QUANDO O BARATO SAI CARO

Foi-se o tempo em que os restaurantes do centro do Rio de Janeiro disputavam clientes pelo paladar. Hoje, após a crise financeira ter se estabelecido entre os cariocas, os empresários do ramo gastronômico decidiram conquistar a clientela pelo preço. O slogan que antes era “Aqui você come mais gostoso!” foi substituído por “Aqui você come mais barato!”, resultando numa queda brusca, não só nos preços, como na qualidade gastronômica. Tive minha própria experiência, quando decidi arriscar minha saúde — já bastante debilitada pelo álcool —, almoçando num desses restaurantes conhecidos pelos seus preços populares.


Logo na entrada, você nota que lá dentro as coisas são realmente populares. Parece que toda a população do Rio de Janeiro está lá, dificultando sua passagem até o balcão dos talheres. Como se isso não fosse o suficiente para roubar seu apetite, outra característica desses estabelecimentos é a capacidade que um alimento tem de se parecer com outro. Tirando o arroz e feijão, nada mais naquele lugar se parece com o que de fato é. No meu prato, por exemplo, tinha arroz, feijão, beterrabas que pareciam jilós, um pouco de batatas que lembravam moela e um pedaço de lasanha que, de acordo com o cardápio, era considerada carne.


O que acontece é que, devido ao baixo valor cobrado pela refeição, cada cliente só tem direito a se servir de um único tipo de carne. E com o intuito de restringir as opções a ponto de compensar o valor cobrado, eles incluem uma variedade de alimentos de custo mais elevado no grupo denominado carne.


“Mas lasanha não é carne!”, reclamei indignado.


“Qual o sabor da sua lasanha, senhor?”, perguntou a servente, olhando-me com indiferença.


“À Bolonhesa”, respondi.


“Então é carne.”


Dei de ombros, aceitando a nova nomenclatura que a lasanha havia acabado de receber, e comecei minha busca por um lugar vazio onde eu pudesse sentar e comer minha refeição. É aí que mora outro problema característico desses estabelecimentos. Na tentativa desesperada de acomodar o maior número possível de clientes, os administradores desses restaurantes têm o péssimo costume de adotar bancadas ao invés das tradicionais mesas. Isso faz você almoçar ao lado de pessoas estranhas que passam o tempo todo observando seu processo alimentar de maneira constrangedora e irritante.


Ao dar a primeira garfada no que pareciam ser batatas, eu fui surpreendido por um sabor adocicado semelhante ao de bananas. Engoli outra garfada e o sabor ser revelou ainda mais misterioso. Comi uma terceira garfada, mastiguei com calma, e cheguei à conclusão de que aquilo definitivamente não era batata.


Perguntei à servente que alimento era aquele em meu prato, mas ela não soube me dizer.


“Você não sabe me dizer o que é isso?”, perguntei surpreso, apontando com o garfo para o meu prato.


“Meu filho, se você que tá comendo não sabe o que é isso, como eu, que tô só olhando, vou saber?”


“Pode provar, se quiser”, disse, oferecendo uma garfada.


“Quero não. Obrigada”, respondeu ela, fazendo uma careta de nojo que revelou muita coisa sobre aquele lugar.


“Isso é banana caramelada”, falou uma mulher que estava limpando o chão ao nosso lado. Ela era baixinha e segurava uma vassoura enrolada em um pedaço de pano mais sujo que o chão que ela esfregava insistentemente.


Banana caramelada?! Tem certeza?”


“Tenho. Fui eu que fiz.”


Você que fez?”


“Foi. Por quê? Não gostou?”, perguntou ela, mergulhando o pano encardido num balde com desinfetante.


“Eu achei que você fosse faxineira.”


“Sou também. Mas aqui, a gente faz de tudo”, respondeu ela, pegando o balde e o esfregão. “Agora deixa eu ir, que vem a pior parte!”, resmungou, antes de partir rumo ao banheiro masculino.


Como um diabético responsável que tento ser, fui até o gerente, expliquei o mal entendido e pedi para me fornecer outro prato.


“Poxa! Vamos perder uma carne!”, lamentou o gerente, apontando para a minha lasanha.


Fiz que sim com a cabeça, ainda confuso com a nova nomenclatura da lasanha.


Ele partiu com o meu prato rumo à cozinha e eu voltei ao início da fila para montar minha nova refeição, dessa vez, sem as bananas carameladas.


Enquanto eu decidia entre aipins que pareciam inhames ou couves-flores semelhantes a brócolis, um funcionário abriu espaço no balcão e colou à disposição uma nova travessa de lasanhas. Ao olhar para a tal travessa, me surpreendi ao ver o meu pedaço lá, quietinho, acuado entre os outros. Como tenho tanta certeza? Simples. Era o único pedaço de lasanha que tinha marcas em forma de coração feitas pelo garfo — desde pequeno tenho o hábito de brincar com a comida. Na mesma hora, eu pensei em denunciar o estabelecimento e armar um escândalo típico de quando estou alcoolizado, mas me dei conta de que seria uma situação um tanto ridícula, gritar para todo o restaurante que aquela lasanha com um coração desenhado era minha. Sendo assim, preferi entrar numa nova disputa por espaço, engolir aquilo que habitava meu prato e sumir daquele lugar o mais rápido possível.


Passei dias pensando no ocorrido e quanto mais eu pensava, mais eu me assustava com a possibilidade de já ter comido algo rejeitado por alguém. Então eu concluí que era uma preocupação desnecessária. Afinal, se você está disposto a entrar num restaurante como aquele, deve ter em mente que a única coisa que importa é o preço cobrado pela refeição.


Felipe Attie