forte chute na nuca. Em seguida, diria à polícia que foi legítima defesa; seria convidado para inúmeras entrevistas nesses programas que mostram relatos de pessoas que sobreviveram a ataques de animais selvagens; escreveria um livro; venderia os direitos para uma produtora hollywoodiana; ficaria rico; compraria uma casa no alto de uma montanha e passaria o resto da vida criando ovelhas.


Faltavam apenas alguns golpes para derrubá-lo e eu apostava friamente nisso, não parando com os ataques sequer para respirar. Quando o caroço roxo na testa do meu adversário indicou que meu objetivo estava próximo de ser alcançado, fui surpreendido por uma forte fisgada na bochecha direita acompanhada de uma agoniante dormência. Soltei o monstrengo sem entender o que havia acontecido e levei as mãos ao rosto. Elas instantaneamente se sujaram de sangue e então eu percebi que Rafael havia me mordido.


Consumido pela ira, eu comecei a lançar carteiras escolares em direção ao meu adversário com a mesma facilidade de quem arremessa ovos na cabeça do amigo aniversariante. Enquanto isso, uma dúzia de garotos tentava evitar que eu matasse Rafael que se encontrava acuado num canto da sala. Tamanho alvoroço despertou a atenção do inspetor que intercedeu e nos levou à diretoria — eu com a mão na bochecha tentando conter o fluxo de sangue que insistia em espirrar e Rafael cambaleando pelos corredores à beira de um colapso nervoso. Partimos rumo ao hospital, onde ganhei um enorme curativo digno de quem acabara de ser atacado por um tigre de bengala, enquanto Barra fora presenteado com uma série de radiografias cranianas.


Após o ocorrido, a diretoria do colégio marcou uma reunião com os nossos responsáveis para tentar resolver o mal-entendido sem que o caso fosse levado ao tribunal. Foi quando tomamos conhecimento de que Rafael, além de possuir graves retardos mentais, vinha sofrendo de profunda depressão resultante não só das nossas piadinhas a seu respeito, mas também, por seu avô tê-lo obrigado a se desfazer dos bichos que criava com tanto afinco — algumas dúzias de patos, cutias e galinhas.


Minha mãe estava pouco se fudendo para aquilo tudo e só falava em processos jurídicos, ameaçando o colégio e o avô de Rafael caso não pagassem as cirurgias plásticas necessárias para consertar o estrago feito em meu rosto. A diretoria procurava desesperadamente uma maneira de contornar a situação sem envolver autoridades judiciais e cogitaram até mesmo expulsar Rafael do colégio. O avô de Rafael, um senhor de idade bem avançada, estava atônito, suava, tremia e fumava um cigarro atrás do outro.


Foi aí que eu surpreendi todos com uma manobra inesperada e decidi fazer um trato com o avô de Rafael. Chamei o velhote num canto e ditei minhas exigências. Ou ele cumpria com o que lhe propus e daríamos o assunto por encerrado ou eu contrataria um bom advogado e faria o cacete da justiça entrar no seu traseiro velho e ressecado. Era pegar ou largar.


Após me ouvir falar, o avô de Rafael ergueu com dificuldade seus frágeis bracinhos maltratados pela artrose e me deu um afetuoso abraço, carente de força, mas com forte cheiro de nicotina. Em seguida, com lágrimas nos olhos, disse que pessoas iguais a mim são como pedras preciosas nesse mundo de hoje — nenhuma mulher me dedicou palavras tão belas. Ele acendeu outro cigarro — pelas minhas contas, o sétimo em menos de quinze minutos — e me garantiu que cumpriria sua parte no combinado. O caso foi encerrado e entrou para a história do colégio. Virei lenda!


Volta e meia, sempre que o assunto vem à tona, minha mãe me pergunta o que eu combinei com o avô de Rafael. Eu sempre mudo de assunto fingindo não dar importância ou ter me esquecido do ocorrido. Mentira! Eu jamais poderia esquecer. Afinal, sempre que a lâmina de barbear abre um corte sobre a cicatriz deixada por aquela atitude canibalesca, eu me lembro do horripilante rosto de Rafael Barra e ouço o “nhac!” de sua mordida se propagando no pé do meu ouvido.


Felipe Attie