IDIOTAS

Os Idiotas são criaturas que acreditam deter sempre a razão e uma interminável fonte de conhecimento, o que faz com que sejam insuportavelmente arrogantes. Os Idiotas também são criaturas frustradas e, consequentemente, mentirosas. Tais características fazem com que eles estejam sempre contando sobre feitos inacreditáveis que ninguém, além de outro Idiota, é capaz de acreditar.


Entre outras peculiaridades dos Idiotas estão a ausência de senso de humor, a total falta de vergonha na cara, a mesquinharia e o machismo. Todo Idiota é machista, não importa seu sexo. Se o Idiota for homem, ele se acha um exemplo de masculinidade a ser seguido. Ele fala alto pra tentar demonstrar autoridade, grita nos churrascos e diz que beber cerveja é coisa de homem e que música clássica é coisa de viado. Se o Idiota for mulher, provavelmente, ela se casará com um Idiota homem e passará o resto da vida concordando com as idiotices do maridão, enquanto coloca o jantar no forno e executa as outras tarefas domésticas que são consideradas coisas de mulher.


Os Idiotas compartilham a opinião de que os idiotas homens vestem azul e mulheres vestem rosa. Meninos e meninas não podem brincar juntos, homem não chora, mulheres não trabalham e não podem transar no primeiro encontro.


Idiotas também costumam acreditar e revisitar teorias absurdas que foram criadas por Idiotas do passado, fazendo com que a chama da idiotice se mantenha viva através dos séculos. A teoria da Terra Plana e o movimento antivacina são alguns exemplos de idiotices antigas bastante atuais.


Infelizmente, ao contrário do mico-leão-dourado e do jacaré-do-papo-amarelo, os Idiotas não estão em extinção. Pelo contrário, a população de Idiotas está em constante crescimento pandêmico, uma vez que eles se reproduzem através do contato social. Isso mesmo, basta que um Idiota te diga “oi” para que você comece a correr grande risco de se infectado. Portanto, tome cuidado! Não adianta lavar as mãos e usar álcool em gel. Para se livrar do vírus da idiotice é preciso ignorar os infectados, fazendo com que mínguem no breu da ignorância e padeçam solitários até a morte. Só assim poderemos construir um mundo sem Idiotas. E não se esqueçam: vacinem seus filhos!

Felipe Attie

QUANDO O BARATO SAI CARO

Foi-se o tempo em que os restaurantes do centro do Rio de Janeiro disputavam clientes pelo paladar. Hoje, após a crise financeira ter se estabelecido entre os cariocas, os empresários do ramo gastronômico decidiram conquistar a clientela pelo preço. O slogan que antes era “Aqui você come mais gostoso!” foi substituído por “Aqui você come mais barato!”, resultando numa queda brusca, não só nos preços, como na qualidade gastronômica. Tive minha própria experiência, quando decidi arriscar minha saúde — já bastante debilitada pelo álcool —, almoçando num desses restaurantes conhecidos pelos seus preços populares.


Logo na entrada, você nota que lá dentro as coisas são realmente populares. Parece que toda a população do Rio de Janeiro está lá, dificultando sua passagem até o balcão dos talheres. Como se isso não fosse o suficiente para roubar seu apetite, outra característica desses estabelecimentos é a capacidade que um alimento tem de se parecer com outro. Tirando o arroz e feijão, nada mais naquele lugar se parece com o que de fato é. No meu prato, por exemplo, tinha arroz, feijão, beterrabas que pareciam jilós, um pouco de batatas que lembravam moela e um pedaço de lasanha que, de acordo com o cardápio, era considerada carne.


O que acontece é que, devido ao baixo valor cobrado pela refeição, cada cliente só tem direito a se servir de um único tipo de carne. E com o intuito de restringir as opções a ponto de compensar o valor cobrado, eles incluem uma variedade de alimentos de custo mais elevado no grupo denominado carne.


“Mas lasanha não é carne!”, reclamei indignado.


“Qual o sabor da sua lasanha, senhor?”, perguntou a servente, olhando-me com indiferença.


“À Bolonhesa”, respondi.


“Então é carne.”


