VELHO DEMAIS PARA GANHAR PRESENTES

Eu sempre gostei do Natal. Talvez, seja pelo espírito infantil que ainda vive dentro de mim, ou pelo saudosismo que me faz olhar para trás e concluir como foi boa a minha infância.  Não sei ao certo o que me faz gostar tanto dessa época do ano, só sei que ela me enche de felicidade mesmo com todas as suas tradições idiotas. A minha família, por exemplo, sempre teve o costume de se reunir nas noites de Natal. Quando eu digo família, eu não estou me referindo apenas a pai, mãe, tios e avós. Mas sim, a todas as pessoas que fazem parte da mesma árvore genealógica, não importando o quão distante do tronco fica o galho de onde elas vêm. Por isso, a lembrança que tenho do Natal é a da casa cheia de pessoas que eu mal sabia que eram meus parentes.


“Você que é o filho do Pedrinho?”, perguntava um sujeito careca que eu nunca tinha visto antes.


“É ele sim!”, afirmava uma velha pelancuda. “Olha como ele cresceu!”


“É a cara do pai!”, completava o sujeito.


“Peguei você no colo!”, exclamava a velha, apertando as minhas bochechas com as mãos sujas de rabanada.


“Felipe, vem cá!”, gritava meu pai do outro lado do quintal.


Eu olhava e lá estava ele, acompanhado de uma mulher que eu nunca tinha visto nem em fotos de família.


“Que foi, pai?”


“Essa aqui é Helena”, dizia ele, apontando para a mulher. “Ela é prima de segundo grau do tio Chico, primo do papai.”


Então eu permanecia calado, tentando entender a origem genética de Helena, minha mais nova tia.


Todo ano era a mesma coisa. A cada Natal, eu conhecia, pelo menos, um casal de tios novos. Às vezes, eles vinham com um primo de brinde.


“Você é o Felipe?”


“Sou.”


“Legal! Eu sou o Pablo, seu primo.”


Cenas como essas eram comuns nas festas de fim de ano da minha família. Quando os estranhos não vinham até a gente, meus pais nos forçavam a ir até eles, colocando em prática a tradição de dedicar o mês de dezembro para visitar os parentes distantes. Apesar de eu e meu irmão não acharmos nem um pouco divertido participar dessa burocracia familiar, nós tínhamos a esperança de ganhar algum presente pelo caminho. Afinal, todos sabem que o público alvo das festas natalinas são as crianças. Mas sempre acabávamos frustrados.


“Nossa! Como vocês estão bonitos!”, dizia uma tia que tínhamos acabado de conhecer.


Eu e meu irmão nos entreolhávamos, respirávamos fundo e nos preparávamos para o interrogatório.


“Vocês estão estudando?”


Fazíamos que sim com a cabeça.


“Passaram de ano?”


Fazíamos que sim com a cabeça.


“Muito bem! Só vão ganhar presente se forem bem nos estudos!”, dizia ela, abrindo uma gaveta, de onde tirava dois embrulhos pequenos e malfeitos.


Eu e meu irmão nos olhávamos, já prevendo o cruel destino que nos aguardava.


“Esse é para você e esse é para você”, dizia ela, entregando um pacote para mim e outro para o meu irmão.


Então nós abríamos e víamos que se tratava de duas canetas iguais, diferenciadas, no máximo, pela cor.


“Vocês gostaram?”, perguntava ela, sorridente.


Nossa resposta era um “sim” tão falso quanto o nome Montblanc decalcado na caneta que havíamos acabado de receber.


Se cada tio e tia que conhecêssemos durante o Natal nos presenteassem com algo digno de ser chamado de presente, eu e meu irmão poderíamos abrir uma revendedora de brinquedos. Mas, para o nosso azar, tudo que ganhávamos eram canetas. De modo que, quando completei 12 anos, eu já tinha uma gaveta cheia de Montblancs falsificadas — a última que eu me lembro, foi usada durante a faculdade.


