UM MENINO, UM LOBO E UM BANDO DESAJUSTADOS

Menino & Lobo é uma tira em quadrinhos que aborda a relação de um garoto, chamado Apollo, com seu amigo de estimação, um lobo sábio e afetuoso chamado Nestor. A tira tem como premissa a frase “O homem é o lobo do homem”, tornada célebre pelo filósofo Thomas Hobbes.


Apollo é um menino que passa a maior parte do tempo questionando a natureza humana e a forma como nos relacionamos e agimos. As conclusões obtidas são, na maioria das vezes, decepcionantes, fazendo com que ele se envergonhe da sua própria espécie. Se pudesse escolher, Apollo definitivamente não seria um humano. Do lado oposto temos Nestor, um lobo muito bem resolvido em relação à vida e a sua existência. Seus comentários e sua conduta deixam claro que ele se sente superior à raça humana. Ele é a parte racional da relação, sempre tentando agir de forma consciente e menos impulsiva. Outros personagens que compõem o universo da tira são Lucius, um cão alcoólatra e desbocado que não tem medo de dizer o que pensa e Veronika, a pré-adolescente que odeia pessoas, prefere os animais e nutre uma paixão platônica por Lucius.


A ideia inicial da tira veio da minha sobrinha que andou uma época com mania de lobos. Tudo era lobo! O lobo tava embaixo da cama; o lobo tava atrás do sofá; o lobo ia roubar seus brinquedos... Daí, eu comecei a rabiscar um lobo no meu sketchbook. Mas, ao contrário do imaginário popular, minha intenção era criar um lobo amigo. Até que a frase de Thomas Hobbes (o homem é o lobo do homem) me veio à cabeça e senti vontade de trabalhar isso em forma de quadrinhos. Escolhi um menino pra representar a figura humana por acreditar que a infância é a melhor fase da nossa vida. Então, comecei a brincar com o contraste existente entre o comportamento humano e o animal, sempre com o objetivo de mostrar nosso pior lado. O resto veio de maneira espontânea. Lucius, por exemplo, nasceu da necessidade de extravasar todo o sarcasmo e deboche acumulados dentro de mim. Só precisei colocar uma cerveja em suas mãos e ele cumpriu bem o serviço.


Eu tenho um coquetel de influencias que ajudam a compor meu trabalho. Gosto de animações como Beavis and Butt-Head, a Vaca e o Frango, Ren & Stimpy, O Fantástico Mundo de Bobby e Eeck The Cat. Entre meus escritores favoritos estão Hunter S. Thompson, Chuck Palahniuk, David Sedaris e Lourenço Mutarelli. Biografias e documentários também rendem boas histórias. Ironicamente, não costumo ler quadrinhos, mas entre os cartunistas que me influenciaram posso citar Bill Watterson, Berkeley Breathed e Stephan Pastis.


Todo o meu trabalho é baseado no contraste e na quebra de estereótipos. Lucius é sarcástico e alcoólatra, o que o distancia demais da imagem que temos dos cães. Nestor, mesmo sendo um lobo selvagem, é muito racional e emotivo. Apollo, apesar de ser uma criança, utiliza um vocabulário rebuscado pra sua idade, abordando questões que muitos adultos sequer compreendem. Eu acho que a graça tá justamente em você presenciar os personagens agindo de forma inusitada, debatendo assuntos que fazem parte das nossas vidas. E a política é um terreno fértil pra isso. Gosto de assistir meus personagens discutindo questões sociais e políticas que estão ocorrendo diante dos nossos olhos enquanto estamos ocupados demais de cabeça baixa olhando pro celular.


Não tenho restrição nenhuma em relação a temas. Acho que a grande virtude do meu trabalho é poder compartilhar com outras pessoas assuntos que considero relevantes e é justamente isso que procuro fazer. Acho que o humor é a melhor maneira de superarmos ou convivermos com os problemas que nos aflige e, considerando o atual momento político-social que estamos vivendo, cada vez mais eu tenho certeza de que falta humor no mundo. Quer dizer, o humor existe, as pessoas é que precisam aceitá-lo.


Então é isso. Espero que vocês aceitem Menino e Lobo, mas sintam-se à vontade para discordar ou, até mesmo, odiá-los. Afinal, eu reconheço que não é tarefa fácil apreciar esse bando de desajustados.


Para ler as tiras do Menino e Lobo é só clicar aqui.



Felipe Attie