Dei de ombros, aceitando a nova nomenclatura que a lasanha havia acabado de receber, e comecei minha busca por um lugar vazio onde eu pudesse sentar e comer minha refeição. É aí que mora outro problema característico desses estabelecimentos. Na tentativa desesperada de acomodar o maior número possível de clientes, os administradores desses restaurantes têm o péssimo costume de adotar bancadas ao invés das tradicionais mesas. Isso faz você almoçar ao lado de pessoas estranhas que passam o tempo todo observando seu processo alimentar de maneira constrangedora e irritante.


Ao dar a primeira garfada no que pareciam ser batatas, eu fui surpreendido por um sabor adocicado semelhante ao de bananas. Engoli outra garfada e o sabor ser revelou ainda mais misterioso. Comi uma terceira garfada, mastiguei com calma, e cheguei à conclusão de que aquilo definitivamente não era batata.


Perguntei à servente que alimento era aquele em meu prato, mas ela não soube me dizer.


“Você não sabe me dizer o que é isso?”, perguntei surpreso, apontando com o garfo para o meu prato.


“Meu filho, se você que tá comendo não sabe o que é isso, como eu, que tô só olhando, vou saber?”


“Pode provar, se quiser”, disse, oferecendo uma garfada.


“Quero não. Obrigada”, respondeu ela, fazendo uma careta de nojo que revelou muita coisa sobre aquele lugar.


“Isso é banana caramelada”, falou uma mulher que estava limpando o chão ao nosso lado. Ela era baixinha e segurava uma vassoura enrolada em um pedaço de pano mais sujo que o chão que ela esfregava insistentemente.


Banana caramelada?! Tem certeza?”


“Tenho. Fui eu que fiz.”


Você que fez?”


“Foi. Por quê? Não gostou?”, perguntou ela, mergulhando o pano encardido num balde com desinfetante.


“Eu achei que você fosse faxineira.”


“Sou também. Mas aqui, a gente faz de tudo”, respondeu ela, pegando o balde e o esfregão. “Agora deixa eu ir, que vem a pior parte!”, resmungou, antes de partir rumo ao banheiro masculino.


Como um diabético responsável que tento ser, fui até o gerente, expliquei o mal entendido e pedi para me fornecer outro prato.


“Poxa! Vamos perder uma carne!”, lamentou o gerente, apontando para a minha lasanha.


Fiz que sim com a cabeça, ainda confuso com a nova nomenclatura da lasanha.


Ele partiu com o meu prato rumo à cozinha e eu voltei ao início da fila para montar minha nova refeição, dessa vez, sem as bananas carameladas.


Enquanto eu decidia entre aipins que pareciam inhames ou couves-flores semelhantes a brócolis, um funcionário abriu espaço no balcão e colou à disposição uma nova travessa de lasanhas. Ao olhar para a tal travessa, me surpreendi ao ver o meu pedaço lá, quietinho, acuado entre os outros. Como tenho tanta certeza? Simples. Era o único pedaço de lasanha que tinha marcas em forma de coração feitas pelo garfo — desde pequeno tenho o hábito de brincar com a comida. Na mesma hora, eu pensei em denunciar o estabelecimento e armar um escândalo típico de quando estou alcoolizado, mas me dei conta de que seria uma situação um tanto ridícula, gritar para todo o restaurante que aquela lasanha com um coração desenhado era minha. Sendo assim, preferi entrar numa nova disputa por espaço, engolir aquilo que habitava meu prato e sumir daquele lugar o mais rápido possível.


Passei dias pensando no ocorrido e quanto mais eu pensava, mais eu me assustava com a possibilidade de já ter comido algo rejeitado por alguém. Então eu concluí que era uma preocupação desnecessária. Afinal, se você está disposto a entrar num restaurante como aquele, deve ter em mente que a única coisa que importa é o preço cobrado pela refeição.


Felipe Attie 

HIPOTRIP

A viagem de um jornalista diabético rumo ao buraco negro da hipoglicemia.


A diabetes é uma doença crônica que atinge cerca de 380 milhões de pessoas em todo o planeta e, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), esse número tende a aumentar. A OMS calcula que, em 2030, a diabetes será a sétima principal causa de morte. O Brasil é o quarto país com mais diabéticos no mundo, com cerca de 13 milhões de portadores. Eu sou um deles.