Mas, no quesito presentes, ninguém conseguia competir com tia Fátima, minha madrinha. Sempre vinham dela os presentes mais esquisitos. Todo Natal, o mesmo ritual se repetia: tia Fátima aparecia sorridente e saltitante, segurando um saco maior que o do Papai Noel, reunia todos os sobrinhos na sala e, em meio a um clima de tensão e expectativa que ela mesma fazia questão de criar, chamava um por um para receber seu presente.


“Esse aqui é do... é do... é do... Felipe!”, gritava tia Fátima, segurando um embrulho igual a todos os outros que estavam dentro do saco.


Eu me levantava, pegava meu presente e, antes de abri-lo, era interrompido por algum comentário seu — ela sempre fazia comentários que pudessem valorizar seus presentes.


“Essa é uma pedra ametista, representante do signo de gêmeos, o seu signo. Ela tá energizada para te trazer bons fluídos!”, comentou ela certa vez.


“Mas tia, eu sou de câncer!”


“Não senhor! Você é gêmeos, igual ao seu primo Bruno!”


“Não, Fátima, o Felipe é câncer!”, interrompeu minha mãe.


“Nada disso, ele é gêmeos!”


“O que eu faço com isso, tia?”, perguntei, com a pedra apoiada na palma da mão.


“Ele é do dia 21 de Junho, Fátima! É o primeiro dia de câncer!”


“Eu quero minha pedra! Eu quero a minha pedra!”, berrou meu irmão, sentindo-se injustiçado por não ter ganhado sua pedra energizada.


“O que eu faço com isso tia?”


“Guarda com você pra te trazer sorte!”


Lembro-me de ter colocado a pedra no bolso e nunca mais a vi. Com certeza, ela deve ter caído pelo quintal durante a noite, enquanto eu brincava empolgado com os presentes de verdade que eu havia ganhado naquele Natal.


Certo ano, após ter realizado seu tradicional ritual de entrega de presentes, tia Fátima me chamou secretamente num canto da casa. “Esse é especialmente para você, meu afilhado lindo da dindinha!”, disse ela, entregando-me um embrulho.


Abri o pacote e me deparei com um anel.


“É de ouro branco!”, disse ela, entusiasmada.


Olhei para o anel, olhei para ela, olhei para o anel, olhei para ela, tentando entender o que leva alguém a dar um anel como presente de Natal para uma criança.


“Não vai usar?”


Tentei colocar o anel no dedo indicador, conforme ela havia dito, mas ele ficava largo até no meu polegar.


“O que tem de errado com o seu dedo?”


“Com o meu dedo nada, tia. O anel que é grande.”


“É grande coisa nenhuma! Você que tá magrinho demais!”


O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando ela me deu um cordão de prata que vinha até o meu umbigo mesmo dando duas voltas no meu pescoço.


Ao contrário de mim, meu irmão sempre teve sorte com os seus padrinhos. Tio Tonico e Tia Laiza acertavam em cheio no que dar de presente de Natal. O momento em que eles entregavam os embrulhos para serem abertos era um dos mais aguardados da noite e até eu desfrutava dessa glória. Afinal, eles também me presenteavam com coisas magníficas, talvez, por sentirem pena da minha coleção de canetas e pedras energizadas.


Apesar da situação financeira lá de casa ser um pouco apertada, eu e meu irmão nunca deixamos de ganhar bons presentes de Natal. Todo ano, o mesmo protocolo se repetia: em novembro, eu e meu irmão já tínhamos escolhido o que queríamos ganhar e, logo assim que falávamos com nosso pai, começava a contagem regressiva para o Natal. Nossa única preocupação era controlar a ansiedade e, lógico, passar de ano na escola. Foi assim, até os primeiros fios de barba nascerem no nosso rosto. Então, ele olhou pra gente e disse “vocês estão velhos demais para ganhar brinquedos e eu mais velho ainda pra ficar perambulando atrás de presentes”. Meteu a mão no bolso, puxou duas notas de cem e entregou uma pra mim e outra pro meu irmão, iniciando assim, um novo ritual natalino.




Felipe Attie 

SEMPRE VAI TER ALGUÉM ADMIRANDO O SEU GRAMADO

“O que é a tatuagem pra você?”, perguntou a gerente de um dos estúdios de tatuagem por onde passei, assim que pisei em São Paulo.


