UM GAROTO EXEMPLAR

Essa história aconteceu há bastante tempo, numa época onde a luta contra o patriarcado ainda não estava na moda e a palavra “machismo” não era repetida compulsivamente. Ele era apenas um garoto que passava os dias trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas. “Um garoto estranho” era o que diziam.


Era sábado e fazia sol. Ele e seus amigos estavam reunidos na garagem de casa, bebendo cerveja e ouvindo música. Um bando de adolescentes, bebendo cerveja e conversando sobre coisas aleatórias.


“Vocês viram o clipe novo do Pearl Jam?”


“Não gosto deles. Prefiro Nirvana!”


“Nirvana acabou! Kurt já era!”


“Mesmo com uma bala calibre 12 na cabeça, ele consegue ser melhor do que esses caras!”


Um bando de adolescentes, bebendo cerveja e conversando sobre coisas aleatórias. Mas todo grupo de amigos tem um babaca que gosta de contar vantagem. Ali, naquela garagem, as coisas não eram diferentes. Rafael era o nome dele. Sempre que ele abria a boca, você tinha a certeza de que seus ouvidos seriam contemplados com alguma história extraordinária que se equilibrava de forma suspeita na linha tênue que divide a verdade da mentira. Por maior que fosse nosso esforço, na maioria das vezes, era difícil acreditar em Rafael.


“Ontem foi incrível!” começou ele, enquanto abria uma nova cerveja. “Eu e Ísis transamos a noite toda!”


Os olhares do resto do grupo se cruzavam num misto de deboche e desconfiança. “Lá vem Rafael outra vez...” é o que diziam em pensamento.


“Ela é muito safada, cara! Gostosa e safada! Até o cu ela me deu!”


“Sério?!” perguntou incrédulo um dos ouvintes.


“Fiz de tudo! Buceta, bunda, até na boca eu gozei!”


“Ela bebeu?” perguntou outro.


“Tudo! Ainda pediu mais! Muito puta, cara!”


Sentado na cadeira, diante de seu público juvenil, Rafael mais uma vez desfrutava da glória construída através de narrativas exageradas, esbravejadas entre goles de cerveja. Mas daquela vez seria diferente. Era preciso dar um basta nisso.


Essa história aconteceu há bastante tempo, numa época onde a luta contra o patriarcado ainda não estava na moda. Hoje é comum ouvirmos por aí, as pessoas falando que não devemos rir de piadas machistas, nem participar de rodinha de amigos difamando mulheres. Mas, naquela época, esses comportamentos não eram marginalizados e isso fazia com que ele se sentisse mais deslocado ainda. Ele não concordava com aquilo. Ele não queria perpetuar aquilo. Ele precisava dar um basta naquilo. Ele era apenas um garoto que passava os dias trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas.


A leitura ensinou muita coisa pra ele. Foi através da leitura que ele aprendeu que o hidróxido de sódio, também conhecido como soda cáustica, é uma das substâncias mais corrosivas que existem e que deve ser manipulada com cuidado, devido a sua capacidade de destruir os tecidos vivos e causar queimaduras graves.


“Preferi comer o cu. A buceta dela é muito larga. Arrombada!”


“Buceta de puta é assim mesmo!”


Foi através da leitura que ele aprendeu que, para dissolver a soda cáustica em água, o procedimento correto é adicionar a soda à água e nunca o contrário. Os gases que o produto libera durante a reação com a água não devem ser inalados, porque causam danos às mucosas bucais e nasais e principalmente aos alvéolos pulmonares.


“Eu quase gozei só de ver ela de quatro, com o rabo empinado, pedindo pra eu meter com força!”


“Me passa o contato dela. Deixa eu comer ela também!”


Foi trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas, que ele aprendeu que, para fazer a diluição, é necessário utilizar utensílios de plástico resistentes ao aquecimento. Por que, em contato com a água, a soda cáustica libera energia em forma de calor aquecendo a solução e elevando sua temperatura a cem graus Celsius.


“Vou passar contato nenhum! Deixa eu fuder ela mais um pouco, depois eu passo.”


“Ihhhhh! O cara ficou gamado!”


“Gamado porra nenhuma! Mas só vou deixar vocês comerem quando ela tiver toda estragada! Hahahahaha!”


Ele sabia que a ingestão de soda cáustica pode levar a óbito. Mas também sabia que, se diluída num copo de cerveja, por exemplo, numa proporção menor que 2,5%, pode causar apenas queimaduras superficiais nas mucosas da boca e do esôfago.


“Cara, ela chupa muito gostoso! Papo sério. Ela engoliu meu pau todo!”


“Mas isso é fácil, com essa merreca que você carrega entre as pernas!”


“Minha cerveja acabou! Pega outra lá.”


Daquela vez seria diferente. Era preciso dar um basta. Rafael precisava de uma lição. Tem gente que só aprende na dor.


Foi trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas, que ele aprendeu que, quando a soda cáustica é ingerida, os efeitos são instantâneos. Na hora, o indivíduo sente uma ardência, uma sensação de perfuração e dificuldade para engolir. Como a substância tem sabor ácido, o indivíduo é levado a cuspir automaticamente. Mas era tarde demais. O estrago já havia sido feito.


Enquanto presenciava Rafael se contorcer de dor, ele repassou na cabeça todas as vezes em que o presenciara difamando mulheres em troca de risadas e atenção. Ele se lembrou da Carol Ruela Frouxa, de Renata Galopada Feroz, de Janaína Boquinha Mágica e de Ingrid Tetinhas De Funil. Ele se lembrou de Valeska Putinha de Ouro e de todas as demais mulheres que protagonizaram suas histórias.


Enquanto presenciava Rafael tentando vomitar, ele lembrou que, em caso de ingestão, a pessoa não deve provocar vômitos para evitar que a substância passe mais uma vez pela mucosa e cause mais lesões.


Quando um dos garotos que estavam reunidos naquela garagem, bebendo cerveja e conversando sobre coisas aleatórias, entregou um copo d’água para Rafael, ele lembrou que, em caso de ingestão, a pessoa não deve beber água, pois isso aumenta a superfície de contato da soda cáustica com os tecidos. Ele sabia disso porque passava os dias trancado no quarto, lendo sobre coisas que não costumam despertar o interesse de muitas pessoas. “Um garoto estranho” era o que diziam.


Mas essa história aconteceu há bastante tempo, numa época onde a luta contra o patriarcado ainda não estava na moda e a palavra “machismo” não era repetida compulsivamente. Se tivesse acontecido hoje em dia, se tivesse parado na internet, as coisas seriam diferentes. “Um garoto exemplar” era o que diriam a seu respeito.


Felipe Attie