Desenvolvi diabetes na adolescência. Anos convivendo com essa doença me forneceram vasta experiência para lidar com os seus transtornos, principalmente referentes a hipoglicemia. Meu medo de ficar perneta, cego ou brocha que, segundo a medicina, são problemas decorrentes de quem mantém a taxa de glicemia elevada, faz com que eu tome mais insulina do que o necessário. Sim, eu aplico mais insulina do que o aconselhado pela minha receita médica. Isso condicionou meu organismo a funcionar com níveis cada vez mais baixos de glicose e o risco de entrar em coma por falta de açúcar tornou-se parte da minha rotina.

Foi então que decidi escrever um relato sobre uma crise de hipoglicemia, que costumo chamar de Hipotrip. Vou descrever cada sensação sentida, enquanto minha glicose despenca rumo à morte. Perguntei a um especialista o que ele acha sobre essa empreitada e sua resposta foi: “Isso é loucura! Uma atitude irresponsável e muito perigosa. A hipoglicemia oferece um risco muito maior ao paciente, pois, ao contrário da hiperglicemia, os baixos níveis de açúcar podem levar ao óbito imediatamente”, disse um endocrinologista que preferiu não ter sua identidade revelada. “Se você morrer, eu não quero meu nome vinculado a isso”, alertou. Portanto, caro leitor, deu pra notar que a coisa é séria. Jamais tente isso em casa. Agora, mãos à obra que a viagem é louca. Ah! Em relação ao nosso médico, vamos chamá-lo de doutor Ricardo.

 

19h22

Glicose: 148 mg/dl

Minha glicose está um pouco alterada. “A taxa de glicose não pode ser maior do que 99mg/dl para pessoas não diabéticas e 110 mg/dl para diabéticos”, explica Ricardo. Aplico 6 unidades de insulina de ação rápida e aguardo a Hipotrip começar. Ricardo diz que “os calafrios e a sudorese, quase sempre, são os primeiros sinais da hipoglicemia, mas isso pode variar de acordo com o organismo da pessoa”.

 

21h35

Glicose: 56 mg/dl

Enquanto finalizo algumas ilustrações que estão pendentes, começo a sentir um leve mal-estar. Uma sensação de fraqueza que me deixa indisposto para continuar desenhando. Meus lábios tremem como se minha boca quisesse dizer alguma coisa por conta própria (talvez, me xingar por estar submetendo meu corpo a algo tão estúpido). Em seguida, meu corpo começa a coçar. É como se meus músculos estivessem formigando. Um comichão perturbador que brota por debaixo da pele. Por mais que eu esfregue, nada põe fim a essa incomoda sensação. Não tenho escolha, senão, deixar o papel e caneta de lado e abortar o desenho.

Minha namorada liga e diz que está vindo pra minha casa. Acho uma boa ideia. Pelo menos terei alguém pra encontrar meu corpo, caso o pior aconteça.

 

22h10

Glicose: 42 mg/dl

As “formigas” que caminhavam dentro de mim desapareceram. Meus pés e mãos estão gelados. Minha respiração está densa. Preciso puxar mais ar do que o necessário para respirar. Coloco o filme Gata Velha Ainda Mia (com Regina Duarte e Bárbara Paz) para me distrair. Recebo uma mensagem da minha namorada dizendo que vai se atrasar. Espero que ela chegue a tempo de me levar ao hospital.

 

23h

Glicose: 39 mg/dl

Quase uma hora se passou e minha glicose, apesar de baixa, se mantém estável. De acordo com Ricardo “quando o organismo está sofrendo uma crise severa de hipoglicemia, uma quantidade reserva de glicose é liberada como medida de emergência”. Sendo assim, aplico mais duas unidades de insulina de ação rápida (o que, nas atuais circunstâncias, pode ser considerado suicídio). O filme continua mas, mesmo com Bárbara Paz mostrando a bunda e os seios nada é capaz de prender minha atenção. Sinto dificuldade para respirar. Meus olhos pesam... não consigo me concentrar... estou me sentindo sonolento... fraco...

 

23h45

Aceleração cardíaca. Abro os olhos e estou deitado na cama. Meu coração bate furiosamente contra as paredes da minha caixa torácica. Apesar do desconforto, eu sei que isso nada mais é do que meu organismo liberando adrenalina para me manter acordado. Ouço um barulho vindo da cozinha. Alguém acendeu o fogão. Saio do quarto e me deparo com minha namorada fumando um cigarro.

