TUDO QUE CABE NO BOLSO NÃO TEM PREÇO

Era um dia como outro qualquer, quando entrei na livraria para matar o tempo e me deparei com o livro $29,99, do escritor Frederic Beigbeder.  Era o único exemplar à venda e, apesar de estar empoeirado e levemente danificado, eu me apaixonei pela sua capa (foda-se! Quem disse que não se julga um livro, também, pela capa?). Tomei um susto ao olhar o preço etiquetado, eu não tinha dinheiro para pagar sequer pela capa de que tanto havia gostado. Então não tive escolha, senão colocar em prática um dos lemas que criei para facilitar minha existência nesse mundo economicamente injusto: tudo que cabe no bolso não tem preço.


Óbvio que o livro não cabia no meu bolso, mas eu costumo adaptar meus lemas às condições do momento. Sendo assim, o próximo passo foi executar minha tática de furto que consiste basicamente em manter uma atitude espontânea. Eu sei, você deve estar se perguntando como é que alguém consegue roubar um livro de uma livraria de renome internacional sem ser notado. Mas acredite, a coisa é mais simples do que parece. Aqui vão algumas dicas:


1º Não procure pelas câmeras de segurança. Caso seja pego, você não terá como argumentar contra o vídeo que foi gravado de você olhando de maneira suspeita para as lentes das câmeras. Sendo assim, ignore-as.


2º Saiba qual livro irá roubar. Sempre é bom sair de casa com o livro em mente. Ladrão indeciso é ladrão algemado. Portanto, pegue o desejado e caia fora.


3º Não fuja dos seguranças. Não existe comportamento mais suspeito do que esse. Então, se possível, vá até um deles e pergunte algo, puxe assunto, isso é primordial na construção de uma postura espontânea. Lembre-se: quem não deve, não teme.


4º Tenha sempre um celular em mãos. Enquanto estiver saindo da livraria, finja que está atendendo a uma ligação importante e faça caras e bocas de preocupação. Assim, caso seu plano fracasse, você poderá argumentar em sua defesa o que as câmeras de segurança registraram: uma ligação importante roubou sua atenção fazendo-o, por distração, levar o livro sem pagar. Nada que um pedido de desculpas não resolva.


Essas são algumas regrinhas que aprendi sozinho, após tanto furtar livrarias e lojas de conveniência. Seguindo esse passo a passo, dificilmente você será capturado. Comporte-se como se o livro já fosse seu, como se você estivesse entrado com ele na livraria. Acredite nisso que dará certo. Sempre funciona!


Lembro que, durante minha infração, meu único obstáculo foi desviar a atenção de um desses leitores malditos que gostam de ficar sentados no chão das livrarias como se estivessem na sala de casa. Era um sujeito estranho, vestindo uma blusa estranha de listras tão finas que dava vertigem olhá-lo por mais de cinco segundos. Seu olhar não parava de me seguir e, com certeza, não seria uma boa ideia sair da livraria naquele momento. A maneira como ele me olhava era desconfortante. Franzi a testa forçando uma atitude arrogante que o levasse pra bem longe, mas não tive sucesso. A situação piorou quando ele se aproximou puxando conversa. Então eu não tive escolha senão simular um comportamento psicótico cheio de tremedeiras e tiques nervosos. Olhei para ele com os dentes trincados e um filete de saliva espumante escorrendo pelo canto da boca, assustando-o o suficiente para fazê-lo desistir de suas intenções. Enfim, saí da livraria com o livro embaixo do braço, fingindo falar ao celular.


Cheguei em casa e me deliciei com o bom texto de Frederic Beigbeder. Li o livro numa única noite, sem intervalo. Após terminá-lo, no momento em que fui guardá-lo na estante, olhei para o exemplar e sentenciei: eu sou um ladrão. Em meio ao emaranhado reflexivo que tal afirmação me lançou, fui tomado por um raro peso na consciência que me fez concluir que o correto a ser feito seria devolver o livro. Estou longe de ser um exemplar descente da raça humana, mas às vezes, eu sofro lapsos repentinos de honestidade que me fazem andar na linha. Como se não bastasse, o bom senso foi ainda mais fundo e me mostrou que eu não deveria simplesmente devolver o livro, mas sim, pagar por ele. Afinal, eu já tinha lido. Caso contrário, seria como devolver um chiclete mastigado.


No dia seguinte, voltei à livraria, fui até o caixa e paguei pelo livro que me foi devolvido junto a uma nota fiscal em uma sacola plástica com a logomarca da loja estampada. Encarei a notinha por alguns instantes, orgulhoso da minha atitude, e olhei sorridente para a funcionária do caixa que permaneceu sem entender nada me observando por cima dos seus grossos óculos aro de tartaruga. Em seguida, decidi dar uma volta pela livraria, só pra passar tempo e desfrutar um pouco mais do meu momento de glória. Enquanto desfilava por entre as prateleiras, eu olhava para as pessoas ao meu redor como se dissesse “Eu paguei por esse livro! Paguei! Ele é meu!”, um sentimento quase que inédito para mim.


Durante a minha volta olímpica, me deparei com um livro grosso, cuja capa trazia uma ilustração de um super-herói socando Hitler. Li seu título: As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay. Interessante, pensei. Encarei mais uma vez a sua linda capa, ilustrada no estilo da era de ouro dos quadrinhos. Olhei ao redor. Olhei para o livro. Olhei ao redor. Olhei para o livro. Tudo que cabe no bolso não tem preço... Então meu celular tocou e era uma ligação muito importante de alguém que nunca existiu.

 



Felipe Attie