“Como assim?”, questionei. Sou daqueles que, diante um questionamento óbvio, sempre pensa que a pergunta é mais profunda do que parece.

 

“Quero saber o lugar que a tatuagem ocupa na sua vida. Qual a sua visão sobre o trabalho que faz”, explicou ela.

 

Sabia que a pergunta era mais profunda do que parecia ser. Refleti sobre a incrível oportunidade que meu trabalho me proporciona, de poder marcar a pele e a vida das pessoas, mas preferi responder que a tatuagem é basicamente o meu ganha pão.

 

“Você é do Rio?”

 

“Sou.”

 

“Por que decidiu vir pra São Paulo?”

 

“Porque to de saco cheio do Rio. To querendo respirar novos ares.”

 

“Mas por que São Paulo? O Rio é tão diferente daqui. Tão verde! Tão maravilhoso! Tão alto-astral! São Paulo é só poluição e caos!”

 

“Eu gosto de poluição e caos.”

 

Ela soltou uma gargalhada e disse que eu pareço ser uma pessoa bem tranquila.

 

“Assim como o Rio parece ser uma cidade maravilhosa e não é.”

 

“Veio sozinho?”

 

Fiz que sim com a cabeça.

 

“Não conhece ninguém aqui?”

 

“To conhecendo.”

 

“E o que te faz pensar que você vai conseguir se adaptar?”

 

“Não tenho nada a perder.”

 

“Faz sentido.”

 

Continuamos conversando sobre família, vida, trabalho, de forma que eu me senti num consultório de análise. Olhei para os pôsteres e a decoração do lugar para me convencer de que, de fato, havia entrado em um estúdio de tatuagem. No fim, ela pegou meu cartão, alegando me procurar para participar de um evento de tattoo que tava pra acontecer, me deu um abraço apertado e soltou: “Não deixa essa cidade contaminar você”.

 

“Contaminar?”

 

“É. Contaminar. Essa prisão de concreto enlouquece qualquer um!”

 

“Entendi”, respondi, sorrindo. “Acho difícil alguma coisa ser capaz de me contaminar!”

 

“Você que pensa”, sentenciou ela. “Cuidado!”

 

Suas palavras ecoaram na minha cabeça por um bom tempo, despertando em mim a velha máxima: a grama do vizinho é sempre mais verde.

 

Minha estadia em São Paulo provou que, de fato, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Eu achava que fosse o único amargurado com seu lugar de origem, mas não. Quanto mais conheço gente, mais vejo que isso é um mal que assola quase todos. Sempre que me escutavam dizer que fui pra São Paulo pra tirar férias do Rio, a reação era unanime: “Cê tá louco de sair do Rio, meu! Cê tá louco!”; “Sampa não tem nada! Só trabalho e os rolê são tudo caro!”; “As praias do Rio são lindas, mano! O que cê veio fazer aqui?”; “Sampa só é bom pra trabalhar. De resto, é maior embaçado!”. Então, eu soltava: “Você fala isso, porque não mora lá”. Em resposta, escutava: “E você não mora aqui”. Então, eu me calava e consentia.

 

Realmente, nunca estamos satisfeitos. Não estamos satisfeitos com nosso trabalho, nosso salário, nosso relacionamento, nosso carro, nosso celular... Nunca estamos satisfeitos com a vida que temos. Eu sempre achei que a insatisfação fosse o primeiro passo pra mudança e que a mudança fosse o único caminho que nos levasse ao crescimento. Tenho mudado minha visão em relação a isso.

 

Até que ponto devemos dar ouvidos as aflições que nos perturbam? Será que tudo que nos incomoda precisa ser mudado ou exterminado da nossa vida? Talvez não. Talvez, aprender a conviver com determinadas inquietações seja uma boa forma de amadurecer e se manter preparado para as amarguras da vida. Como diria o pai do Calvin, da tirinha Calvin and Hobbes, “fortalece o caráter”. Afinal, assim é a vida: mesmo você achando a grama do vizinho um pouco mais verde, sempre vai ter alguém admirando o seu gramado.

 

Felipe Attie