“Você chegou tem muito tempo?”

“Tá maluco? Eu falei com você. Mas você tava vendo filme e eu vim aqui fora fumar.”

“Não vi.”

“Como assim?! Você guardou minha bolsa no armário!”

“Eu? Sua bolsa? Não lembro.”

Então eu percebo que estive fora do ar por alguns instantes. Essa é uma das características da Hipotrip. Enquanto minha namorada prossegue com a conversa, meu organismo começa a implorar por um bocado açúcar. “Durante uma crise de hipoglicemia, na tentativa de se manter vivo, o organismo prioriza as funções mais vitais, como a respiração, por exemplo. Com isso, um simples diálogo torna-se algo complicado de ser realizado”, explica Ricardo.

“O filme é legal?”

“Que filme?”

“O filme que você tava vendo!”

Para formular uma simples resposta, eu preciso me concentrar, respirar fundo e ordenar as palavras mentalmente antes de pronunciá-las.

“É legal! A gata mia!”

“Que gata mia?”

Permaneço calado, torcendo para que minha namorada entenda o que estou tentando dizer e poupe-me da árdua tarefa de ter que repetir.

“Você tá bem?”

“OK”, repondo. Em seguida, abano as mãos para dissipar a fumaça exalada pelo seu cigarro. Uma atitude compreensível, se não fosse pelo fato de ela não estar mais fumando.

“O que você está fazendo?”

Percebo minha gafe e tento consertar as coisas dizendo “O seu negócio aí no cabelo... No seu cabelo... Ele tá vindo pra cá.”

“Que negócio? Você tá com a glicose baixa?!”, ela pergunta, já conhecendo meu histórico hipoglicêmico.

Minhas mãos começam a tremer. Os espasmos rapidamente se espalham pelo meu corpo, dificultando ainda mais minha respiração. Percebo que a qualquer momento eu vou apagar. Não tenho escolha, a não ser pronunciar a palavra que serve como sinal de alerta para todos que me conhecem: “açúcar”.

Toda Hipotrip tem um ápice. É quando seu corpo, após ter consumido toda sua reserva de glicose, chega ao esgotamento extremo. A partir daí, você para de raciocinar e começa a perder os sentidos. Nesse ponto, se não tiver alguém para te ajudar, você certamente morrerá”, esclarece o doutor.

Procuro minha namorada mas não encontro. Ela desapareceu! Preciso de açúcar. Sinto algo me puxar pelos ombros e me arrastar para o quarto.

“Fica aqui!”, minha namorada ordena, colocando-me sentado na cama. Em seguida, ela pega meu aparelho de glicose e pergunta: “Como liga essa merda?!”

“Tava... eu... desenhando... açúcar...”

“Anda, me diz! Como liga essa coisa?!”

De acordo com minha namorada, nesse instante, eu pego o controle remoto da televisão e aperto contra o meu dedo. Estou incapaz de diferenciar o coletor de sangue usado para verificar a glicose do controle remoto de televisão. Preciso urgentemente de açúcar.

“Existem duas maneiras de tratar a hipoglicemia. Se o paciente estiver inconsciente é necessário aplicar injeções de glucagon ou glicose intravenosa. Caso contrário, a ingestão de açúcar e sucos de fruta soluciona o problema”, explica Ricardo. E foi exatamente o que minha namorada fez, ao aparecer na minha frente segurando um copo de água com açúcar e uma lata de leite condensado.

Eu bebo. Conforme o açúcar entra no meu corpo, meu organismo se recompõe. Meu coração desacelera, a respiração tranquiliza, os tremores cessam e minha visão volta ao normal. Olho para minha namorada e seu semblante não é nada bom. Ela está com a cara amarrada e o dedo lambuzado de leite condensado apontado para mim.

“Que merda foi essa que aconteceu?”, pergunta ela, num misto de preocupação e revolta.

Penso em explicar os loucos e doentios momentos que ela acabou de presenciar, mas desisto. De nada adiantaria explicar. Ela nunca entenderia. Ninguém nunca entenderá. Afinal, se tem uma coisa que eu aprendi com essa doença é que algumas coisas só podem ser compreendidas, quando se está com a glicose quase zerada.






Felipe Attie